Somos inferiores aos chineses? A pergunta me atormenta há muito tempo. Surgiu depois de ler Viajando de trem através da China, do escritor Paul Theroux, com pouco mais de 400 páginas, hoje encontrado em alguns sebos. O autor viajou em 1985. O livro veio a público na Europa em 1986. Fala dos exotismos, paradoxos, misticismos, tradições milenares, registrados ao longo de viagem “que procura desvendar a imensidão territorial e cultural”, do país que no espaço de poucos anos deixou de ser miserável e fraco para se tornar a segunda potência econômica e militar do planeta.
A pergunta encontrava-se hibernando, quando O Estado, na edição de 8/1, (Caderno C2), publicou matéria do The New York Times, assinada pelo jornalista Keith Bradsher, sob o título “China já tem taxi que voa e drone que traz o almoço”, sobre a nação que evolui aceleradamente graças à adoção, sem preconceitos , de todos os recursos da tecnologia de última geração.
Em 1985, se Paul Theroux não houvesse escolhido a China, mas o Brasil, para empreender a viagem de trem, o que teria encontrado? O ano de 1985 marca a transição do regime militar para o governo civil e do autoritarismo para o estado democrático, com a vitória do dr. Tancredo Neves sobre Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. Sob o ponto de vista financeiro o panorama era, porém, desolador, dominado pela inflação e histórico descrédito na moeda. No plano do desenvolvimento econômico, todavia, o agronegócio ganhava força, graças às pesquisas da Embrapa, a indústria automotiva dava largos passos desde a chegada em 1957, havia energia elétrica em abundância, a Petrobrás cumpria o papel que dela se esperava, o mesmo acontecendo com a Embraer. Caminhávamos para nos tornarmos a 8ª economia mundial, mas com recorrentes problemas de pobreza, fome, violência urbana, deficiente infraestrutura, péssima distribuição de renda, morosidade judicial.
A China, por sua vez, após se livrar da tirania de Mao Tse-Tung (1893-1976), fundador da República Popular da China, encontrou em Deng Xiaoping (1904-1997) o líder empenhado em combinar o estatismo centralizador do Partido Comunista, com a necessidade da abertura interna e externa da economia, transformando o milenar conformismo do campesinato inerte em vigoroso motor do desenvolvimento urbano.
Com 9,59 milhões de km2 e população estimada de 1,4 bilhões de habitantes, a China conseguiu, em pouco mais de quatro décadas, acabar com a fome e a miséria e atingir o PIB de US$ 29,3 trilhões, que dela fez a segunda economia mundial. No Brasil é necessário fechar os olhos aos obstáculos da emaranhada legislação fiscal, da confusa legislação trabalhista, e da pesada carga tributária, para assumir os riscos de ser empresário e gerar empregos.
Na reportagem que me inspirou, dediquei atenção especial às informações sobre o transporte ferroviário, essencial a países com territórios extensos. Encontram-se em operação, na China, algo em torno de 48 mil km de ferrovias para trens modernos, confortáveis, de alta velocidade, que trafegam a quase 350 km por hora, “tão rápido que, ao passar por uma rodovia em um desses trens, os carros parecem estar praticamente parados”. A velha malha ferroviária nacional, com cinco bitolas distintas, é escassa, antieconômica e ineficiente.
Tenho a dolorosa sensação de que a partir de 1985 Brasil e China tomaram caminhos radicalmente opostos. A erradicação da miséria e a construção da riqueza lá se fizeram com o alargamento do mercado de trabalho, permanente modernização da economia, livre e vigoroso comércio exterior, qualificação constante da mão de obra. Aqui a pobreza e a fome são enfrentados com custosos programas assistenciais mantidos indefinidamente pela população, trazendo como inevitável efeito colateral o desestímulo ao trabalho.
Aos chineses deve soar estranha a garantia contida no art. 7º, XXVII, da Constituição de 1988, do direito à proteção do trabalhador “em face da automação, na forma da lei”. Em todos os países inteligentes e desenvolvidos, a automação é vista como benéfica ao sistema produtivo, jamais como ameaça. Na China, como na Coréia do Sul, no Japão, na Alemanha, os recursos da tecnologia da informática e da Inteligência Artificial estão colocados a serviço da economia e, portanto, do povo.
Procuro ser otimista, mas não me iludo com fantasias. Quando sinto prestes a renascerem as esperanças, escândalos de gigantescas proporções me fazem despertar. As fraudes no INSS, contra centenas de milhares de aposentados, pensionistas e deficientes, são investigadas, mas com a velocidade do bicho preguiça, sendo impossível prever onde irão desaguar. Não encerrado o caso da Previdência, explode a intervenção do Banco Central no Banco Master. Na edição de 15/1, o Estadão publica, na página B3, nomes, fotografias e breve currículo dos principais acusados. Separem e guardem. Pensei nos painéis das antigas Delegacias de Vigilância e Captura, estampando a relação de procurados pela polícia.
Somos inferiores aos chineses? Onde se encontram, se existem, as razões da inferioridade? A prolixa Constituição de1988 e a corrupção endêmica têm algo a ver com isso? Responda o leitor.
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Advogado. Foi Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho.











