Nos últimos dias, as redes sociais e os portais de saúde foram inundados por imagens de orelhas. O motivo? O chamado Sinal de Frank. O que antes era um detalhe anatômico ignorado por muitos, tornou-se o centro de debates sobre diagnóstico precoce e autocuidado. Mas, afinal, o que há de verdade científica por trás desse sulco diagonal no lóbulo da orelha? É só mais um “viral” da internet ou um marcador clínico que merece nossa atenção?
O fenômeno na mídia: Por que todos estão olhando para as orelhas?
A exposição recente do Sinal de Frank na mídia deve-se, em grande parte, à facilidade de identificação. Já que a tecnologia médica é cada vez mais complexa, a ideia de que um simples “autoexame” visual pode indicar o risco de um infarto é fascinante. No entanto, a mídia muitas vezes peca pelo sensacionalismo. É fundamental entender que o sinal não é uma sentença, mas sim um alerta: ele indica que é hora de prestar mais atenção ao coração.
O que a Literatura Científica nos diz?
O nome “Sinal de Frank” vem do Dr. Sanders T. Frank, que em 1973 observou a relação entre essa prega e a doença arterial coronariana em alguns pacientes de seu consultório. Cinquenta anos depois, a ciência tem um pouco mais de evidências sólidas.
De acordo com uma revisão sistemática de 13 estudos transversais, que analisou uma população combinada de 3.951 indivíduos, a relação entre o sulco e problemas cardíacos é estatisticamente significante. A literatura descreve que o lóbulo da orelha é suprido por artérias terminais. Quando existe aterosclerose (acúmulo de gordura nas artérias) ou perda de fibras elásticas no corpo, essa região sofre microinfartos ou colapsos de tecido, formando a famosa prega diagonal.
Entendendo os números (sem complicação)
Para o público geral, termos estatísticos podem parecer confusos, mas os dados dessa revisão sistemática são claros:
- Sensibilidade e Especificidade: Em alguns estudos, a especificidade do sinal chegou a 91%. Traduzindo: se você tem o sinal, a chance de ele estar relacionado a uma alteração real nas artérias coronárias é muito alta.
- O Fator Idade e Comorbidades: Os resultados indicam que o sinal não aparece sozinho. Ele está frequentemente ligado a pacientes com Hipertensão Arterial, Diabetes Mellitus e Dislipidemia (colesterol alto).
- Bilateralidade: A estatística revela que sulcos bilaterais (em ambas as orelhas) e mais profundos estão diretamente correlacionados a obstruções em múltiplas artérias e a um maior risco de infarto agudo do miocárdio.
A recomendação clínica: O resgate do exame físico
Um ponto crucial trazido pela literatura recente (como na carta ao editor presente na revista de 2022) é a recomendação de que o Sinal de Frank seja reintegrado ao exame físico de rotina. Em uma era de exames laboratoriais caros, os médicos são incentivados a não perder a “arte da observação”. A recomendação é clara: a presença do sinal deve servir como um gatilho para que o profissional de saúde priorize a investigação cardiovascular do paciente, agilizando diagnósticos que poderiam levar meses.
A ponte com a milenar Medicina Tradicional Chinesa (MTC)
Se para a medicina ocidental o Sinal de Frank é uma descoberta do século XX, para a Medicina Tradicional Chinesa e a Auriculoterapia, a orelha é um mapa da saúde há milênios. Na MTC, a orelha é um microssistema onde o corpo inteiro se reflete.
Os mapas de acupuntura auricular identificam exatamente o local da prega de Frank como o “Sulco de Doença Coronária” ou “Sulco de Arritmia”. Para a MTC, o aparecimento desta marca física é um sinal de Estase de Sangue do Coração. Como o Coração “governa o sangue e os vasos”, qualquer obstrução crônica no sistema (como a aterosclerose) acaba se manifestando na periferia. O sulco na orelha é, portanto, a visualização externa de uma estagnação interna de energia (Qi) e sangue.
A importância da observação e do autocuidado
Este artigo não serve para gerar pânico, mas para promover a prevenção. Notar essa marca no espelho é, na verdade, uma oportunidade valiosa que o corpo oferece para que você antecipe decisões e priorize o seu bem-estar cardiovascular. A prevenção é a ferramenta mais poderosa que temos. Se você identificou essa marca, use essa informação como motivação para:
- Revisar hábitos: Melhorar a alimentação e reduzir o tabagismo.
- Monitorar números: Verificar pressão arterial e níveis de glicose.
- Iniciar uma atividade física regular.
- Buscar ajuda: Agendar uma consulta com um cardiologista para um check-up detalhado.
- Gerenciar o estresse, que na MTC é um dos maiores vilões da saúde do coração.
O Sinal de Frank é um lembrete de que nosso corpo é uma unidade integrada. Uma simples marca na orelha pode ser o início de uma nova jornada de cuidado com o seu coração. Como ensina a medicina integrativa: o corpo fala, e prevenir ainda é o melhor caminho para uma vida longa e saudável.
Referências bibliográficas
- Lin AN, Lin K, Kyaw H, Abboud J. A Myth Still Needs to be Clarified: A Case Report of the Frank’s Sign. Cureus. 2018 Jan 17;10(1):e2080. doi: 10.7759/cureus.2080.
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- Więckowski K, Gallina T, Surdacki A, Chyrchel B. Diagonal Earlobe Crease (Frank’s Sign) for Diagnosis of Coronary Artery Disease: A Systematic Review of Diagnostic Test Accuracy Studies. J Clin Med. 2021 Jun 25;10(13):2799. doi: 10.3390/jcm10132799.












