Vivemos um tempo marcado por instabilidade emocional, sensação de vazio e dificuldade crescente de lidar com frustrações. Em meio a esse cenário, surgem movimentos que prometem transformação rápida, especialmente direcionados aos homens. Propostas como subir montanhas, enfrentar desafios físicos intensos e participar de rituais coletivos são apresentadas como caminhos para aprender a ser homem, fortalecer a fé ou resgatar o propósito de vida. À primeira vista, essas experiências podem parecer motivadoras. Do ponto de vista da saúde mental, porém, exigem atenção.
Identidade, masculinidade e espiritualidade não se constroem por imposição nem por desempenho físico. Elas se desenvolvem ao longo da história subjetiva de cada indivíduo, a partir da elaboração de conflitos internos, afetos, limites e responsabilidades. Quando esse processo é substituído por experiências intensas e simbólicas, cria-se a ilusão de que o sofrimento psíquico pode ser resolvido por impacto emocional e não por elaboração.
A clínica é clara ao mostrar que ninguém se cura da noite para o dia. Ninguém se transforma porque realizou um grande esforço físico, participou de algumas meditações ou viveu uma experiência coletiva intensa. A cura, quando acontece, é lenta, gradativa e singular. Exige tempo, continuidade e implicação subjetiva. Ao prometer mudanças rápidas, esse tipo de atividade cria expectativas irreais e prepara o terreno para frustrações futuras.
Um dos riscos mais relevantes está na indução da mudança. Sabemos que só muda quem deseja mudar. Quando a transformação é estimulada por pressão grupal, discursos emocionais ou idealizações de força e virilidade, o sujeito pode até apresentar alterações aparentes no curto prazo, mas sem sustentação psíquica. Com frequência, isso resulta em recaídas emocionais, sensação de fracasso e culpa por não conseguir manter aquilo que foi apresentado como possível.
Outro ponto preocupante é a padronização do sofrimento. Movimentos como os chamados legendários tendem a oferecer uma narrativa única para dores múltiplas. Problemas complexos como crises de identidade, conflitos conjugais, dificuldades emocionais, inseguranças e sentimentos de inadequação passam a ser compreendidos como falta de força, disciplina ou fé. Essa leitura simplificada aprofunda o sofrimento, pois ignora a singularidade de cada história e afasta o sujeito do contato real com suas próprias questões.
Há também um efeito silencioso, mas frequente, que é o aumento da repressão emocional. Ao reforçar modelos rígidos de masculinidade, nos quais fragilidade, dúvida e vulnerabilidade são vistas como fraqueza, muitos homens passam a silenciar ainda mais suas dores. Em vez de elaborar o sofrimento, aprendem a escondê-lo. Isso contribui para quadros de ansiedade, irritabilidade, isolamento emocional, dificuldades nos vínculos e agravamento de sintomas depressivos.
Na prática clínica, não é raro receber homens que participaram dessas experiências e retornam frustrados, confusos e emocionalmente exaustos. Muitos acreditam que falharam, quando, na verdade, foram expostos a propostas que não respeitam o tempo psíquico nem a complexidade do sofrimento humano. A mensagem implícita costuma ser que, se não houve mudança, a culpa é do indivíduo. Esse tipo de discurso é profundamente adoecedor.
Talvez, ao invés de subir montanhas, gritar palavras de ordem e buscar soluções rápidas, seja necessário fazer um movimento mais silencioso e mais honesto. Interiorizar-se exige mais coragem do que qualquer desafio físico. Buscar ajuda de profissionais qualificados não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade e maturidade emocional. É nesse espaço de escuta, reflexão e continuidade que a mudança real acontece, quando existe, de fato, o desejo de mudar.
Cura não é espetáculo, não é prova de resistência e não acontece em um fim de semana. Cura é processo. Um processo construído com tempo, consciência e compromisso com a própria saúde mental. Ignorar isso não fortalece o sujeito. Apenas adia o enfrentamento real do sofrimento.












