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Chorar é humano, mas nem toda lágrima é igual – por Cristiane Sanchez

Desde cedo aprendemos a conter as lágrimas. “Não chora”, “engole o choro”, “seja forte”. O choro foi sendo associado à fragilidade, à perda de controle, à imaturidade emocional. No entanto, a ciência vem mostrando algo muito diferente. Chorar não é um defeito do sistema emocional humano. É uma função biológica sofisticada, profundamente ligada à regulação emocional, ao vínculo social e à saúde mental.

Os seres humanos são a única espécie conhecida que produz lágrimas emocionais. Animais vocalizam quando estão em sofrimento, mas não derramam lágrimas como resposta a emoções complexas. Isso acontece porque o choro emocional depende de vias cerebrais altamente elaboradas, que conectam áreas responsáveis pelo processamento emocional, como o sistema límbico, a estruturas que regulam a produção lacrimal. Não se trata de um reflexo simples, mas de um comportamento neurobiológico complexo, moldado ao longo da evolução humana.

Do ponto de vista fisiológico, nem toda lágrima é igual. Existem as lágrimas basais, que estão sempre presentes nos olhos e têm a função de lubrificar e proteger a superfície ocular. Existem as lágrimas reflexas, produzidas quando algo irrita os olhos, como poeira ou fumaça. E existem as lágrimas emocionais, que despertam tanto interesse científico justamente por serem diferentes. Estudos mostram que sua composição bioquímica não é a mesma das outras lágrimas. Elas contêm proteínas específicas, além de hormônios e mediadores ligados ao estresse, como o cortisol.

Essa descoberta abriu espaço para uma hipótese importante: o choro emocional pode participar ativamente da regulação fisiológica das emoções. Não é apenas uma expressão simbólica do que sentimos, mas também um mecanismo corporal que ajuda o organismo a lidar com estados de sobrecarga emocional.

Pesquisas conduzidas pela psicóloga Lauren Bylsma, da Universidade de Pittsburgh, ajudaram a compreender melhor o que acontece no corpo quando choramos. Utilizando monitoramento da frequência cardíaca e eletrocardiogramas, seus estudos observaram um padrão consistente. Antes do início do choro, há um aumento da atividade do sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de estresse, a chamada reação de luta ou fuga. Logo após o choro começar, ocorre um aumento da atividade do sistema nervoso parassimpático, associado ao relaxamento, à desaceleração fisiológica e à sensação de calma.

Essa transição ajuda a explicar por que tantas pessoas relatam alívio depois de chorar. Não é algo místico ou subjetivo apenas. É o sistema nervoso mudando de estado. O corpo sai da tensão máxima e começa a encontrar um caminho de autorregulação.

Isso não significa, porém, que chorar sempre faça bem. A ciência é clara ao mostrar que o efeito do choro depende do contexto emocional e relacional em que ele ocorre. Em situações de depressão profunda, esgotamento extremo ou trauma não elaborado, o choro pode não trazer alívio imediato e, em alguns casos, até intensificar o sofrimento. Além disso, a reação do ambiente faz toda a diferença. Estudos indicam que o choro tende a aliviar quando é acolhido com empatia, compreensão e apoio. Quando gera vergonha, ridicularização ou rejeição, o efeito é o oposto.

Isso nos leva a outro aspecto fundamental do choro: sua função social. As lágrimas não existem apenas para quem chora, mas também para quem observa. Pesquisas mostram que pessoas tendem a se sentir mais empáticas e dispostas a ajudar quando veem alguém chorando. Um estudo conduzido em Israel demonstrou que homens expostos ao odor de lágrimas emocionais femininas apresentaram redução de comportamentos agressivos em comparação com aqueles expostos apenas a uma solução salina. As lágrimas, nesse sentido, funcionam como um sinal social poderoso, comunicando vulnerabilidade e necessidade de cuidado.

Do ponto de vista evolutivo, isso faz muito sentido. Comportamentos que não trazem vantagens adaptativas tendem a desaparecer ao longo do tempo. O choro permaneceu porque cumpriu uma função importante. Uma das hipóteses mais aceitas é que ele esteja ligado à infância prolongada da espécie humana. Bebês humanos nascem extremamente dependentes, e o choro ativa no cérebro adulto redes associadas ao cuidado, à proteção e ao vínculo. Há inclusive a hipótese de que as lágrimas do bebê ajudem a reduzir a agressividade dos adultos, funcionando como um mecanismo de autoproteção, já que o choro vocal pode ser extremamente irritante.

As razões que levam ao choro também mudam ao longo da vida. Em crianças, a dor física é um gatilho frequente. Em adultos, o choro passa a estar muito mais ligado à sobrecarga emocional, à empatia e à capacidade de se comover com o sofrimento do outro. Emoções positivas também podem provocar lágrimas. Muitas pessoas choram diante da beleza da arte, da música ou da natureza, não por tristeza, mas por intensidade emocional.

Existem ainda diferenças individuais importantes. Estudos populacionais mostram que, em média, mulheres choram mais frequentemente do que homens, e esse padrão aparece em diversas culturas. Embora fatores sociais influenciem, pesquisadores apontam também diferenças neurológicas, hormonais e de personalidade. Pessoas com níveis mais altos de empatia tendem a chorar mais, assim como aquelas com maior sensibilidade emocional. Isso não representa fragilidade, mas diversidade na forma como o sistema emocional humano se expressa.

Chorar não resolve todos os problemas. Não substitui cuidado psicológico, acompanhamento profissional ou mudanças estruturais na vida. Mas pode aliviar a tensão, sinalizar limites e abrir espaço para o acolhimento. É o corpo dizendo que algo importa, que algo passou do limite, que é hora de pausa e cuidado.

A pergunta mais importante não é por que choramos, mas por que aprendemos a ter tanto medo das lágrimas. A ciência mostra que elas fazem parte da nossa biologia emocional, da nossa história evolutiva e da nossa capacidade de criar vínculos. Cuidar da saúde mental também passa por respeitar aquilo que nos torna profundamente humanos.

REFERÊNCIAS

GRAČANIN, Asmir; BYLSMA, Lauren M.; VINGERHOETS, Ad J. J. M. Why only humans shed emotional tears: Evolutionary and social functions. Human Nature, New York, v. 29, n. 2, p. 104–122, 2018.
DOI: https://doi.org/10.1007/s12110-018-9312-8
Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s12110-018-9312-8.
Acesso em: jan. 2026.

BYLSMA, Lauren M.; CROCKETT, Emily E.; DROTAR, Dennis. Crying and health: Popular and scientific perspectives. Psychological Bulletin, Washington, DC, v. 137, n. 4, p. 661–687, 2011.
DOI: https://doi.org/10.1037/a0023331
Disponível em: https://psycnet.apa.org/record/2011-11260-001.
Acesso em: jan. 2026.

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