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VAR do preconceito não pode deixar impedido quem cuida dos brasileiros – por Artur Marques

Mais de 16% da população brasileira, cerca de 35 milhões de pessoas segundo as tabelas populacionais do IBGE, não haviam nascido ou ainda eram bebês quando o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de futebol, na Copa do México de 1970, com uma seleção considerada por muitos a melhor de todos os tempos: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo (Marco Antônio); Clodoaldo, Gerson e Rivelino; Jairzinho, Tostão e Pelé.

Naquele tempo, a música que embalava a campanha brasileira começava com um verso que atravessou gerações: “Noventa milhões em ação, pra frente, Brasil, salve a Seleção”. A letra conotava o conceito de que todos os habitantes do País estavam reunidos em torno do time treinado por Zagalo.

Passados 56 anos, o cenário é outro. Agora, na busca pelo hexacampeonato na maior Copa do Mundo da FIFA, disputada no México, Canadá e Estados Unidos, a população do Brasil já soma 213 milhões de pessoas. O crescimento foi 136,6% desde então. Somos 123 milhões de brasileiros a mais torcendo pela Seleção.

Porém, o crescimento do País não ampliou apenas o tamanho da torcida. Também multiplicou desafios, demandas sociais e a necessidade de serviços públicos capazes de atender uma população muito maior e mais complexa.

Na saúde, cerca de 76% dos brasileiros, aproximadamente 161 milhões de pessoas, dependem exclusivamente do SUS para acesso à assistência médico-hospitalar. Na educação básica pública, segundo o mais recente Censo Escolar, estão matriculados cerca de 40 milhões de alunos, o equivalente a 85% do total. O INSS, por sua vez, atende aproximadamente 40 milhões de aposentados, pensionistas e beneficiários sociais.

Bastam esses três exemplos para dimensionar o tamanho da responsabilidade do Estado brasileiro e a relevância do funcionalismo público no cotidiano nacional. Afinal, por trás de cada número existe uma vida concreta: um estudante em sala de aula, um trabalhador solicitando aposentadoria, um responsável levando uma criança a uma UBS, um paciente sendo operado num hospital.

Nesse contexto, é lamentável observar que, no debate público brasileiro, tornou-se comum tratar o funcionalismo da União, Estados e municípios como alvo preferencial de críticas generalizadas, quase sempre simplificadoras. Evidentemente, o País precisa buscar mais eficiência, modernização e qualidade na gestão estatal. Isso é indispensável, mas não depende dos servidores e sim da vontade política dos representantes dos Três Poderes.

O funcionalismo não é o responsável pelo crônico déficit fiscal como muitos tentam fazer a opinião pública acreditar, em especial nos anos eleitorais. Não é o professor ou o enfermeiro das redes públicas que fazem os orçamentos, aprovam benesses tributárias ou concedem privilégios a parlamentares. Eles trabalham em prol da sociedade, recebendo salários muito menores do que se difunde no inconsciente coletivo.

O fato é que se torna indispensável reconhecer que nenhum País funciona sem servidores preparados, comprometidos e presentes em cada ponta da estrutura pública. É assim no Brasil real, que não acontece apenas nos gabinetes do poder. A Nação vive na escola municipal da periferia, no hospital público, na unidade básica de saúde, no posto do INSS, na fiscalização sanitária, na segurança pública, nas universidades, nos serviços de assistência social e em milhares de repartições espalhadas pelo território nacional.

Talvez o futebol ajude a compreender melhor essa realidade. Nenhuma seleção conquista um título apenas com craques. É preciso ter organização, treinamento, dedicação e espírito coletivo. Há quem apareça no lance decisivo, mas também existem aqueles que sustentam anonimamente o funcionamento de toda a equipe.

Por isso, a atuação desse enorme time de brasileiros Servidores Públicos que, de maneira anônima e dedicada, entra em campo todos os dias em favor da população, não pode ser impedida de cumprir sua missão pelo VAR do preconceito, da desinformação e da falta de reconhecimento ao seu trabalho.

*Artur Marques é o presidente da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP).

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