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As distorções brasileiras – por Ronaldo Bianchi

Há distorções brasileiras que se tornam tão permanentes que deixamos de percebê-las. Os números aparecem, provocam manchetes durante alguns dias e desaparecem, enquanto pouco se discute sobre suas causas, suas relações e, principalmente, sobre as consequências que produzem para o futuro do país.

A violência que não investigamos

O número de mortes violentas não é matéria analítica permanente da mídia. Em 2025, o Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais (MVI), taxa de 19,1 por 100 mil habitantes, mas esse número passa como um cometa pelo noticiário sem que se esmiúce suficientemente o que está acontecendo. O indicador reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte, mortes decorrentes de intervenções policiais e mortes de policiais.

As polícias pouco explicam as causas mais amplas; governadores e prefeitos tratam do assunto genericamente; a universidade produz reflexão que raramente alcança o debate público. A sociedade civil faz o necessário recorte do feminicídio e denuncia corretamente a matança feminina, mas o universo da violência letal é muito maior e permanece insuficientemente investigado. Apenas 36% dos homicídios dolosos ocorridos em 2023 foram esclarecidos até o final de 2024, segundo o Instituto Sou da Paz. Portanto, 64%, quase dois em cada três, não haviam sido esclarecidos nesse período. Nesse levantamento, esclarecimento significa que pelo menos um autor foi identificado e houve denúncia do Ministério Público, não necessariamente condenação. A desigualdade investigativa também impressiona: entre as unidades com dados adequados, o Distrito Federal chegou a 96% de esclarecimento e Rondônia a 92%, enquanto a Bahia ficou em 13% e Piauí e Rio de Janeiro em 23%.

A desigualdade regional da própria violência é igualmente extraordinária. Em 2024, o Nordeste registrou 33,8 MVI por 100 mil habitantes; o Norte, 27,7; o Centro-Oeste, 19,5; o Sul, 14,6; e o Sudeste, 13,3. São Paulo registrou 8,2. Por que alguém que vive no Nordeste está submetido a uma taxa de violência letal 2,5 vezes maior que a de quem vive no Sudeste e mais de quatro vezes superior à de São Paulo? Norte e Nordeste parecem, pelos números, um campo de batalha, possivelmente associado também às guerras entre facções pelo domínio de territórios e mercados.

No Sul e no Sudeste, entretanto, taxas menores significam necessariamente que o crime está mais controlado? Ou pode existir uma espécie de pacificação falsamente positiva? Onde o crime organizado consolidou seu domínio, a redução das mortes significa redução do poder das organizações criminosas ou pode também refletir territórios nos quais uma determinada “ordem” criminosa já se estabeleceu? São perguntas que merecem investigação. É necessário denunciar o feminicídio, mas é pouco diante de mais de 40 mil mortes violentas anuais se não procurarmos compreender quem morre, onde morre, por que morre e quais estruturas criminosas estão por trás dessas mortes.

A comparação latino-americana demonstra que essa violência não pode ser tratada simplesmente como uma fatalidade regional. Para comparar países, é necessário utilizar o indicador internacional de homicídios intencionais por 100 mil habitantes. Em 2024, a Argentina registrou 3,9 e o Chile 6,1, enquanto o Brasil chegou a 18,1; a Colômbia, a 24,4; o México, a 25,6; e o Equador, a 38,9. A taxa brasileira foi, portanto, aproximadamente 4,6 vezes a argentina e três vezes a chilena. A América Latina não é uniformemente violenta, e diferenças dessa dimensão mostram que políticas públicas, capacidade institucional, investigação policial e domínio territorial das organizações criminosas produzem resultados distintos.

Um país de inadimplentes

O Brasil chegou a 83,7 milhões de inadimplentes em junho de 2026, aproximadamente 51% da população adulta, o maior contingente da série histórica. Inadimplente não é simplesmente quem possui dívida: quem financia uma casa ou um automóvel, ou utiliza cartão de crédito e paga regularmente seus compromissos, é endividado, mas não inadimplente. Inadimplente é quem possui pelo menos uma obrigação financeira vencida e não paga. Estamos falando, portanto, de mais da metade da população adulta que já não conseguiu cumprir no prazo pelo menos um compromisso financeiro.

São 345,5 milhões de dívidas em aberto, que somam R$ 579,5 bilhões, com débito médio de R$ 6.920,63 por inadimplente e pouco mais de quatro dívidas por pessoa. Programas nacionais de renegociação são soluções pontuais diante dessa dimensão, especialmente quando determinadas modalidades de crédito chegam e ultrapassam juros de 60% ao ano, dificultando ainda mais a recuperação de quem perdeu capacidade de pagamento.

