O 1º de Setembro é uma data muito importante para mim.
Foi exatamente na quinta-feira, 1º de setembro do ano de 1966, que o vespertino de Belo Horizonte, Diário da Tarde, publicou a manchete:
“BH é a terceira Capital. 1 milhão de habitantes”.
A matéria que originou a manchete foi a primeira reportagem deste hoje veterano escriba, na época na flor de seus 22 anos de idade.
Não só foi a manchete, com também foi um furo nacional.
História que começa muito antes, lá pelos idos do ano de 1953 quando, mais ou menos aos 10 anos de idade, este aluno do terceiro ano primário do Grupo Escolar Thomás Brandão, foi chamado pela professora para cuidar do jornalzinho que seria feito naquela classe.
Cuidar é modo de dizer.
Na verdade, o jornalzinho, escrito em uma folha de papel almaço, era definido pela professora e cabia ao garoto Mário Lúcio copiar os artigos para a folha que passaria depois para cada um dos alunos.
Cada aluno lia aquele exemplar e tinha que devolver no dia seguinte.
Acho que foram apenas três ou quatro edições.
Mas foi o começo.
Depois veio infância e juventude felizes, onde eu era engraxate de rua, carregava marmitas e até ajudava a cuidar de jardins para ganhar algum dinheiro. Dinheiro que era totalmente entregue à saudosa mamãe, separando apenas os três ou quatro cruzeiros que iria usar na matiné do cine São Geraldo no domingo.
Em 1989, já com 15 anos de idade, meu saudoso pai conseguiu minha nomeação para a Imprensa Oficial.
E lá fui eu trabalhar em oficina de jornal e aprender uma profissão que eu desconhecia: linotipista.
Naquela época, eu já era leitor inveterado: lia jornais e livros.
O Márcio, meu irmão logo acima de mim, comprava sempre um livro da coleção da Editora Record, pocket book, com ótimas histórias policiais.
Passamos a nos revezar: um mês ele comprava, no outro eu.
Assim que aprendi o ofício de linotipista, passava as cinco horas de minha jornada digitando originais de documentos ou de livros que seriam transformados em pequenas placas de chumbo que iriam para a impressão.
Como eu gostava muito de ler, passava o tempo numa boa.
Sete anos depois, me dava conta de que seria sempre um linotipista.
Claro, eu queria mais.
Pois, naquele ano de 1966, foi criado o Suplemento Literário de Minas Gerais que circularia semanalmente com o Minas Gerais, órgão oficial do governo.
Vi, ali, a oportunidade de trabalhar numa redação.
Não tive dúvidas.
Procurei o diretor da Imprensa Oficial, o escritor Murilo Rubião, e expus a minha situação: estava trabalhando na Imprensa Oficial há sete anos. Era muito agradecido a todo esse empo e por ter aprendido um ofício.
Mas o que eu queria realmente era ser jornalista.
Muito delicado e educado, Murilo Rubião me negou a chance e, sorrindo, me disse:
– Algumas manchas de graxa na bunda não fazem mal a ninguém.
A referência às manchas de graxa se devia ao fato e eu estar, naquele momento, com a roupa que eu usava na oficina.
Saí dali frustrado, decepcionado, amargurado, porém decidido: eu vou ser jornalista.
Alguns dias depois, levando os originais de alguns contos e poesias que eu gostava de escrever, me atrevi a ir ao Diário da Tarde e bater à porta do Diretor Geral, o advogado e jornalista Fábio Proença Doyle.
Ele me ouviu com paciência e até bondade.
Disse que não poderia me ajudar porque o jornal não tinha uma seção literária.
Prontamente rebati:
– Mas eu não quero ser escritor, quero ser jornalista.
Ele abriu uma gaveta e tirou de lá alguns exemplares de jornal.
– Você conhece esse jornal?
– Não, não conheço.
– É um jornal novo de São Paulo, o Jornal da Tarde. Uma proposta totalmente inovadora no jornalismo. Leve esses exemplares pra casa, leia tudo para você aprender como se faz um jornal. Volte daqui uma semana.
Não só li completamente os três exemplares, como procurei saber na banca onde eu comprava livros usados, se eles recebiam esse tal de Jornal da Tarde.
Recebendo a resposta afirmativa, fiz um trato com o dono da banca: eu compraria todos os dias o JT que chegava em BH com um dia de atraso.
Assim, quando voltei à sala do doutor Fábio Doyle, na semana seguinte, eu já era um leitor do Jornal da Tarde – e um aplicado aluno de jornalismo.
E fiquei muito feliz quando ele disse que havia gostado dos meus textos.
Comecei a redigir pequenas notas – e mantendo meu emprego na Imprensa Oficial – até que um dia ele me chamou, mandou que eu fechasse a porta e me disse em tom de confidencialidade:
– Estou sabendo que por esses dias o IBGE vai publicar o resultado do último censo. Parece que nossa Capital passará ser a terceira do País.
A primeira era São Paulo, a segunda, o Rio de Janeiro, e a terceira, Salvador.
Eu fui ao IBGE conversei longamente com o Diretor do órgão e recolhi todas as informações que precisava.
Voltei para a redação e escrevi a matéria que seria publicada dois dias depois – minha primeira manchete, meu primeiro furo.
Continuei a escrever pequenas matérias de cunho geral até o dia que o Dr. Fábio me chamou e disse que eu iria trabalhar na Editoria de Esporte para reforçar a equipe que cobriria a Olimpíada Colegial que teria cobertura especial do DT.
Foi uma missão especial: eu não precisava me preocupar com as competições em si, com os resultados, tinha apenas que encontrar situações e personagens para dar um colorido à cobertura.
Era coisa do Jornal da Tarde.
No começo de 1967, eu fui convidado para participar da equipe que faria a edição mineira da Última Hora e seria comandada pelo jornalista Demóstenes Romano.
Fiquei trabalhando nos três lugares.
Era linotipista, repórter de esportes e repórter do setor policial.
Até que em 1968, um ano e meio depois de começar a nova profissão, recebi convite do jornalista Marco Antônio de Rezende:
– Você não quer ir para o Jornal da Tarde?
Mas é claro que eu queria. O JT era uma espécie de bíblia do jornalismo, onde todo jornalista ansiava trabalhar.
Foi assim que, em janeiro de 1968, eu desci de um ônibus Cometa na imensa e, para mim assustadora São Paulo.
Na época, eu estava noivo. E comuniquei a ela:
– Vou para lá, fico um ano e aprendo tudo de jornalismo. Volto para cá e consigo emprego onde eu quiser e vamos nos casar.
Eu voltei um ano depois, mas somente para me casar com a Vera e levar para a Capital paulista a minha amada.
Estamos casados desde 1969. Cada um é parte importante e inseparável do outro.
Temos dois filhos, a Verênia e o Cássio, que nos deram dois netos: a Larissa e o Vinicius.
No alto deste artigo, uma foto do casal na festa de nossas Bodas de Ouro, em 17-05-2019.

- Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.












