Uma vida dedicada ao jornalismo, ao Direito e à construção do ConJur. Para aqueles que tiveram o privilégio de conviver com Márcio Chaer, porém, seu maior legado também está na amizade, na lealdade e nas histórias que permanecerão para sempre.
Escrever sobre Márcio Chaer neste momento é uma das tarefas mais difíceis que já enfrentei como jornalista, talvez justamente porque não consigo escrever sobre ele apenas como jornalista. Seria muito mais fácil falar do fundador do Consultor Jurídico, do editor que ajudou a transformar a cobertura do Direito no Brasil, do profissional que percebeu muito cedo a força que a internet teria na comunicação, das revistas, dos Anuários da Justiça e das milhares de notícias, entrevistas, artigos e decisões que passaram pelo ConJur. Tudo isso faz parte da história de Márcio e merece ser contado, reconhecido e preservado. Mas não é essa a história que mais me dói escrever.
O que realmente me toca é falar do homem que esteve presente em praticamente toda a minha caminhada no jornalismo jurídico. Quando olho para trás e percorro mais de três décadas de profissão, percebo que é quase impossível contar minha própria trajetória sem encontrar Márcio em algum lugar dela. Conheci grandes jornalistas, advogados, magistrados, dirigentes de entidades e personagens que ajudaram a escrever capítulos importantes do Direito brasileiro. Alguns se tornaram fontes, outros colegas e pouquíssimos se tornaram verdadeiros amigos. Márcio foi um desses poucos e, para mim, foi ainda mais: foi uma daquelas pessoas que, talvez sem perceber a dimensão de seus gestos, ajudam a construir a trajetória profissional de outra pessoa.
Por isso preciso deixar registrado algo que vem do coração e que não é exagero provocado pela tristeza de sua partida: se não fosse Márcio Chaer, sinceramente, talvez eu não tivesse me tornado o jornalista da área jurídica e o apresentador que fui. Devo muito a ele.
Minha história no jornalismo jurídico está profundamente ligada ao programa Questão de Justiça, conduzido por minha mãe, a jornalista Hilda Ciglioni, e que tive a honra de apresentar. Por aquelas entrevistas passaram importantes nomes da advocacia, da magistratura e das instituições brasileiras. Estar diante daqueles personagens representava uma responsabilidade enorme para mim. Era necessário estudar, conhecer o entrevistado, compreender o universo jurídico, saber perguntar e conquistar credibilidade dentro de um meio extremamente exigente. Márcio foi fundamental nesse processo porque as entrevistas realizadas pelo Questão de Justiça eram veiculadas por ele no ConJur. Nosso trabalho encontrava espaço naquele veículo que crescia e se consolidava como uma das grandes referências do jornalismo jurídico brasileiro.
Talvez ele nunca tenha percebido exatamente o que representava para mim abrir o ConJur e encontrar ali uma entrevista que havíamos produzido. Aquilo era uma confirmação silenciosa de que o caminho estava certo. Se Márcio entendia que aquela entrevista merecia espaço, eu sabia que havia conteúdo, e isso me fazia estudar ainda mais para a entrevista seguinte, conhecer melhor o próximo personagem e respeitar cada vez mais o público.
Márcio me ajudou durante anos dessa maneira, sem discursos, sem promessas e sem precisar anunciar que estava ajudando. Ele simplesmente estava presente. Não consigo me lembrar de ter procurado Márcio com um texto, uma entrevista, uma reportagem ou uma pauta realmente importante e encontrar nele indiferença. Ele lia, avaliava, conversava e publicava. Durante muitos anos, praticamente tudo de relevante que fiz no jornalismo jurídico, de alguma maneira, passou por Márcio.
Hoje percebo ainda mais o tamanho desse privilégio, porque um jornalista não se forma apenas na faculdade ou dentro de uma redação. Forma-se também pelas pessoas que encontra, pelos profissionais que lhe dão oportunidades, pelos que corrigem, pelos que discordam, pelos que abrem portas e, principalmente, pelos que acreditam. Márcio acreditou no meu trabalho.
Isso continuou quando fui assessor de imprensa do Instituto dos Advogados de São Paulo, o IASP, outro momento importantíssimo da minha formação profissional. Estar no Instituto significava conviver com uma instituição histórica e com grandes nomes do Direito, e Márcio novamente estava naquele universo. Conhecia como poucos os personagens da advocacia, os tribunais, as disputas institucionais, as teses e os bastidores. Tinha uma característica que sempre admirei: conhecia profundamente o ambiente jurídico, mas jamais deixou de enxergá-lo como jornalista. Não se impressionava simplesmente com títulos ou cargos; queria saber onde estava a notícia, qual era o conteúdo e por que aquilo interessava ao leitor.
Depois vieram algumas das campanhas mais importantes da advocacia paulista, outra escola extraordinária na minha vida. Vivi momentos marcantes ao lado de Rubens Approbato Machado, Carlos Miguel Aidar e Luiz Flávio Borges D’Urso, em campanhas para a OAB de São Paulo que mobilizavam a advocacia e colocavam em discussão temas institucionais, prerrogativas, Justiça e cidadania. Mais tarde, vivi também a campanha do desembargador Henrique Nelson Calandra, outro capítulo fundamental da minha trajetória.
