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O Brasil não crescerá sem investir em quem sustenta o cuidado – por Vera Carvalho Oliveira

O Brasil costuma discutir a desigualdade racial a partir de quem teve menos acesso a oportunidades. Talvez seja hora de olhar também para quem sustenta essas oportunidades para tantas outras pessoas.

A economia do cuidado tem presença silenciosa na vida do país. Está na rotina que permite a uma criança ir à escola, no acompanhamento de um idoso em uma consulta, no apoio que dá autonomia a uma pessoa com deficiência e no trabalho de outra mulher que permite a uma mãe trabalhar — muitas vezes, alguém em condição vulnerável, que assume parte do cuidado da casa, dos filhos ou da família.

Esse trabalho sustenta a economia todos os dias, mas raramente aparece nas planilhas.

No Brasil, essa invisibilidade tem gênero, classe e raça. Mulheres negras, pretas e pardas ocupam historicamente o papel de cuidadoras: nas casas, comunidades, serviços essenciais, redes familiares e no trabalho doméstico, remunerado ou não. Elas representam cerca de 28% da população brasileira, mas estão entre as pessoas com menor renda, menor acesso ao ensino superior e maior exposição à pobreza, à informalidade e à violência.

Dados do Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, do Ipea, mostram que a renda domiciliar média das mulheres negras é de cerca de R$ 1.402, menos da metade da dos homens brancos e inferior à das mulheres brancas. Segundo o IBGE, mulheres e homens negros representam cerca de 80% dos 10% mais pobres do país. Em 2023, 3,6 milhões de mulheres pretas ou pardas estavam fora da força de trabalho, mais que o dobro das mulheres brancas (1,5 milhão).

Quando o grupo que mais sustenta o cuidado é o que menos acessa renda, educação, proteção social e oportunidades, todo o país perde capacidade de desenvolvimento. A desigualdade, além de injustiça histórica, torna-se obstáculo à produtividade, à mobilidade social e à construção de uma sociedade menos vulnerável.

O cuidado organiza a vida das famílias, influencia a permanência das crianças na escola, afeta a saúde emocional dos adultos e determina a possibilidade de trabalhar e gerar renda. Sem rede de apoio, a pobreza se aprofunda. Quando quem cuida adoece ou precisa abandonar o trabalho ou os estudos, toda a família sente e o país desperdiça talento, renda e futuro.

Por isso, a economia do cuidado deve ser tratada como política de desenvolvimento. Países não crescem apenas com infraestrutura, tecnologia ou crédito. Crescem quando criam condições para que as pessoas possam cuidar, ser cuidadas, estudar, trabalhar e participar plenamente da vida econômica.

Isso exige ampliar o acesso à educação, renda, proteção social, saúde e políticas de cuidado; fortalecer creches, redes de assistência, programas de geração de renda, apoio às famílias e iniciativas que reconheçam quem cuida; e produzir dados para identificar políticas capazes de romper ciclos de vulnerabilidade entre gerações.

Ao longo da minha trajetória no terceiro setor, aprendi que fortalecer quem cuida transforma famílias inteiras. Quando uma mulher amplia sua autonomia, acessa direitos e melhora sua renda e autoestima, crianças participam mais da vida escolar, vínculos comunitários se fortalecem, hábitos alimentares melhoram e novas possibilidades de futuro surgem.

Esse aprendizado precisa ocupar o centro da agenda econômica brasileira. Julho das Pretas reconhece trajetórias, denuncia desigualdades, valoriza lideranças negras e convida o país a uma pergunta incômoda: quem cuida de quem cuida do Brasil?

Enquanto esse cuidado seguir concentrado nas mulheres negras, que trabalham demais, ganham menos e acessam menos oportunidades, estaremos diante de uma das maiores contradições do nosso desenvolvimento.

Há uma frase que resume essa realidade com precisão: quem cuida do Brasil é uma mãe preta.

O país precisa, finalmente, cuidar dela.

*Vera Carvalho Oliveira é fundadora e diretora executiva do Instituto C e Young Global Leader do Fórum Econômico Mundial

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