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Os escândalos normais – por Rubens Figueiredo

Uma sociedade que já não se escandaliza, mesmo diante das maiores barbaridades, é uma sociedade doente, escreve Rubens Figueiredo

Dez promotores de Justiça do Gaeco (Grupo Especial de Combate às Organizações Criminosas) que investigavam o desvio de R$ 56 milhões na Prefeitura e na Câmara de Turilândia (MA) protocolaram pedido de exoneração coletiva de suas funções no caso. O motivo foi o parecer favorável à soltura dos investigados emitido pela Procuradoria-Geral de Justiça do Maranhão, que beneficiou 11 vereadores, o prefeito e a vice-prefeita.

Vamos combinar que não se trata de uma notícia banal. É grave. No Brasil, entretanto, a ideia de escândalo morreu como conceito. Escândalo pressupõe algo raro, completamente fora da norma — uma exceção. Não pode ser algo rotineiro. É um acontecimento extraordinário. Deveria provocar espanto, indignação e uma reação proporcional ao dano causado.

No Brasil, essa noção perdeu completamente o sentido. O espanto se banalizou. Tornou-se recorrente, previsível, quase protocolar. Os jornais bem poderiam trazer, ao lado das seções de economia, internacional e esportes, uma editoria fixa chamada “fatos escandalosos”. Acharíamos normal. Há vários escândalos todas as semanas — às vezes todos os dias — e, justamente por isso, eles já não escandalizam mais ninguém. O extraordinário virou rotina. Passaram a fazer parte da vida cotidiana, como a manhã, a tarde e a noite.

O resultado é um fenômeno curioso e inquietante: quanto mais denúncias surgem, menor é o impacto agregado que produzem. A multiplicação exponencial dos escândalos gerou sua própria desvalorização. O excesso corrói o valor. A surpresa acabou. É como se tivéssemos “escândalos políticos regulares”, no duplo sentido da palavra: frequentes e incorporados às regras do jogo.

Olhe o absurdo: cenas agressivas, humilhantes ou de cunho preconceituoso nos lastimáveis programas BBB ou A Fazenda geram reação imediata, mobilizam seguidores e fazem patrocinadores reverem estratégias de marketing. Diante disso, um escândalo político do porte do assalto aos velhinhos do INSS, por exemplo, passa a parecer brincadeira de criança.

Há algo ainda mais perturbador. Ter sido envolvido em um escândalo já não provoca vergonha em seus protagonistas. Ao contrário, muitas vezes confere status. Isso ocorre porque assistimos ao colapso da opinião pública como espaço comum de debate, de hierarquização da relevância dos acontecimentos e de disposição para rever juízos. O que existe hoje é a tribalização moral, convicções rígidas e o ódio como fator de identidade social.

As denúncias continuam a surgir em profusão. Investigações são abertas, manchetes ocupam capas de jornais, autoridades às vezes fazem pronunciamentos solenes. Mas não há consequências. Quando há reação institucional, ela raramente se traduz em transformação institucional. Estão devolvendo dinheiro para os réus confessos da Lava Jato! Punições são incertas, reformas são adiadas e a sensação predominante é a de que tudo termina em nada — até o escândalo de amanhã.

O escândalo, que deveria funcionar como mecanismo de correção e aprendizado coletivo, passou a desempenhar outra função: a de entretenimento político de baixa qualidade. Provoca mais bocejos do que indignação. As opiniões “consistentes” são produzidas pelos reality shows, pelas fofocas sobre subcelebridades e pelos posts de influenciadores. Isso, aparentemente, é o que realmente importa para o avanço civilizatório.

Alguém já disse que “o problema do Brasil não é a crise, é a solução”. Uma sociedade que já não se escandaliza, mesmo diante das maiores barbaridades, é uma sociedade doente. Quando integrantes do Gaeco do Maranhão pedem exoneração em protesto contra a impunidade e o fato é tratado como se fosse um palpite de previsão do tempo, algo está muito errado.

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