1. A contribuição histórica da engenharia no desenvolvimento do Brasil
A engenharia brasileira foi a espinha dorsal da modernização do país no século XX, atuando como agente central na integração do território, na industrialização e na construção de uma base tecnológica própria. Saindo de uma base agrária e rural, o Brasil se transformou em uma nação com parque industrial robusto e infraestrutura que permitiu sua integração e desenvolvimento.
No campo da infraestrutura, a engenharia foi responsável por concretizar as grandes obras que conectaram o Brasil. As ferrovias foram um dos principais agentes transformadores, ligando o país de norte a sul e substituindo o antigo transporte por tropas de burro. O ápice da infraestrutura rodoviária e de grande porte se deu a partir da década de 1930, com feitos notáveis como a Ponte Rio-Niterói (1974), que integrou as duas margens da Baía de Guanabara eliminando a necessidade de uma viagem de 120 km por terra, e a Usina Hidrelétrica de Itaipu (1984), que se tornou um símbolo da capacidade da engenharia nacional ao ser a maior geradora de energia do mundo.
Na industrialização, a partir da década de 1950, com a instalação de empresas multinacionais, houve uma forte difusão de conceitos como a organização científica do trabalho, consolidando a Engenharia de Produção no Brasil. A criação de cursos de graduação, como o da Escola Politécnica da USP em 1957, foi fundamental para formar os profissionais que dariam suporte a essa nova realidade industrial. Na área de defesa e tecnologia, programas estratégicos como o de transferência de tecnologia no setor aeroespacial (parceria Embraer-Saab para o caça Gripen) e na área naval (Programa de Submarinos – PROSUB) são exemplos da busca por domínio tecnológico, indo além da simples montagem sob licença.
No campo da ciência, tecnologia e inovação, a busca pela “independência tecnológica” foi um motor para a criação de centros de pesquisa e pós-graduação. As primeiras instituições de pós-graduação em Engenharia de Produção, como a COPPE/UFRJ e a PUC/RJ, surgiram nesse contexto de esforço nacional. O Estado atuou como indutor desse desenvolvimento, utilizando mecanismos como a política de compras governamentais com preferência por bens e serviços nacionais, a política de conteúdo local (como os da Petrobras no pré-sal) e o financiamento à inovação via BNDES e programas de subsídio como a Lei do Bem.
Apesar dos avanços, a trajetória da engenharia nacional não foi isenta de críticas e desafios. Setores como a agricultura de commodities, apesar de sua pujança, são dominados por corporações estrangeiras em elos essenciais como sementes, agrotóxicos e maquinário, limitando a geração de capital e tecnologia nacional. Esse debate se intensifica com a crítica à dependência de multinacionais e a defesa de um projeto nacional de desenvolvimento que coloque a engenharia nacional no centro.
2. Gargalos e desafios para a engenharia no século XXI
Para enfrentar os gargalos do século XXI e dar um salto no desenvolvimento, a engenharia genuinamente nacional precisa de um pacto estratégico que envolva governo, academia e setor produtivo. Não se trata apenas de “mais engenheiros”, mas de uma reengenharia completa do sistema: como formamos, como valorizamos e como integramos esses profissionais no projeto de nação.
O diagnóstico atual é de um paradoxo perigoso: o Brasil corre o risco de enfrentar um déficit de até um milhão de engenheiros nos próximos anos, mesmo com muitas obras estruturantes paralisadas. Essa escassez, aliada à baixa remuneração e à desindustrialização, cria um ciclo vicioso que desestimula os jovens e esvazia o papel estratégico da profissão.
Para superar esses desafios, o governo precisa atuar como indutor e articulador central em várias frentes:
1. Formação com qualidade e prática: A engenharia lida com riscos reais, portanto a formação prática é crucial. O governo precisa avaliar novas regras para o Ensino a Distância (EaD), assegurando que os cursos mantenham alto padrão e ofereçam experiências práticas essenciais, com novas Diretrizes Curriculares Nacionais focadas em competências e integração com o setor produtivo.
2. Reindustrialização e criação de demanda: Um programa nacional de reindustrialização, como o Nova Indústria Brasil (NIB), é fundamental para criar uma demanda concreta e de longo prazo para engenheiros, direcionando investimentos para áreas estratégicas como transição energética, saúde e defesa.
3. Valorização profissional e atratividade: O governo precisa atuar para reverter a fuga de engenheiros para outros setores, como o financeiro, envolvendo políticas de valorização salarial (respeito ao piso profissional) e criação de carreiras de Estado atrativas para engenheiros em órgãos públicos.