Quando percorro mentalmente cada uma dessas fases, Márcio aparece novamente. Estava ali como jornalista, editor, interlocutor e, sobretudo, amigo. É impressionante perceber agora que Márcio esteve em quase todos os grandes momentos da minha vida no jornalismo jurídico. Ele acompanhou meu crescimento profissional e eu tive o privilégio de acompanhar a consolidação da obra jornalística que construiu.
Quando o Consultor Jurídico surgiu, em 1997, falar em uma revista eletrônica especializada em Direito era apostar em um mundo que ainda estava começando. A internet brasileira dava seus primeiros passos e os grandes veículos impressos concentravam enorme influência. Márcio percebeu antes de muitos que aquele novo ambiente mudaria profundamente a forma de produzir e distribuir informação e percebeu, principalmente, que o Direito precisava de jornalistas capazes de compreendê-lo.
Essa foi uma das grandes contribuições de Márcio para nossa profissão. Não bastava informar que determinado tribunal havia decidido uma questão. Era preciso compreender o fundamento, a tese, a consequência e o impacto daquela decisão. Márcio ajudou a mostrar que Direito não era assunto restrito aos advogados e magistrados. Direito era notícia. Justiça era notícia. Aquilo que acontecia nos tribunais interferia diretamente na vida da sociedade.
O ConJur tornou-se muito mais do que um veículo especializado e passou a constituir uma verdadeira memória cotidiana da Justiça brasileira. Ali ficaram registradas decisões, mudanças de jurisprudência, entrevistas, personagens, debates, artigos e acontecimentos que ajudam a compreender décadas da vida institucional do país. Depois vieram revistas, publicações especiais e os Anuários da Justiça, demonstrando outra característica de Márcio: ele não queria apenas contar aquilo que havia acontecido naquele dia; queria registrar uma época e preservar informação para o futuro. Por isso merece ser reconhecido como um dos grandes nomes do jornalismo jurídico brasileiro. Foi um editor extraordinário, um jornalista de enorme personalidade, um profissional capaz de sustentar suas posições e construir um veículo respeitado dentro de um dos ambientes mais exigentes do país.
Eu poderia escrever este artigo inteiro apenas sobre o profissional e ainda faltaria espaço, mas esse não seria todo o Márcio que conheci. O Márcio de quem preciso falar é também aquele que conheceu minha mãe, Hilda Ciglioni, respeitou profundamente seu trabalho e construiu com ela uma relação que foi muito além de uma troca profissional. Hilda e Márcio compartilhavam algo que jornalistas reconhecem imediatamente uns nos outros: paixão pelo ofício. Ela sabia identificar uma grande entrevista e ele sabia reconhecer uma boa pauta. Existiam respeito profissional, confiança e amizade.
Meu pai, Waldemar Ciglioni, também manteve uma relação próxima com Márcio. Aos poucos, aquilo que poderia ter permanecido apenas como uma relação entre jornalistas e veículos entrou definitivamente na história da Família Ciglioni. Hoje isso dói de maneira muito particular. Hilda se foi, Waldemar se foi e agora Márcio também partiu. Percebo que, quando perdemos alguém que caminhou conosco durante tantos anos, não perdemos somente uma pessoa; perdemos também uma testemunha da nossa própria história.
Márcio sabia de onde eu vim, conhecia minha mãe e meu pai, conhecia o Questão de Justiça, acompanhou o IASP, as campanhas da OAB, a campanha de Calandra, minhas entrevistas, reportagens e minha transformação profissional. Ele conhecia capítulos da minha vida que agora pertencem apenas à memória.
Existe uma lembrança que resume essa relação melhor do que qualquer título profissional: quando minha filha Beatriz nasceu, Márcio foi o primeiro a dar a notícia. Sempre que penso nisso percebo que, naquele momento, já não existiam apenas dois jornalistas. Não havia OAB, IASP, tribunal, campanha, ConJur ou Questão de Justiça entre nós. Havia um amigo participando de um dos momentos mais importantes da vida de outro amigo. Minha filha acabara de nascer e Márcio estava presente naquela história. Foi ele quem deu a notícia. Como esquecer uma coisa dessas? Como chamar uma relação assim simplesmente de profissional? Não é possível. Isso se chama amizade. E talvez seja por isso que sua partida seja tão difícil de aceitar.
Existem pessoas que, sem percebermos, passam a fazer parte da estrutura de nossa própria história. Acreditamos que estarão sempre ali. Eu mandava um texto e pensava em Márcio, fazia uma reportagem e sabia que poderia conversar com ele, surgia uma pauta jurídica e ele estava naquele universo. Durante décadas foi assim. Agora existe um silêncio onde antes havia um amigo.
Muito será escrito sobre Márcio Chaer, e precisa ser escrito. O fundador do ConJur merece ser estudado, o editor merece ser lembrado e sua contribuição ao jornalismo jurídico brasileiro precisa permanecer registrada. As revistas, os Anuários e o enorme acervo que ajudou a construir fazem parte desse legado. Mas aqueles que tiveram a felicidade de conviver com ele sabem que existia um Márcio que jamais caberá nos arquivos. Era o homem de personalidade forte, às vezes duro, sempre direto, incapaz de viver uma amizade de ocasião e profundamente verdadeiro.
