A Copa terminou e fica claro que as denúncias que o jornalista investigativo escocês Andrew Jennings apresentou ao longo de toda uma vida dedicada de forma quase sacerdotal a desvendar o mundo obscuro da Fifa tinham fundamento. Começou a carreira em 1960 no The Sunday Times e em 1992 publicou The Lords of the Rings, desmascarando escândalos de corrupção e o jogo sujo na Fifa e no Comitê Olímpico Internacional.

Suas revelações permitiram as investigações do FBI que ficaram mundialmente conhecidas como “Fifagate” e que levaram aos tribunais os presidentes da Fifa Joseph Blatter e o brasileiro João Havelange. Passados todos estes anos, o mundo assistiu estarrecido a cenas inéditas e inaceitáveis relacionadas à entidade nesta Copa de 2026.

Em campo, Folarim Balogun, atleta dos Estados Unidos em partida contra a seleção da Suíça, recebeu cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Rafael Klaus, com pronta reação por parte do presidente Donald Trump que veio a público desqualificar o brasileiro chamando-o de suspeito, transformando o jogo de Copa do Mundo numa verdadeira pelada de várzea.


Sim, porque é elementar dentro do âmbito da disputa desportiva o respeito à independência do árbitro, que foi literalmente pisoteado pela Fifa ao anular a suspensão aplicada decorrente da punição que havia sido por ele imposta. Klaus foi desautorizado por força da ingerência de um líder político por trás das cortinas do poder, manchando para sempre a disputa.
Conseguiu tornar menos grave a manipulação do General Jorge Rafael Videla, que levou a seleção do Peru a perder propositalmente de 6×0 para colocar a Argentina na final daquela Copa disputada na Argentina. Menos grave sim, como sabiamente advertiu Eugênio Bucci em conversa que tivemos, porque Videla exercia o poder de forma ditatorial, ao passo que Trump foi escolhido em eleições regulares.
Mas não é só: esta Copa entra para a história por ter sido impedido de entrar nos Estados Unidos, onde tem agido a truculenta ICE, o árbitro Omar Artan, da Somália, pela imigração do país, por suposta suspeita de terrorismo sem qualquer espécie de comprovação ou acusação formal. O governo alegou supostas preocupações ligadas à segurança e verificação de antecedentes, possivelmente associadas a restrições de entrada no país impostas a cidadãos somalis em geral. Afirmaram suspeitas de vínculos com “pessoas perigosas”.

Após desembarcar em Miami para o treinamento da Fifa, apesar de possuir visto válido e ser considerado o melhor árbitro da África, Omar foi submetido a um interrogatório de 11 horas e teve sua entrada negada, sendo enviado de volta para a Turquia e depois para a Somália. Ele seria o primeiro árbitro da Somália a apitar em uma Copa do Mundo. A Fifa se calou e se submeteu ao ato de arbítrio.
Killian Mbappé foi vítima de terrível ataque racista por parte de uma senadora paraguaia e respondeu de forma firme, corajosa e altiva, assim como sua federação. E mais ninguém. Nenhuma palavra foi ouvida a este respeito pelo presidente da Uefa ou pelo presidente da Fifa. Mas é importante salientar que os grandes nomes dos grandes times também ficaram silentes, como Messi, Kane, Bellingham (que é negro) e principalmente Vini Jr, que se apresenta como embaixador desta causa.



A Fifa é, sim, um organismo privado, é verdade, e a Copa é uma competição que visa lucro. Mas está obrigada à accountability, como todas as organizações do mundo privado, público e do terceiro setor. Neste novo tempo, a dimensão ESG obriga a todos e, nesta perspectiva, a Fifa deve ao mundo governança íntegra e eficiente e permanente prestação de contas.

Roberto Livianu, 58 anos, é procurador de Justiça, atuando na área criminal, e doutor em direito pela USP. Idealizou e preside o Instituto Não Aceito Corrupção. Integra a bancada do Linha Direta com a Justiça, da Rádio Bandeirantes, a Academia Paulista de Letras Jurídicas e o Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça do MPSP, eleito por seus pares. É articulista da Rádio Justiça, do STF, do O Globo e da Folha de S. Paulo.