4. Melhoria da educação básica: A queda no interesse por engenharia começa muito antes da universidade, com defasagem em matemática e ciências no ensino médio. O governo deve tratar o estímulo a essas áreas como parte de uma política tecnológica de longo prazo.
Em contrapartida, a engenharia brasileira está pronta para contribuir ativamente com o governo em várias frentes: protagonismo em grandes projetos nacionais (transição energética, cidades inteligentes, soberania e defesa), inovação e conectividade (Indústria 4.0), e proposição de políticas públicas baseadas em evidências técnicas.
3. A Primeira Conferência Nacional da Engenharia e a ENCTI
A convocação da 1ª Conferência Nacional da Engenharia representa um marco histórico e uma mudança estratégica na relação entre o Estado brasileiro e a engenharia. Pela primeira vez, a categoria terá um espaço institucional para, junto ao governo, definir o futuro do país. A conferência é fruto de uma articulação do Fórum da Engenharia Nacional, que reúne mais de uma centena de entidades, instituições e universidades, e foi convocada oficialmente pelo Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP), com apoio da Secretária-geral da Presidência.
Sua organização está a cargo de uma Comissão Organizadora Nacional composta por 27 órgãos e entidades públicas e privadas, incluindo ministérios (MDIC, MCTI e das Cidades), agências de fomento (BNDES, Finep), entidades de classe (FNE, CONFEA), movimentos sociais (EngD) e associações científicas (SBPC). A data prevista para a etapa nacional é novembro de 2026, na Universidade de São Paulo (USP).
Com o tema “Engenharia Nacional, Desenvolvimento Sustentável e Soberania Brasileira”, a conferência debaterá os principais gargalos e oportunidades para o setor: infraestrutura e inovação, valorização e educação, ciência e tecnologia como política de Estado, e construção de uma Política Nacional de apoio a startups e deeptechs.
Complementarmente, a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2024-2034 é o principal documento orientador das políticas públicas de CT&I para a próxima década. Construída a partir da 5ª Conferência Nacional de CT&I, que mobilizou mais de 100 mil pessoas, a ENCTI organiza suas diretrizes em quatro eixos estruturantes:
1. Expansão, consolidação e integração do Sistema Nacional de CT&I: fortalecer a base científica e tecnológica conectando universidades, institutos de pesquisa e o setor produtivo.
2. Inovação empresarial e reindustrialização em novas bases tecnológicas: estimular a inovação dentro das empresas e usar a tecnologia como motor para reindustrializar o Brasil.
3. Projetos estratégicos para soberania nacional: focar em áreas críticas como inteligência artificial, semicondutores, tecnologias quânticas, transição energética, agrociências, bioeconomia e saúde.
4. CT&I para o desenvolvimento social: usar ciência e inovação para reduzir desigualdades, melhorar a qualidade de vida e promover a inclusão social.
4. O papel da engenharia no próximo governo
Para o próximo governo, a contribuição da engenharia genuinamente nacional precisa ser a de motor de um novo ciclo de desenvolvimento sustentável e soberano, atuando como o elo que transforma o potencial do Brasil em projetos concretos, desde o planejamento estratégico até a execução, com foco em cinco pilares principais:
1. Protagonismo na nova indústria e inovação: O programa Nova Indústria Brasil (NIB) é a principal carta na mesa para a reindustrialização, e a engenharia é o braço executor desse plano, necessária para desenvolver as “indústrias verdes, digitais e inclusivas”. Empresas como a Embraer são exemplos de que o sucesso competitivo vem de investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento.
2. Execução de grandes projetos de infraestrutura: O governo anunciou o maior pacote de concessões ferroviárias da história recente, com investimentos estimados em R$ 140 bilhões para construir ou revitalizar cerca de 9 mil km de ferrovias, o que exigirá um contingente enorme de engenheiros civis, de transportes e especialistas em logística.
3. Formulação e suporte a políticas públicas: A FNE defende que o Estado se fortaleça como agente de planejamento e indução do crescimento. A engenharia fornece a base técnica para que esse planejamento seja factível. Um projeto de lei em tramitação, o Programa Nacional Engenheiros para o Brasil (PL 1014/24), prevê a destinação de engenheiros para assessorar prefeituras em obras com recursos federais.
4. Modernização do ensino e valorização profissional: Há um alerta sobre a estagnação do ensino de engenharia no Brasil, que precisa ser modernizado para atender às demandas da indústria 4.0, da transição energética e da digitalização. A criação de carreiras de Estado atrativas e o combate à precarização são pautas centrais.
