Se um pesquisador elencar uma série de fatos protagonizados por Lula e disser que foram realizados por Bolsonaro, é provável que a maioria censure o adversário por aqueles atos. Da mesma forma, se o responsável tiver sido Bolsonaro, mas o entrevistador afirmar que foi Lula, quase todos tenderão a criticar o petista.
Depois de revelada a verdade, muitos continuarão a defender um ou outro, mesmo sabendo que ele agiu mal. A teoria da recepção explica essa “audição seletiva”. De maneira geral, as pessoas tendem a aceitar o que beneficia suas ideias e repudiar o que não lhes convém.
Um país polarizado
O país está polarizado, todos nós sabemos. Mas será que essa polarização se dá pela ideologia ou pelo nome do candidato? E se fossem indagados no que consiste a ideologia daquele que defendem e daquele que repudiam, será que conseguiriam dar explicações consistentes? A experiência mostra que não.
Faço essa afirmação porque, ao ministrar aulas de oratória para políticos de todas as cores partidárias ao longo dos últimos 50 anos, uma pergunta que costumo fazer no início do treinamento é se já leram o programa do partido. Mais de 90% confessam que não. Essa passa a ser a primeira lição: ler o programa do partido.
Está tudo no programa
Principalmente aqueles que precisam participar de debates descobrem que as respostas aos argumentos contrários e a sustentação para o raciocínio que desenvolvem estão no programa. Ou seja, não estão inventando aquelas informações. Podem garantir, por exemplo, que aderiram ao partido por causa dos princípios que ele defende.
Assim, questões relacionadas à saúde, transporte, educação, habitação, meio ambiente e políticas sociais encontrarão respaldo na carta que orienta os destinos do partido. É impressionante como quase todos se sentem mais confiantes depois dessa leitura.
Burke e Paine
Se os próprios candidatos não estão devidamente inteirados do que desejam defender, os eleitores, então, menos ainda. O objetivo aqui não é transformar conceitos em cartilha, mas mostrar, em linhas gerais, o que cada corrente defende e se esses princípios estão de acordo com as intenções de cada eleitor.
Para compreender essas diferenças, vale recorrer a um episódio histórico. A Revolução Francesa colocou em lados opostos dois modos de ver a sociedade. Edmund Burke, considerado o pai do conservadorismo, condenava a ruptura abrupta, temendo que, ao destruir as tradições, se perdesse também o que nelas havia de valioso. Thomas Paine, que ajudou a moldar o pensamento progressista, via na razão humana a capacidade de recomeçar, mesmo que isso implicasse romper com a experiência acumulada.
Romper ou preservar?
De lá para cá, essa divergência assumiu novas formas, mas preservou a mesma essência. Há quem defenda mudanças com cautela, preservando o que já demonstrou funcionar. Outros entendem que, diante de injustiças evidentes, esperar demais pode significar perpetuar erros.
No campo econômico, essa diferença costuma se traduzir no papel atribuído ao Estado. Para uns, cabe ao governo intervir para reduzir desigualdades e garantir condições mínimas de bem-estar. Para outros, o excesso de intervenção compromete a eficiência, sendo preferível confiar mais na iniciativa privada e na liberdade econômica.
O exemplo brasileiro
Essas visões também se refletem nas pautas sociais e nos costumes. Enquanto uma corrente defende a ampliação de direitos e a adaptação constante das normas às transformações da sociedade, outra valoriza a preservação de referências culturais e institucionais que considera fundamentais para a estabilidade social.
No Brasil, essas diferenças não ficam apenas no plano das ideias. Ao ampliar programas sociais e reforçar a presença do Estado, Lula se aproxima de uma lógica mais intervencionista. Já Bolsonaro, ao defender a redução do papel do Estado, privatizações e pautas mais conservadoras nos costumes, dialoga com uma visão mais alinhada ao pensamento liberal e conservador.
Os pontos comuns
Apesar das divergências, há também pontos de aproximação. Em momentos distintos, tanto um quanto outro recorreram a programas sociais, buscaram ampliar suas bases de apoio e ajustaram seus discursos às circunstâncias políticas.
No fim das contas, mais importante do que escolher um nome é compreender as ideias que ele representa. Quando o eleitor não sabe exatamente o que está defendendo, corre o risco de apoiar um projeto de país sem plena consciência disso. Como disse H. L. Mencken: “Idealista é quem, notando que uma rosa cheira melhor que um repolho, conclui que ela é também mais nutritiva.”
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