Com Márcio não havia necessidade de construir frases bonitas para agradar. Ele dizia aquilo que pensava. Concordamos muitas vezes e certamente discordamos em outras, mas amizade verdadeira não depende de concordância permanente; depende de confiança. E eu confiava em Márcio. Não quero, por isso, que a maneira inesperada e dolorosa como ele morreu seja maior do que a maneira como viveu.
Os últimos minutos de uma existência jamais podem apagar décadas de trabalho, amizade e construção. Quando pensar em Márcio, quero lembrar dele vivo: das conversas, das publicações, das entrevistas do Questão de Justiça, do IASP, das campanhas da OAB, de Rubens Approbato, Carlos Miguel Aidar, D’Urso, Calandra, Hilda, Waldemar e daquele dia em que minha filha nasceu e Márcio foi o primeiro a transformar minha felicidade em notícia.
Depois de mais de 35 anos de jornalismo, aprendi que nenhuma carreira é construída sozinha. Podemos trabalhar, estudar, insistir e lutar pelo nosso espaço, mas sempre haverá pessoas sem as quais nossa trajetória teria sido diferente. Márcio é uma dessas pessoas na minha vida e faço questão de reconhecer isso publicamente. Se fui o apresentador do Questão de Justiça que fui, Márcio tem parte nisso. Se construí uma história dentro do jornalismo jurídico, Márcio tem parte nisso. Se meu trabalho conseguiu chegar a pessoas importantes do Direito brasileiro, muitas vezes foi porque Márcio abriu as páginas do ConJur para aquilo que eu produzia. Essa é uma dívida que não se paga; agradece-se. Talvez eu devesse ter agradecido ainda mais enquanto ele estava aqui. Por isso escrevo agora não apenas como jornalista, mas como alguém que sente que perdeu um pedaço da própria história.
Obrigado, Márcio, por acreditar em mim quando eu ainda estava construindo meu espaço, pelo Questão de Justiça, por cada entrevista publicada, por cada texto recebido e por cada reportagem repercutida. Obrigado por estar presente no período do IASP, nas campanhas da OAB e na caminhada de Calandra. Obrigado pelo respeito e carinho por Hilda, pela amizade com Waldemar e por ter entrado de maneira tão natural na história da nossa família. Obrigado por ter sido o primeiro a dar a notícia do nascimento de Beatriz. Obrigado pelas conversas, pelas concordâncias e também pelas discordâncias, porque até elas faziam parte da sinceridade da nossa amizade. Obrigado por nunca precisar usar meias palavras comigo, pela confiança, pela lealdade e por ter ajudado aquele apresentador a acreditar que poderia ocupar seu espaço no jornalismo jurídico. E obrigado, principalmente, por algo que vale mais do que qualquer publicação, cargo ou título: obrigado por ter sido meu amigo.
A vida seguirá. O ConJur continuará publicando, haverá novos julgamentos, novas entrevistas, novos advogados, novos ministros, novas decisões e novas histórias. O jornalismo continuará cumprindo sua missão de registrar o presente para que ele não desapareça no futuro. Mas algumas ausências permanecem. Sei que ainda vou encontrar uma pauta e imaginar o que Márcio diria, rever uma entrevista antiga e lembrar de quando ela foi publicada, falar sobre as campanhas da OAB e encontrá-lo novamente na memória. Vou lembrar de minha mãe e de meu pai e, em algum ponto dessas lembranças, Márcio estará lá. Vou olhar para minha filha e recordar que foi ele quem primeiro anunciou sua chegada ao mundo. É assim que os grandes amigos permanecem: não apenas em fotografias, reportagens ou arquivos, mas espalhados pela nossa própria vida.
Por isso não quero dizer adeus a Márcio Chaer. Adeus parece definitivo demais para alguém que continuará presente em tantas partes da minha história. Prefiro dizer obrigado. Obrigado pelo jornalista extraordinário que foi, pelo editor que ajudou a transformar o jornalismo jurídico brasileiro, pelo ConJur, pelas revistas, pelos Anuários e por tudo aquilo que permanecerá como sua obra. Mas, para mim, obrigado principalmente pelo homem que esteve ao meu lado durante tantos anos. Com você vai um pedaço enorme da minha história. E comigo ficará, enquanto eu viver, um pedaço enorme da sua. Descanse em paz, meu amigo. Você vai fazer muita falta.
Walter Ciglioni
Graduado em Jornalismo e Relações Públicas é integrante da OAB-SP nas Comissões de Cidadania e Formação Política, Governança e Integridade e Infraestrutura, Logística e Desenvolvimento Sustentável. Pós-graduando em Gestão Pública pela UniDrummond e, em 2014, candidato a Governador do Estado de São Paulo.
Mas, neste artigo, acima de qualquer cargo, formação ou título: principalmente, amigo de Márcio Chaer.