5. Soberania e sustentabilidade: O próximo governo precisará da engenharia para garantir autonomia em temas como transição energética, segurança hídrica e alimentar, soberania digital e exploração de minerais estratégicos.
5. Lições internacionais: Coreia, Alemanha e China
A engenharia foi o pilar central para o desenvolvimento sustentável e voltado ao mercado interno de países como Coreia do Sul, Alemanha e China. O sucesso dessas nações não se deu por acaso, mas por meio de uma estratégia nacional deliberada que alinhou formação, inovação e produção.
Coreia do Sul: O exemplo mais emblemático de transformação impulsionada pela engenharia. O governo coreano definiu setores prioritários (eletrônicos, aço, automóveis, semicondutores) e ajustou todo o sistema educacional para alimentá-los. O investimento em P&D chegou a 2,6% do PIB, impulsionando a criação de mais de 12 mil centros de pesquisa dentro das empresas. A Coreia forma 80 mil engenheiros por ano, com uma proporção de 20 engenheiros para cada 100 formandos, contra 8 no Brasil. Esse país saiu de um patamar de patentes semelhante ao do Brasil nos anos 1970 para superá-lo em 40 vezes.
Alemanha: O arquétipo de desenvolvimento baseado na engenharia de alta qualidade, com forte integração entre indústria, pesquisa e formação técnica. O setor de construção civil e engenharia emprega cerca de 540 mil pessoas e é sinônimo de qualidade global. A indústria alemã está passando por uma profunda transformação, dependendo cada vez mais de “produtos híbridos” que combinam bens manufaturados com serviços e inovação.
China: Utiliza a engenharia como ferramenta central para sua estratégia de soberania
tecnológica e fortalecimento do mercado interno. O 15º Plano Quinquenal (2026-2030) foca em “novas forças produtivas de qualidade”, com ênfase em áreas como semicondutores, IA, biotecnologia e manufatura avançada. A China investe pesadamente na renovação de sua infraestrutura urbana e na transição verde, com expansão massiva em energia solar, eólica, nuclear e veículos elétricos.
A lição central é que o desenvolvimento sustentável não é um acidente, mas o resultado de um projeto de nação que utiliza a engenharia como seu principal instrumento de transformação.
6. O caminho para implementar as estratégias: financiamento e fomento
O caminho para implementar estratégias como a ENCTI e a Estratégia Brasil 2050 exige um esforço coordenado e sustentado, baseado em três pilares interligados:
O sistema de financiamento e fomento: O coração da implementação é um robusto sistema de financiamento, com duas instituições centrais que operam como “braços executores” do governo:
- Finep (Financiadora de Estudos e Projetos): É a principal agência federal de fomento à ciência e tecnologia no Brasil, financiando a inovação e a pesquisa em empresas, universidades e institutos de pesquisa. Opera com apoio não reembolsável (subvenção econômica), financiamento reembolsável com taxas de juros reduzidas e investimento em capital de risco.
- BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social): Atua na promoção da inovação empresarial com linhas de crédito específicas e o Fundo Tecnológico (Funtec), um dos principais mecanismos de fomento não reembolsável para ICTs.
Instrumentos de implementação: Os recursos financeiros se materializam por meio de uma “caixa de ferramentas” diversificada, incluindo subvenção econômica para projetos inovadores, crédito com juros reduzidos para P&D (especialmente para MPMEs), e programas de inovação aberta e centros de P&D. Um exemplo recente é o edital conjunto BNDES e Finep que selecionou 88 projetos para novos centros de PD&I, com investimento total estimado em R$ 10 bilhões e previsão de contratação de 935 pesquisadores qualificados.
Desafios e continuidade: Apesar da estrutura existir, sua eficácia depende de continuidade orçamentária e de políticas de Estado. A área de CT&I, por suas características de investimento de longo prazo e alto risco, é significativamente afetada por rupturas orçamentárias e ciclos de curto prazo. O caminho fundamental é garantir a previsibilidade orçamentária, especialmente para o FNDCT, e estabelecer mecanismos de governança que assegurem que as prioridades sejam seguidas de forma consistente.
7. Compras públicas e empresas genuinamente nacionais
O governo pode privilegiar empresas genuinamente nacionais em suas compras por meio de uma combinação de instrumentos legais já previstos na Nova Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021), sem que isso signifique renunciar à qualidade, da melhor tecnologia ou do preço justo.
