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A fisiologia política é a causa de todos os nossos problemas – por José Crespo

A cada dia que passa, nas redes sociais e logo depois no restante da Mídia,  deparamo-nos com novos escândalos envolvendo dinheiro público (para muitos, o  dinheiro que “não tem dono”, ou seja, um “saco sem fundo” em que o dono não se  dá conta). 

O país tem um PIB considerável e com ele sobrevive apesar dos cotidianos  desfalques, assaltos e todo tipo de crimes de colarinho branco; tapam-se os buracos  no varejo – apenas no varejo. 

O desenvolvimento coletivo (no atacado) nas principais áreas (Segurança, Saúde e  Educação), com isso, fica sempre em segundo plano e, quando há investimentos  vultosos, é sempre para favorecer apenas alguns e por prazo determinado. 

E na origem, a culpa não é nem da “esquerda” nem da “direita” e sim de uma cultura  de egoísmo, de “tirar vantagem de tudo e de todos” sem real motivação para o bem  comum. 

Isso não vai terminar bem. 

Alguns afirmam que essa cultura remonta à forma com que o país foi colonizado nos  primeiros séculos, com interesses meramente extrativistas (madeiras e minérios principalmente), explorando os nativos e afastando os invasores. 

Esse era o único dever dos “donatários” nas capitanias, amigos do rei Dom João III,  que chegavam com plenos poderes sobre a vida, os cargos e os tributos de todos os demais. Não havia qualquer ideologia, valores humanos, religiosos ou sociais a criar  ou priorizar. Deu no que deu. A globalização e as redes sociais somente  impulsionaram essa cultura de egoísmo que já existia. 

Fisiologia política é portanto a prática em que os agentes públicos utilizam o voto e  o poder decorrente para obter vantagens privadas e favores, em vez de defender  ideologias e o bem comum. Essa barganha envolve conchavos, licitações dirigidas e  propinas através de cargos vinculados, emendas com interesses menores e  ultimamente a criação de uma casta de ditadores judiciários, igualmente corruptos (nos sentidos financeiro e moral). 

Não cabe analisar a “culpa” de Dom João III ou as alternativas de que ele dispunha,  mas é certeza de que esse modelo não cabe mais. E afirmar isso não significa uma reação dos “bons” contra os “maus” (infelizmente os bons costumam sempre dar a  outra face e neste planeta isso não surte efeitos): virou uma guerra entre os maus e  os piores, uma vez que nem mesmo o “tribunal do crime” aceita mais a flagrante  violação de suas próprias leis. 

Antigas exceções viraram a regra. Chefes do Poder Executivo (prefeitos,  governadores e presidente) nomeiam secretários e aliados não para executar planos  de governo, e sim para melhor assaltar o erário e disfarçar demagogicamente o feito. 

Ao final do regime militar, as forças vivas da sociedade predisseram que “havia ambientação propícia para a superação das velhas práticas e o surgimento de  partidos com matizes honestas e resolutivas; a fisiologia política era coisa prestes a  desaparecer” (matéria da Folha de São Paulo em 7/1/1979). Ledo engano: continuou e se fortaleceu… 

O presidente Sarney, que promulgou a “nova” Constituição, em pouco tempo  percebeu isso e se deu por vencido, institucionalizando o fisiologismo com a  pomposa roupagem de “presidencialismo de coalizão”, em que a “governabilidade” acontece não por convergência de propósitos mas somente com a prática do “é  dando que se recebe”. 

Bem diferente do que poderia ser um Parlamentarismo sério e de raiz. A causa ainda mais remota de todos os nossos problemas é a escassez de Valores. 

Esperamos que esse resgate aconteça pela constatação da falência e perversidade do cenário histórico que nos persegue, sem vencedores nem vencidos.  

Dá para reconstruir tudo, democrática e pacificamente? 

Sim, mas o único caminho é uma Constituinte Exclusiva, eleita e com poder de  promulgação direta do seu trabalho (imune aos três Poderes atuais, corrompidos).  Exclusiva, com vedação de outras candidaturas a todos os seus artífices, para  garantir a idoneidade e os resultados longevos de que a nação precisa. 

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(José Crespo foi deputado estadual na ALESP durante três mandatos consecutivos e  atualmente é presidente do ICPP – Instituto de Cidadania e Políticas Públicas).

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