Empresas estão tentando resolver um problema estrutural com ferramentas operacionais e isso não está funcionando. Benefícios, metas mais claras e rituais de gestão são importantes, mas não suficientes para endereçar o principal desafio das organizações hoje: o engajamento real das pessoas.
Profissionais não se conectam apenas com o que fazem. Eles se conectam com o que aquilo que os representa em valores e, nas suas preocupações mais amplas. E é justamente nesse ponto que muitas empresas falham ao transformar propósito em discurso, mas não em experiência.
Segundo a Gallup, apenas 23% dos trabalhadores no mundo estão engajados, e no Brasil esse índice historicamente fica abaixo da média global. Ao mesmo tempo, estudos da Deloitte mostram que organizações percebidas como orientadas por propósito apresentam níveis significativamente maiores de retenção e lealdade. Ainda assim, praticamente todas as empresas afirmam ter um propósito claro, o que evidencia uma desconexão persistente entre o que se diz e o que se vive no dia a dia corporativo. Minha experiência tem me mostrado que é crescente uma nova onda de descrédito sobre os propósitos tão cuidadosamente descritos, de algumas organizações.
Essa distância se torna ainda mais crítica quando a empresa ignora os problemas concretos que fazem parte da vida de seus colaboradores. Questões como dificuldade de acesso à educação, más condições da estrutura física das escolas públicas, problemas crônicos de mobilidade urbana, dificuldade de acesso à moradia digna e segurança, apenas para citar alguns, não desaparecem quando o profissional entra no escritório. Ao desconsiderar esse contexto, a organização cria uma cultura artificial, distante da realidade de quem sustenta o negócio.
É nesse cenário que o voluntariado corporativo bem estruturado ganha relevância. De acordo com o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), cerca de 34% dos brasileiros já realizaram algum tipo de atividade voluntária, e o interesse por participação social cresceu nos últimos anos. Ou seja, o desejo de contribuir já existe, o que falta, muitas vezes, é a estrutura para canalizar esse engajamento de forma consistente.
Mas é preciso separar o que gera impacto do que apenas gera visibilidade. Existe uma diferença clara entre voluntariado estratégico e iniciativas pontuais, muitas vezes desconectadas da realidade da empresa. O primeiro se sustenta em continuidade, governança, critérios de impacto e envolvimento real da liderança. O segundo tende a produzir baixo efeito e, em alguns casos, até ceticismo interno, especialmente em um contexto em que colaboradores estão cada vez mais atentos à coerência entre discurso e prática.
Quando bem estruturado, o impacto do voluntariado corporativo vai além da dimensão social. Estudos publicados pela Harvard Business Review mostram que profissionais envolvidos nessas iniciativas desenvolvem competências críticas para o negócio, como liderança, adaptabilidade e capacidade de lidar com problemas complexos. Além disso, há um efeito organizacional relevante: a aproximação entre liderança e equipe. Ao participar ativamente dessas ações, executivos deixam de ser percebidos como desconectados da realidade da base da própria pirâmide econômica da empresa e passam a compartilhar experiências concretas com seus times, fortalecendo a confiança e o senso de pertencimento, mais do que tudo, identidade por compartilhar preocupações e construir soluções.
Para o C-level, a discussão não deveria ser se vale a pena investir nesse tipo de iniciativa, mas como utilizá-la de forma estratégica. Em um ambiente de negócios cada vez mais pressionado por produtividade, inovação e retenção de talentos, a cultura deixou de ser um tema abstrato. Ela impacta diretamente a capacidade de execução das empresas.
Organizações que conseguem construir uma conexão genuína com seus colaboradores, o que passa, necessariamente, por reconhecer o contexto social em que estão inseridos, criam ambientes mais estáveis, engajados e preparados para crescer. As demais seguem tentando resolver um problema estrutural com soluções superficiais.
No fim, voluntariado corporativo não é sobre responsabilidade social no sentido tradicional. É sobre reduzir a distância entre a empresa e a realidade das pessoas que a constroem todos os dias. E, cada vez mais, é essa distância que separa empresas que podem genuinamente contar com o compromisso de seus profissionais para construir o futuro.
*por João Roncati, CEO da People+Strategy – consultoria brasileira reconhecida e respeitada por seu trabalho estratégico com a alta liderança de grandes companhias. Mais informações no site.