São 83,7 milhões de brasileiros que chegarão ao processo eleitoral de 2026 carregando, em grande parte, o peso do comprometimento da renda. Some-se a isso a elevação dos preços dos alimentos nos últimos três anos: ainda que em determinado mês haja estagnação ou pequena redução, a renda familiar já foi comprometida pelo aumento acumulado anterior. O resultado aparece no varejo claudicante, pois não há expansão consistente do consumo quando metade da população adulta está inadimplente e parcela significativa da renda precisa ser destinada às despesas essenciais e ao pagamento de dívidas.

Jornada de trabalho e o direito de decidir

A possibilidade de redução da jornada de trabalho e eliminação da escala 6 x 1 já provoca movimentos de adaptação, especialmente no varejo de bens e serviços, que precisa avaliar suas forças de trabalho e novos turnos de funcionamento. As demissões poderão ocorrer, porque não se trata simplesmente de decidir se é melhor trabalhar cinco ou seis dias, mas de uma mudança capaz de produzir consequências sobre trabalhadores, empresas, emprego, salários, produtividade, preços e funcionamento dos serviços.

A população não quer apenas trabalhar menos; quer ganhar melhor. Uma pesquisa de opinião, por mais tecnicamente correta que seja, trabalha com uma amostra estatística para representar a opinião da sociedade. Uma consulta popular é diferente, porque oferece a todo o eleitorado brasileiro a possibilidade de se manifestar diretamente. Se estamos discutindo como milhões de brasileiros trabalharão, os custos das empresas, os possíveis efeitos sobre emprego e produtividade e a eventual transferência desses custos aos preços, por que uma alteração estrutural dessa dimensão não pode ser submetida aos eleitores? Uma decisão que interfere tão profundamente nas relações de trabalho merece que a sociedade seja chamada diretamente a decidir.

Exportamos riqueza natural e perdemos força industrial

As exportações de petróleo, soja e minério de ferro caminham para novos recordes em 2026, demonstrando a extraordinária capacidade brasileira de produzir e exportar commodities, mas revelando também uma distorção histórica: continuamos fortemente apoiados na exportação de recursos naturais e produtos de baixa transformação. Desde 1500 exportamos nossa natureza. Mudaram os produtos — primeiro pau-brasil, açúcar e ouro, depois café, hoje soja, minério e petróleo —, assim como mudaram escala, produtividade, tecnologia e mercados, mas permanece nossa dificuldade de verticalizar a produção e transformar vantagens naturais em cadeias industriais extensas e produtos de maior valor agregado.

O problema não está em exportar commodities; devemos produzir e exportar cada vez mais. A distorção está em bater recordes nessas exportações enquanto a indústria brasileira perde participação relativa na economia. Nossa extraordinária capacidade agrícola, mineral e energética não tem sido convertida, na mesma proporção, em desenvolvimento industrial, tecnologia e produtividade. A indústria de transformação representa hoje pouco mais de 10% do PIB, depois de ter ocupado participação muito maior na economia brasileira.

Esse deveria ser um dos grandes debates nacionais. Não se trata de escolher entre agronegócio, mineração, petróleo e indústria, mas de compreender por que uma potência na produção de matérias-primas não consegue produzir movimento proporcional de fortalecimento de suas cadeias industriais. O Congresso pouco discute essa transformação estrutural, enquanto os programas industriais do Executivo ainda são insuficientes diante de um processo de perda de densidade construído durante décadas. A distorção não é sermos uma potência em commodities, mas sermos uma potência em commodities sem conseguirmos ser, simultaneamente, uma potência industrial.

A distorção maior

Violência, inadimplência, relações de trabalho e enfraquecimento industrial parecem assuntos diferentes, mas têm uma característica comum: administramos consequências sem enfrentar suficientemente as causas. Contamos mais de 40 mil mortos violentamente por ano, enquanto apenas 36% dos homicídios dolosos foram esclarecidos no período medido; criamos programas para renegociar dívidas quando 83,7 milhões de pessoas já estão inadimplentes; pretendemos alterar estruturalmente a jornada de trabalho sem oferecer a todo o eleitorado a possibilidade de decidir diretamente; e celebramos recordes de exportação de commodities enquanto assistimos há décadas ao enfraquecimento relativo da indústria.

O Brasil precisa melhorar sua governança, implantar com êxito a reforma tributária, realizar as reformas administrativa, fiscal, previdenciária e trabalhista e rever profundamente suas políticas de renúncias e incentivos fiscais. Essas reformas, entretanto, não podem representar apenas modificações de leis: precisam enfrentar as causas que produziram as distorções. Um país não se transforma administrando permanentemente seus sintomas; precisa discutir causas, estabelecer prioridades, medir consequências e decidir onde pretende chegar.

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