Enxovalha a dignidade da Pátria a crescente percepção de decadência moral e promiscuidade política que, aos olhos de muitos cidadãos, parece impregnar os três Poderes da República. Multiplicam-se episódios que alimentam a sensação de que parcelas da classe dirigente se afastaram dos princípios republicanos, enquanto o contribuinte arca, silenciosamente, com o peso de uma estrutura pública dispendiosa e frequentemente ineficiente.
O enfraquecimento de importantes instrumentos de combate à corrupção nos últimos anos como alterações legislativas, mudanças jurisprudenciais e reconfigurações institucionais foi interpretado por parte da sociedade como um sinal de arrefecimento no enfrentamento aos desvios éticos e administrativos. A descontinuidade de operações emblemáticas e a suspeita revisão de entendimentos consolidados provocaram um abalo na confiança pública.
Nesse ambiente, consolidou-se a percepção de que as relações questionáveis entre poder econômico e poder político tornaram-se despudoradamente mais visíveis e menos constrangidas. Reuniões públicas, encontros sociais e aproximações entre agentes privados e autoridades passaram a ser observados com crescente desconfiança por parte da opinião pública, ainda que tais interações, por si só, não configurem, em princípio, ilícito, mas sem dúvidas são máculas éticas.
O problema central não reside em indivíduos isolados, mas na cultura política que permite a naturalização de práticas pouco transparentes. Quando faltam critérios objetivos de prestação de contas, quando patrimônios evoluem sem explicações amplamente compreendidas pela sociedade, instala-se um ambiente de suspeição que corrói a legitimidade das instituições.
A metáfora do “triunfo das nulidades” não pretende imputar crimes específicos, mas denunciar a percepção de degradação ética que se espalha no imaginário coletivo, que se agrega a seres abjetos que em cargos de relevância expõem a devassidão dos seus conceitos morais. A política, que deveria ser instrumento de promoção do bem comum, corre o risco de ser vista como espaço de troca de favores, influência e conveniência de cunho particular.
O cidadão comum, o trabalhador, o pai ou mãe de família, o profissional dedicado observa perplexo esse cenário. A descrença nas instituições é, talvez, o efeito mais grave desse processo. Quando a confiança no Estado se dissolve, abre-se espaço para o cinismo, para o radicalismo e para o desalento cívico, caminho vil para a convulsão social.
A crise, portanto, é menos jurídica e mais moral. Não se trata de condenações formais, mas de uma erosão gradual da autoridade ética do Estado. Se a República deseja preservar sua dignidade, é imprescindível restaurar a transparência, fortalecer mecanismos de controle e reafirmar o compromisso com a legalidade estrita, não como instrumento de perseguição, mas como garantia de igualdade de direitos. Não se trata de apontar nomes, estes são o fruto da iniquidade de parasitas que enxergam o cidadão como hospedeiro de suas cobiças e os seus filhos como lêndeas, trata-se de defender princípios, os dogmas sagrados que forjam uma nação, que quando abandonados, cobram um preço alto das futuras gerações.
Enfatize-se que a política, em sua essência grega politiké (assuntos da pólis ou cidade-estado), existe para gerir o coletivo. Quando ela se torna um “espaço de conveniência”, ocorre uma transmutação ontológica, o representante público deixa de ser um servidor para se tornar um negociante de influências. A vítima, neste caso, é o próprio corpo social onde cidadão para de distinguir o “bom” do “mau” político, o servidor público honesto do desonesto, acreditando que todos são parte do mesmo sistema de trocas. Nesta perspectiva, as instituições deixam de ser vistas como pilares da democracia e passam a ser percebidas como carcaças sendo devoradas por interesses escusos.
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”– Rui Barbosa.