Margem de preferência: A Administração Pública pode conceder uma vantagem percentual sobre o preço de produtos manufaturados e serviços nacionais. Na prática, se um produto nacional for até 10% mais caro que um estrangeiro, ele pode ser contratado por essa vantagem, com margem adicional de até 20% para bens que resultem de desenvolvimento tecnológico e inovação interna no Brasil.
Incentivo à inovação com encomendas tecnológicas: Este instrumento permite que o poder público contrate diretamente, com dispensa de licitação, o desenvolvimento de produtos ou soluções inovadoras para resolver problemas concretos que envolvam risco tecnológico, fomentando a criação de tecnologia genuinamente nacional.
Uso do critério de julgamento “Técnica e Preço”: A Nova Lei permite que o critério de julgamento não seja apenas o menor preço. Para contratações mais complexas, o edital atribui pesos diferentes para a qualidade técnica da proposta e para o preço, permitindo que uma empresa nacional com solução tecnologicamente superior possa vencer a licitação.
Os desafios para a implementação incluem a cultura do “menor preço” e o excesso de formalismo administrativo, a insegurança jurídica que desestimula gestores a inovar, e a descoordenação e falta de planejamento integrado. Para superá-los, o governo pode fortalecer a coordenação entre órgãos, oferecer segurança jurídica aos gestores e capacitar servidores.
8. O debate macroeconômico: arcabouço fiscal, juros e rentismo
O atual arcabouço fiscal, em sua essência, é fruto de um acordo político para substituir o antigo teto de gastos, com a intenção declarada de criar condições mais realistas para programar políticas e gastar com critério, protegendo a capacidade de investimento. Entretanto, para uma parte significativa dos principais economistas do Brasil, analistas e entidades diversas representativas da sociedade, essa ferramenta ainda reflete uma lógica neoliberal que, na prática, continua a comprimir o espaço para o desenvolvimento e a privilegiar o sistema financeiro.
Três fatores são particularmente críticos:
A Lei Kandir e a desnacionalização da indústria são apontadas como fatores que sangraram o desenvolvimento nacional. O Decreto 3161/99 (Repetro) é citado como um dos responsáveis pelo fechamento de milhares de empresas nacionais fornecedoras da indústria do petróleo.
Os juros estratosféricos tornam mais vantajoso investir em títulos públicos do que em atividades produtivas, desestimulando o investimento em inovação e infraestrutura.
O antigo teto de gastos, segundo avaliação do presidente da Câmara dos Deputados, “não acompanhava o crescimento das despesas constitucionais obrigatórias e tornava impossível a realização de investimentos adicionais, muitos deles de caráter essencial”. Estudos acadêmicos indicam que os efeitos do teto de gastos sobre o investimento público são difíceis de isolar da recessão de 2015-2016, que foi a verdadeira origem da grande compressão dos investimentos públicos observada no período.
Para os defensores de um projeto nacional de desenvolvimento, é hora de romper com essa trajetória e adotar um modelo que liberte o país das amarras do rentismo. Essa perspectiva propõe:
1. Papel ativo do Estado: Um Estado forte e coordenador, que atue como indutor do crescimento econômico, investindo maciçamente em infraestrutura, ciência e tecnologia, e usando seu poder de compra e regulação para fomentar a indústria nacional.
2. Reindustrialização verde e inovação: Uma reindustrialização em novas bases, construindo uma indústria verde, digital e inclusiva que gere empregos de qualidade e agregue valor à matriz econômica.
3. Justiça social e distribuição de renda: Colocar o bem-estar do povo no centro, com valorização real do salário-mínimo elevando-o gradativamente em quatro anos a no mínimo triplicá-lo, mantendo sua indexação também aos salários dos aposentados, expansão de programas de transferência de renda, investimento maciços em educação e saúde públicas, e tributação mais justa com menor foco no consumo e maior na tributação de renda, lucros e grandes fortunas.
4. Soberania e autonomia: No plano externo, romper com a dependência e a subserviência, fortalecendo alianças com o Sul Global e buscando a autossuficiência em áreas estratégicas.
A grande questão é que o atual arcabouço fiscal, que ainda carrega princípios de controle de gastos, é um obstáculo como instrumento para viabilizar esse novo projeto. A escolha não é meramente técnica, mas política, sobre qual projeto de nação queremos construir.
