LUSCO-FUSCO de um dia de abril de 1995 que, apesar de já outono, a alta temperatura paulistana insistia em atormentar os engravatados barnabés do governo de São Paulo.
Marcos Mendonça, então Secretário da Cultura, acompanhado da fiel escudeira, a jornalista Adélia Lombardi, chefe da Comunicação, entra na sala de espera do Palácio dos Bandeirantes sobraçando uma pastinha de plástico e pergunta, pé-de-ouvido, ao Tenente Jurandir Junqueira, ajudante de ordens do governador Mario Covas:
— Como está o humor do chefe?
Recebe como resposta:
— Agora tranquilo, a filha e os netos passaram por aqui e é só alegria.
Foi a deixa para então emendar:
— Junqueira, arranja uns minutinhos pois tenho boa nova para assuntar com ele.
O secretário era tinhoso e conhecia muito bem o intrépido e nem sempre bem-humorado governador. Sabia os momentos em que podia aparecer sem hora marcada. Pudera, com ele convivia desde os tormentosos idos da redemocratização (1970 e 80), fora prefeito substituto de São Paulo quando Covas foi ao Japão em 1983 e como suplente o substituiu no Senado Federal quando Covas foi escolhido candidato a governador em 1994. Como era “da cozinha”, o ajudante de ordens não se fez de rogado:
— Toma café que eu o encaixo entre uma e outra audiência.
Antes que o cafezinho chegasse a temida porta se abre e a voz de barítono ressoa:
— Veio pedir dinheiro? Perda de tempo. Muitas audiências ainda…
— Que nada Mario, quero conversar rapidinho sobre um bom assunto que surgiu.
Mario Covas sabia que havia escolhido um dos seus melhores amigos e a ele dado um quase castigo, assumir a Secretaria da Cultura, ambiente permanente de conflitos internos e externos. Pelo lado interno era a horrorosa falta de orçamento, a mais pobre de todas as secretarias e quadro de servidores desestimulados, desacreditados e com salários de fome. E pelo lado externo dezenas de equipamentos culturais com disputa entre as correntes culturais, nichos ideologizados e políticos ansiosos pela ocupação de espaços para mandar. Apiedado, com nítida ponta de remorso, Covas assentiu:
— Entre! Como vai o seu palácio na Estação da Luz? Já enxugou os cargos em comissão e os penduricalhos nos contratos?
— Pois é Mario, muita conversa, incompreensões até de amigos e pleitos pela manhã, tarde e noite. Até quando consigo enrolar as classes artísticas, os políticos e os intelectuais não sei, porém coisas boas aparecem.
E emendou, quase em um só fôlego antes que alguém aparecesse para atrapalhar:
— Trago aqui algo que a Adélia analisou e afirma ser viável e de grande repercussão nestes tempos de vacas magras. Coisa simples, dissuadir as crianças a conviverem com boa música. Estimular a criação de Orquestras Infantis na periferia e no interiorzão. Custos baixíssimos se em conjunto com as prefeituras e a secretaria de educação. Cada grupamento propiciará para 50 a 100 crianças iniciação musical erudita. O único custo de nossa parte será o fornecimento dos instrumentos básicos. A educação ajuda com os seus professores de música e as prefeituras com espaços locais. E já tem experiência bem-sucedida, na Venezuela. Tem mais: se bem aceito, o número de alunos pode duplicar, pois também podemos instituir os Corais Infantis.
E arrematou com a cereja do bolo:
— Falei com o Toquinho, o compositor brasileiro mundialmente conhecido e autor de musicais infantis, e ele topou entusiasmado em ser o patrono do projeto, de graça! Que acha Mario?
A conversa prevista para um cafezinho virou confabulação de quase hora inteira. As outras audiências do governador naturalmente atrasaram, para sorte da história. O que encantou Mario Covas era que o projeto, no seu mais amplo sentido, tratava de inclusão social. A música seria apenas um meio e não um fim, pois para um menino pobre qual o sonho maior para o seu futuro? Jogador de futebol. Às meninas restaria ser atriz de novelas ou modelos de passarela.
E no bate-papo não esqueceram que a droga rolava solta na capital e no interior. Contudo, óbvio, nem todos virariam músicos, mas aprenderiam os valores de hierarquia, disciplina, trabalho em equipe, vida em comunidade e harmonia familiar. Seria algo novo na vida de jovens excluídos da educação formal e social. O projeto Guri estaria estruturado em uma ação sem assistencialismo demagógico, questiúnculas sociológicas ou cunhos ideológicos. Cresceriam cidadãos formados pelo caminho da erudição musical.
— Muuuuito bom… mas será complicado envolver a Rose no projeto (Rose era a Secretária de Educação). Lá estão em pé-de-guerra conosco. Até convencermos aquela máquina o governo terminou. Envolva antes as comunidades, igrejas, rotary, lions, maçonaria e os prefeitos. Depois, com o tempo e sucesso do projeto, envolvemos a Educação. Dinheiro você sabe que não tem, mas deixa que aos poucos eu resolvo. Vai devagar, um por um, e veja melhor a experiência venezuelana, mas não diga que vamos copiar. Crie algo com a cara de São Paulo.
— Aprovado então? Falo com o Dalmo (secretário adjunto do governo) sobre a licitação dos equipamentos musicais?
— Sim. E seja rápido antes que vaze para a imprensa e outros venham trombetear que a iniciativa foi deles…
— Boa noite, Mario, diga pra Lila (mulher do Mario e presidente do Fundo de Solidariedade do Estado) que ela será a madrinha. Fará par com o Toquinho.
Assim, de conversa despretensiosa nasceu o PROJETO GURI. Fruto da ousadia do Marcos em propor gastar dinheiro em tempos tão difíceis, quando diariamente se contavam as moedinhas para decidir quanta gasolina teriam os carros do governo no dia seguinte. E da sagacidade do Mario Covas ao ver que ali estava um projeto que seria absorvido com naturalidade e empatia pela população. E, melhor, não seria considerado eleitoreiro e amenizaria parte dos trancos que estava dando em toda a máquina governamental para colocar o estado de São Paulo nos prumos.
Covas, acometido de doloroso câncer, faleceu em março de 2001, já no segundo mandato de governo. Deixou ao sucessor caixa estabilizado, estado modernizado, governo organizado, grandes obras e em paz com as comunidades culturais. Nos eventos que participava, quando os acordes dos instrumentos iniciavam e cantos dos meninos do PROJETO GURI eram entoados, seus olhos marejavam. Por certo de incontida satisfação pelo sucesso que envolvia mais de 150 polos em todo o estado, com milhares de jovens praticando a boa música e que sabia, valera cada centavo gasto dado o retorno sociocultural de infinita aceitação do generoso povo paulista.
Morreu estadista!












