O comentário econômico ocupa um lugar curioso no jornalismo brasileiro. Quem opina sobre medicina em rede nacional costuma ser médico; quem discute uma tese jurídica no ar é, em geral, advogado ou magistrado. Na economia, porém, consolidou-se a figura do comentarista sem formação técnica na área, e o caso mais notório é o de Miriam Leitão, jornalista formada pela Universidade de Brasília que há décadas emite juízos diários sobre política monetária, contas públicas e câmbio sem nunca ter cursado a disciplina sobre a qual opina.
Que fique claro o que não está em discussão. Ninguém nega a ela o direito de opinar, nem o mérito de uma carreira longa, construída na cobertura de todos os planos econômicos desde os anos 1980. Vivência de pauta, porém, não substitui instrumental técnico. Acompanhar o Banco Central por quarenta anos ensina o vocabulário e os personagens; não ensina a decompor um resultado fiscal, a testar a consistência de uma projeção ou a distinguir correlação de causalidade numa série de dados. São ofícios diferentes, e a confusão entre eles cobra um preço.
O preço aparece na natureza do que vai ao ar. O comentário sem lastro técnico tende a operar por analogia e por narrativa: a economia vai bem ou mal conforme o enredo do momento, e números complexos são reduzidos a veredictos de uma frase. O público, que não tem como auditar o raciocínio, recebe a conclusão com o selo de autoridade que a bancada do telejornal confere. Um economista que erra um parecer responde ao seu conselho profissional e ao contraditório da parte adversa; um comentarista que erra um prognóstico segue no ar no dia seguinte, sem custo. Essa assimetria de responsabilidade é o ponto que a imprensa raramente admite discutir.
Há ainda um efeito menos visível: a ocupação do espaço. Cada hora de comentário leigo é uma hora a menos de economistas de ofício explicando ao público o que de fato está em jogo. O Brasil tem quadros técnicos de sobra, nas universidades, nos conselhos regionais, no mercado, capazes de tratar juros e dívida pública com rigor e clareza. Quando as emissoras preferem a familiaridade de um rosto conhecido à competência específica, sinalizam que na economia, ao contrário das demais áreas, a credencial é dispensável.
Não se trata de exigir diploma para falar, e sim de exigir proporção entre a autoridade exercida e a qualificação de quem a exerce. Quem influencia a percepção econômica de milhões de pessoas deveria, no mínimo, dividir a bancada com quem domina a técnica, e apresentar suas opiniões como aquilo que são: impressões bem informadas de uma jornalista experiente, não análise econômica. A diferença entre uma coisa e outra é exatamente a formação que falta.












