Home / Opinião / O vôo da galinha – por Foch Simão

O vôo da galinha – por Foch Simão

Segundo o relatório World Economic Outlook (Perspectiva Econômica Global) do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia brasileira deverá apresentar crescimento de apenas 1,6% em 2026, após revisão negativa de 0,3 ponto percentual em relação à projeção anterior, de 1,9%, em uma perspectiva de crescimento da economia global de 3,3% para o mesmo período. Esse desempenho confirma a permanência de um regime de crescimento estruturalmente baixo, fenômeno amplamente discutido na literatura do desenvolvimento econômico e incompatível com o potencial produtivo de uma economia emergente de grande porte como a brasileira.

A desaceleração projetada está associada, em larga medida, à manutenção de uma política monetária persistentemente contracionista, orientada prioritariamente pelo controle inflacionário via elevação da taxa básica de juros. Tal estratégia reflete uma concepção ortodoxa de política econômica, ancorada na neutralidade da moeda no longo prazo, pressuposto criticado desde Keynes (1936), para quem a taxa de juros exerce papel central na determinação do nível de investimento e, consequentemente, do emprego e da renda. A restrição monetária prolongada tende a desestimular a formação bruta de capital fixo, comprimindo a demanda agregada e reforçando trajetórias de estagnação.

Do ponto de vista keynesiano e pós-keynesiano, a eficácia do aperto monetário revela-se ainda mais limitada quando a inflação decorre predominantemente de choques de oferta, gargalos produtivos ou pressões externas, contexto no qual o aumento dos juros não atua sobre as causas do fenômeno inflacionário, mas amplifica seus custos sociais. Ademais, as taxas de juros elevadas por períodos prolongados incentivam comportamentos especulativos, reforçando a instabilidade financeira e deslocando recursos da economia produtiva para atividades rentistas.

Nesse sentido, a economia brasileira insere-se em um processo avançado de financeirização, entendido como a crescente dominância dos interesses financeiros sobre as decisões de investimento, produção e política econômica. A elevada remuneração dos títulos da dívida pública, associada a juros reais persistentemente altos, promove uma transferência sistemática de renda do setor produtivo e do Estado para os detentores de ativos financeiros, mantendo uma dinâmica de concentração de renda e riqueza em economias capitalistas contemporâneas.

No caso brasileiro, esse arranjo é agravado pela ausência de coordenação entre política monetária, política fiscal e uma estratégia nacional de desenvolvimento. Conforme destaca Bresser-Pereira (2018), economias periféricas que adotam regimes de juros estruturalmente elevados e câmbio apreciado tendem a sofrer de doença holandesa crônica e desindustrialização precoce, limitando ganhos de produtividade e perpetuando a dependência de setores primário-exportadores. A política monetária, nesse contexto, deixa de ser instrumento de estabilização para tornar-se fator de bloqueio ao desenvolvimento.

Adicionalmente, a condução da política econômica mostra-se condicionada por restrições político-institucionais de curto prazo, nas quais a preservação da credibilidade junto aos mercados financeiros e a manutenção de coalizões políticas se sobrepõem à implementação de reformas estruturais de longo alcance. Tal dinâmica corrobora a análise de Stiglitz (2012), segundo a qual a captura do Estado por interesses financeiros compromete a capacidade governamental de promover crescimento inclusivo e socialmente sustentável.

Em síntese, o crescimento anêmico projetado pelo FMI para 2026 não deve ser interpretado como fenômeno conjuntural, mas como expressão de um modelo macroeconômico disfuncional, caracterizado pela primazia do rentismo, pela subordinação da política econômica à ortodoxia monetária e pela ausência de um projeto consistente de desenvolvimento nacional. A reversão desse quadro exige não apenas ajustes técnicos, mas uma reorientação teórica e política da estratégia econômica, capaz de reconciliar estabilidade macroeconômica, investimento produtivo e redução das desigualdades.

Marcado:

Sign Up For Daily Newsletter

Stay updated with our weekly newsletter. Subscribe now to never miss an update!

[mc4wp_form]

Deixe um Comentário