São Paulo, abril de 2026 – No dia 11 de abril, quando se celebra o Dia do Infectologista, é oportuno refletir sobre uma evidência muitas vezes negligenciada fora dos momentos de crise: o controle de epidemias não começa no aumento de casos, mas muito antes dele e depende diretamente da atuação de médicos infectologistas.
Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado desafios concretos na área de doenças infecciosas. A queda na cobertura vacinal é um dos mais preocupantes. Dados do Ministério da Saúde mostram que índices que já chegaram próximos a 97% em 2015 caíram para cerca de 75% em 2020, cenário que favorece o ressurgimento de doenças previamente controladas, como sarampo e poliomielite.
Ao mesmo tempo, o país convive com um conjunto persistente de endemias que seguem exigindo vigilância contínua e resposta qualificada. Doenças como Tuberculose, Malária, Doença de Chagas e Paracoccidioidomicose permanecem como desafios estruturais de saúde pública, muitas vezes invisibilizados no debate cotidiano. O aumento recente na detecção de casos de tuberculose, por exemplo, evidencia lacunas no controle e na adesão ao tratamento.
Esses dados não são isolados. Eles apontam para um cenário em que a vigilância epidemiológica precisa ser permanente e é justamente nesse ponto que a infectologia se consolida como uma especialidade estratégica.
O infectologista atua antes, durante e depois das epidemias. Participa da vigilância epidemiológica, identifica padrões de transmissão, orienta protocolos clínicos, define estratégias de prevenção e contribui para a formulação de políticas públicas. É esse conjunto de ações que permite antecipar riscos e reduzir o impacto de surtos.
Outro eixo central dessa atuação é o enfrentamento da desinformação. A circulação de conteúdos falsos ou distorcidos sobre vacinas, antibióticos e formas de transmissão compromete diretamente a adesão da população às medidas de prevenção. A hesitação vacinal, por exemplo, tem sido apontada como um dos fatores que dificultam a recuperação das coberturas no país, muitas vezes alimentada por mitos disseminados nas redes sociais.
Além disso, a resistência antimicrobiana avança como uma ameaça silenciosa. O uso inadequado de antibióticos acelera o surgimento de bactérias resistentes, reduzindo as opções terapêuticas disponíveis e aumentando a complexidade dos tratamentos.
Nos hospitais, outro problema ainda pouco compreendido pela população geral ganha relevância: as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS). Essas infecções, adquiridas durante o cuidado em saúde, estão associadas a aumento do tempo de internação, complicações clínicas e mortalidade. Apesar de sua gravidade, seguem sendo subnotificadas no debate público. O infectologista é peça-chave na implementação de protocolos de prevenção, no uso racional de antimicrobianos e no monitoramento contínuo desses eventos.
Fora do ambiente hospitalar, esses especialistas também atuam na orientação sobre vacinação, infecções sexualmente transmissíveis, riscos associados a viagens e impactos das mudanças ambientais na dinâmica das doenças infecciosas.
Paralelamente, o mundo acompanha o surgimento e a ameaça de infecções emergentes, como o Vírus Nipah, que embora ainda restrito a determinadas regiões, reforça a importância de sistemas de vigilância globais integrados e da preparação antecipada para novos cenários epidemiológicos.
É importante destacar que epidemias não surgem de forma repentina. Elas são precedidas por sinais epidemiológicos que exigem interpretação qualificada. Ignorar esses sinais significa perder tempo e, em saúde pública, tempo perdido se traduz em vidas em risco.
Investir na formação e na valorização de infectologistas é, portanto, investir na capacidade de antecipação do sistema de saúde.
O Dia do Infectologista não deve ser apenas uma data comemorativa, mas um ponto de reflexão sobre o papel estruturante dessa especialidade. Sem infectologistas, não há vigilância eficiente, não há resposta coordenada, não há comunicação confiável com a população.
E, sobretudo, não há controle possível de epidemias.
Sobre a fonte:
A Sociedade Paulista de Infectologia reúne médicos infectologistas e pesquisadores dedicados ao estudo, à pesquisa e ao aprimoramento científico na área das doenças infecciosas. A entidade contribui com análises técnicas e orientação à sociedade sobre temas como gripe, infecções de pele, HIV, hepatites virais, tuberculose, doenças respiratórias e outras condições infecciosas relevantes para a saúde pública.