9. Síntese final: um projeto de nação para o Brasil
A trajetória da engenharia genuinamente nacional no Brasil é a história da própria construção do país como nação moderna. No século XX, ela integrou o território com ferrovias, pontes e hidrelétricas, industrializou a economia e criou as bases para um parque tecnológico que, em setores como a aeronáutica, chegou a rivalizar com potências mundiais. Obras como a Ponte Rio-Niterói e a Usina de Itaipu não são apenas feitos de engenharia; são símbolos da capacidade brasileira de realizar empreendimento complexo que conectam pessoas, geram energia e movimentam a economia.
Entretanto, o país vive hoje um paradoxo: mesmo com um déficit projetado de até um milhão de engenheiros nos próximos anos, a juventude brasileira tem se afastado das carreiras de engenharia. A baixa remuneração, a desvalorização profissional e a falta de perspectivas em um contexto de desindustrialização afastam talentos. As sociedades que alcançaram patamares elevados de desenvolvimento – Coreia do Sul, Alemanha, China – sempre colocaram a engenharia no centro de seus projetos nacionais, formando engenheiros em quantidade e qualidade, criando demanda para eles e investindo continuamente em pesquisa e inovação.
O governo atual já sinalizou a direção correta com a convocação da 1ª Conferência Nacional da Engenharia, prevista para 2026, e com a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2024-2034. Esses instrumentos representam um marco institucional ao recolocar a engenharia no centro do debate sobre o futuro do país, mas seu sucesso depende de um ambiente macroeconômico que privilegie o investimento produtivo em detrimento do rentismo.
É nesse ponto que o debate se torna mais agudo. As “amarras” apontadas – a Lei Kandir, o antigo teto de gastos, os juros estratosféricos que privilegiam a especulação financeira – são vistas como obstáculos estruturais que impedem o Brasil de dar o salto necessário. O atual arcabouço fiscal, embora tenha substituído o teto de gastos, ainda é criticado por refletir uma lógica neoliberal que comprime o espaço para investimentos públicos. Para os defensores de um projeto nacional de desenvolvimento, é hora de romper com essa trajetória e adotar um modelo que liberte o país das amarras do rentismo, com um Estado forte e indutor, focado na reindustrialização verde, na inovação, na justiça social e na soberania.
O caminho para implementar essa visão passa por três frentes principais. Primeiro, financiamento robusto e contínuo, com o papel central da Finep e do BNDES, garantindo recursos não reembolsáveis e crédito com juros reduzidos para projetos estratégicos. Segundo uso inteligente do poder de compra do Estado, aplicando os mecanismos já previstos na Nova Lei de Licitações – como a margem de preferência para produtos nacionais, as encomendas tecnológicas e o critério de julgamento “técnica e preço” – para privilegiar empresas genuinamente nacionais sem abrir mão da qualidade e da inovação. Terceiro, valorização da formação e da carreira do engenheiro, modernizando o ensino, combatendo a precarização e criando carreiras de Estado atrativas que retenham talentos.
As lições internacionais são inequívocas: a Coreia do Sul ajustou seu sistema educacional para alimentar setores prioritários e hoje forma 80 mil engenheiros por ano; a Alemanha mantém uma engenharia de excelência com forte integração entre indústria e pesquisa; a China utiliza a engenharia como ferramenta central para sua estratégia de autossuficiência tecnológica. Em todos esses casos, o desenvolvimento sustentável não foi um acidente, mas o resultado de um projeto de nação que utilizou a engenharia como seu principal instrumento de transformação.
O Brasil tem todos os ingredientes para repetir esse feito: uma base científica consolidada, um parque industrial que pode ser reativado, recursos naturais abundantes e, acima de tudo, uma engenharia nacional que já provou sua capacidade em momentos decisivos da história. O que falta é a vontade política e a continuidade de esforços para transformar as estratégias em ações concretas, garantindo que a engenharia deixe de ser vista como um custo e passe a ser compreendida como o alicerce da soberania, do bem-estar social e do desenvolvimento sustentável.
A 1ª Conferência Nacional da Engenharia, em novembro de 2026, pode ser o ponto de virada. Ao reunir governo, academia, empresas e profissionais em um diálogo institucional sobre o futuro da profissão, ela tem o potencial de construir um pacto nacional que transcenda governos e coloque a engenharia genuinamente nacional no centro do projeto de desenvolvimento que o Brasil merece. O desafio é imenso, mas a oportunidade é histórica – e a engenharia brasileira está pronta para responder.
Celso Soares – Engenheiro Mecânico pela EESC-USP (1977) é
Diretor de Controle e Finanças da EngD – Engenharia pela Democracia
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