Deparamo-nos com um desafio crucial na análise do comportamento dos jovens na atualidade. Sabe-se que a agressividade é inerente ao ser humano, compreendida como um impulso natural ligado à sobrevivência, defesa e vitalidade. Por sua vez, a violência é o uso intencional e destrutivo dessa energia, sendo adquirida e solidificada com o decorrer do tempo.
Sim, comportamentos violentos são adquiridos e resultantes de diversos fatores, que se encontram interligados. Causam preocupação e estupefação na sociedade, principalmente depois da comoção popular decorrente da morte do cão Orelha, triste episódio amplamente divulgado pela mídia.
Não pretendo analisar o inaceitável caso desse cãozinho que foi objeto de atitudes desumanas e que revoltou a todos. Não pretendo opinar sobre as possíveis punições a serem aplicadas a eventual culpado por referida atrocidade, nem comentar acerca da polêmica concernente à necessidade de redução da maioridade penal, mote fortemente levantado durante a manifestação que ocorreu na Avenida Paulista, na última semana.
Quero, sim, refletir sobre as causas que podem levar jovens a agir com tamanha crueldade e frieza, até com visíveis demonstrações de prazer.
Considero que comportamentos recorrentes, como o ora comentado, já foram reiteradamente objeto de análise e declarações de profissionais de diferentes áreas do desenvolvimento humano. Concordo que o assunto da violência demanda pesquisas profundas em suas causas. Compreendê-las, as causas, se torna essencial para desenvolver estratégias eficazes de prevenção e intervenção.
Não é fácil. A causa nunca é isolada e somente com a ação das famílias e o apoio das escolas será possível a obtenção de algum resultado positivo.
Não podemos descartar que fatores individuais podem afetar o comportamento dos jovens, sendo uma das principais causas da violência na adolescência. Existem fortes probabilidades de reprodução do comportamento violento daqueles que foram precocemente vítimas ou testemunhas de violência física, psicológica ou sexual na infância.
Por outro lado, fatores referentes a condições psicológicas como o transtorno de conduta, de déficit de atenção e psicopatia, não tratados, além de depressão e outros problemas de saúde mental podem propiciar uma maior impulsividade, agressividade e dificuldade de controle emocional. Ressaltando que, não necessariamente se transformariam em violência. Ainda, não podemos nos esquecer das consequências desastrosas do uso de substâncias ilícitas ou consumo de álcool, que alteram a percepção da realidade.
Além dos fatores individuais, a família representa um elemento essencial para o equilíbrio e o desenvolvimento emocional da criança e do jovem. Ambientes familiares agressivos frequentes levam os jovens a internalizar a violência como forma aceitável de resolver conflitos ou expressar frustração. Além disso, a vulnerabilidade decorrente de negligência e abandono dos pais, podem levá-los a buscar por pertencimento em grupos que promovem comportamentos de risco e violência.
Enfim, uma família desestruturada, com conflitos intensos, separações traumáticas, ausência de figuras de referência, podem ser causa de instabilidade emocional e insegurança nos adolescentes, impactando no seu desenvolvimento socioemocional.
Se não bastasse, o contexto social e a comunidade sempre têm profunda influência na vida do adolescente. Fatores como pobreza e desigualdade social, potencializados pela pressão de grupos de amigos ou gangues que valorizam a violência, pode incentivá-los a se envolver em fatos em uma agressividade destrutiva, visando aceitação e status.
Além de todos esses fatores, agregados a escolas sem regras de disciplina e sem estrutura de acompanhamento comportamental, assim como a presença de normas e valores culturais que podem influenciar na normalização e perpetuação da violência, a sociedade atual tem se deparado com um outro preocupante componente que tem contribuído, exponencialmente, no comportamento dos jovens, independentemente da classe social: a sua exposição à violência nas mídias sociais!
Este fator tem preocupado educadores, pais, terapeutas e magistrados da área de infância e juventude. São unânimes na percepção e constatação de que o consumo excessivo de conteúdos enaltecedores e glorificadores da violência (em filmes, jogos, redes sociais) tem alto poder de dessensibilizar os adolescentes, distorcer sua percepção da gravidade da violência e até mesmo influenciar a imitação de comportamentos tais.
Sem sombra de dúvidas, a violência pode passar a ser vista como um meio de resolver disputas, de demonstrar poder ou manter a honra. Isto contribui para a sua perpetuação e dificulta a busca por alternativas pacíficas.
A eminente Titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, dra. Vanessa Cavalieri, juíza que estuda há anos a radicalização de adolescentes, comenta, em entrevista concedida à BBC News, Brasil, em 29.01.26, que o caso do Orelha revela violência extrema cometida por jovens, muitos deles, de classes média e altas, alimentados pela violência digital e pela falta de supervisão familiar.
E o mais grave, segundo a magistrada, o que os adolescentes fizeram com o cão Orelha acontece todas as noites em muitas casas do Brasil, ao vivo, no Discord. E a família sequer tem conhecimento do que está se passando naquele ambiente considerado seguro.
Segundo ela, em março do ano passado, 2025, um adolescente do Rio de Janeiro incendiou um morador de rua para transmitir ao vivo no Discord.
Por sua vez, a Delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, de São Paulo, que monitora os grupos no Discord, comenta que esses crimes no ambiente digital são muito frequentes, sendo que, em média, 30 cães e gatos são torturados e mortos, por noite.
Nesses vídeos e jogos violentos, são simulados cenários agressivos onde o sofrimento do “outro” é secundário, dificultando a identificação empática. Além disso, para esses jovens, há o reforço da ideia de que as próprias conquistas valem mais do que os sentimentos dos outros. E o pior, aquilo que começou, primeiro, no ambiente virtual pode, rapidamente, se transformar em atitudes agressivas reais.
