Houve um tempo — dizem os mais jovens, com o mesmo tom com que falam de máquina de escrever — em que jornalista gastava sola de sapato. Batia perna, sujava a barra da calça, tomava café frio em copo americano e, principalmente, ouvia gente. O nome disso? Jornalismo raiz.
No celeiro dos que entendem que reportagem é encontro humano, estão figuras como José Hamilton Ribeiro, Caco Barcellos, Seymour Hersh e Gabriel García Márquez — este último, antes de Nobel, era repórter com faro de gente. Eles praticavam a antiga e revolucionária arte de prestar atenção. Não ao algoritmo. À pessoa.
O jornalismo raiz entende que uma história pode mudar uma vida — às vezes muitas. Que uma denúncia pode reorganizar uma cidade. Que uma reportagem bem apurada é menos um conteúdo e mais um ato de responsabilidade pública.
Já o jornalismo Nutella — cremoso, palatável e pronto para stories — acredita que o mundo deveria ter a delicadeza de acontecer entre 9h e 18h. Preferencialmente com coletiva marcada e release enviado em PDF.
Porque, convenhamos, que falta de educação do planeta insistir em produzir fatos relevantes fora do expediente.
A morte de Osama bin Laden? Domingo à noite.
A queda do Air France Flight 447? Também num domingo, depois da decolagem no Rio.
Michael Jackson? Sexta à noite (tarde em Los Angeles).
Whitney Houston e Amy Winehouse? Sábado.
Claramente, o mundo precisa de um RH.
O jornalismo Nutella olha para o relógio antes de olhar para o fato. O raiz olha para o fato e esquece o relógio. Porque notícia não bate ponto. Tragédia não consulta agenda. Corrupção não espera segunda-feira.
Mas a diferença não é apenas sobre horário — é sobre profundidade.
O Nutella se satisfaz com o “viralizou”. O raiz pergunta “por quê?”. O Nutella contabiliza engajamento. O raiz contabiliza consequências. O Nutella teme o silêncio. O raiz sabe que é no silêncio que a fonte finalmente fala.
E é aqui que entra o trabalho de Daniela Arbex, que nos lembra — com livros-reportagem que doem e curam ao mesmo tempo — que jornalismo não é performance. É compromisso. É mergulho. É humanidade.
Globalização, redes sociais, inteligência artificial, breaking news em tempo real — tudo isso muda ferramentas. Mas não muda princípios. A tecnologia acelera. A ética ancora.
As prerrogativas humanas do jornalismo são inegociáveis: ouvir antes de opinar, checar antes de publicar, contextualizar antes de incendiar. A profissão nasceu para servir ao público — não ao feed.
O jornalismo raiz sabe que uma reportagem pode atravessar décadas. O Nutella espera que atravesse pelo menos o fim de semana.
E talvez o problema não seja a Nutella. Afinal, ela é deliciosa no café da manhã. O problema é quando esquecemos que jornalismo não é sobremesa. É alimento básico da democracia.
E democracia, essa ingrata, também não funciona só em horário comercial. Parece às vezes que o problema é pura falta de tesão.