Cabe ressaltar que existe uma profunda deficiência na moderação de conteúdo no Discord, pois esta plataforma terceiriza para os próprios usuários, dentro dos canais, a responsabilidade de moderar.
Esta questão exige mais aprofundamento. Sim, precisamos ir mais fundo.
Existiriam outras vertentes que poderiam ter dado origem e alimentar referida plataforma, a Discord, dentre outras?
Poderíamos estabelecer uma associação da masculinidade à dominância e à “dureza” que levariam a pressionar adolescentes do sexo masculino a adotarem comportamentos violentos para afirmar sua identidade de gênero?
Tudo isto merece reflexão, considerando, como dito no início desta análise, que a violência na adolescência é um fenômeno multicausal. Não existe uma razão única para este tipo de agressividade nociva, mas uma complexa interação de fatores, como já comentado acima, que contribuem para o seu agravamento e manutenção.
Pareceu-me interessante analisar a série da Netflix denominada Adolescência, cabendo ressaltar que surgiu, dela, uma pergunta perturbadora: “o que leva um adolescente de 13 anos a assassinar sua colega de escola?”.
Daí, a descoberta do então sinistro “machosfera”, termo que descreve uma rede de comunidades de interesse masculino online, que foi exaustivamente pesquisado pelo roteirista da série em comento. Verificou que esta rede inclui grupos de variados espectros de ideologias, com visões extremas e misóginas, mas com um ponto comum: a reação dos homens ao movimento de libertação das mulheres – o feminismo – na década de 1970.
Referido termo ultrapassou os limites da internet, sendo recompensado por algoritmos de rede social, alcançando uma audiência que antes seria impossível. Seu foco, em realidade, se cinge à divulgação da masculinidade.
De acordo com especialistas e influenciadores, esses grupos exploram o colapso da comunidade e a lacuna deixada pelos desafios sociais e econômicos enfrentados pelos jovens (fonte: Jacqui Wakefield, Unidade Global contra a Desinformação da BBC, 28.03.2025).
Esse inconformismo foi potencializado pelo ativista americano Warren Farrell que se tornou uma voz de destaque no Movimento de Libertação dos Homens, e que acreditava serem, os papéis de gênero e o patriarcado, também, prejudiciais aos homens.
Posteriormente, desiludidos com o movimento, e com a ascensão da internet nos anos 90, os ativistas dos direitos dos homens usaram o ambiente online para criar fóruns e salas de bate-papo, sem, contudo, qualquer toxidade, no início.
Assim, os “celibatários involuntários” então denominados “incels”, rapidamente se potencializaram com ideias misóginas e, a partir do seu crescimento, perderam o controle de moderação.
Os “incels” se reuniram no Facebook, YouTube e Reddit — conseguindo acesso a públicos maiores, tendo os grupos se unido e compartilhado ideologias para ganhar mais apelo.
Em 2014, comunidades da “machosfera” organizaram uma campanha de ódio contra mulheres da comunidade de games, praticando doxing (publicação de dados privados) e fazendo ameaças.
Jack Thorne, roteirista da série Adolescência, corrobora a influência desse grupo e disse ao programa The One Show, da BBC, que “os influenciadores de masculinidade fazem parte de um ecossistema de questões que afetam o adolescente no centro da série.”
Isto nos leva a concluir que o problema é muito mais sério e profundo do que parece.
Existe um movimento de construção de uma masculinidade tóxica e que não podemos nós, como Família, como sociedade, mantermonos inertes ao problema, como se ele inexistisse. Este fantasma real pode estar dentro das nossas casas, com a possibilidade de termos um jovem familiar sendo “sequestrado” e manipulado por essas plataformas desequilibradas e nocivas.
A formação psicológica, emocional e afetiva de nossos jovens corre perigo.
A questão da evolução da “machosfera” está intimamente ligada ao tema abordado e à realidade da Discord, dentre outras plataformas similares, considerando que esses grupos de radicalização de jovens têm características específicas, com o frequente enaltecimento da violência, como aspecto positivo da masculinidade.
O homem passa a ser visto como viril, másculo, violento, que se impõe pela força, que não tolera, que não tem sensibilidade e que não aceita o “não”. E isto vem num pacote de normalização.
Verificamos, no Discord, tônica similar às outras plataformas com origem nos “incels”, onde sempre se tem algum tipo de coisa especificamente escabrosa. O problema dessas plataformas, como as supramencionadas pelo roteirista da série Adolescência, é que elas produzem a “coisa horrenda” ao vivo, o que dificulta, inclusive, a existência de provas, para comprovação do fato.
Este tema exige maior foco e reflexão, visando a conscientização do papel da Família quanto ao futuro de seus filhos e netos.
Assustador, mas com possibilidades claras de reversão deste triste quadro. Depende de cada um de nós contribuir para o fim deste pesadelo.
Retornando à entrevista da magistrada Cavalieri, ela afirma que não surpreenderia “nada se a investigação desse caso (do Orelha) chegasse à conclusão de que esses adolescentes estavam em uma “panela” no Discord e que eventualmente estavam fazendo isso para transmitir ao vivo, postar em rede social ou cumprir um desafio”.
Concluo com a fala desta excepcional magistrada, no sentido de que “existem barreiras, existem bordas, existem contornos que uma pessoa que quer viver em sociedade precisa respeitar. Querendo ou não, gostando ou não, se a família não der esse contorno, a sociedade vai dar.”












