Do alto dos meus 92 anos, já acompanhei e participei de inúmeras eleições no Brasil. Desde que me tornei eleitor, jamais deixei de exercer o meu direito — e também o meu dever — de votar.
Já votei em cédulas impressas, acompanhei campanhas sem horário eleitoral na televisão e participei de eleições realizadas por diferentes sistemas. Ao longo de tantas décadas, votei para praticamente todos os cargos públicos e presenciei muitas transformações na forma de fazer política. Entretanto, o que mais me impressiona é perceber que, na essência, pouca coisa mudou.
As promessas continuam as mesmas. As agressões, também. A hipocrisia permanece uma constante e, no meu entender, os eleitores continuam escolhendo mal os seus representantes. Repetem-se as mentiras, surgem novos “salvadores da Pátria” e multiplicam-se alianças e acordos entre grupos que, até pouco tempo antes, apresentavam-se como adversários irreconciliáveis.
Pouco se discute sobre propostas realmente úteis e concretas para o país. Em vez disso, cargos públicos são negociados como instrumentos de poder e, algumas vezes, tratados como verdadeiras mercadorias. Os interesses pessoais e partidários frequentemente se sobrepõem às necessidades da população.
Para as próximas eleições, infelizmente, o cenário não parece diferente. Pelo contrário: o debate político foi empobrecido e, em muitos momentos, ridicularizado. A apresentação de programas de governo, a discussão séria de ideias e a demonstração da capacidade dos candidatos foram substituídas por frases de efeito, acusações, agressões e espetáculos preparados para as redes sociais.
Grandes pensadores já destacaram a importância das eleições para a democracia. Norberto Bobbio ensinava que a democracia depende de regras claras que permitam aos cidadãos escolher seus representantes e substituí-los pacificamente. Robert Dahl considerava as eleições livres, periódicas e justas uma das condições fundamentais para a existência de um governo democrático.
Alexis de Tocqueville, ao estudar a democracia, ressaltou a importância da participação dos cidadãos na vida pública, pois a liberdade política não se conserva sem envolvimento e responsabilidade. John Stuart Mill também defendia que a participação política educa o cidadão, amplia sua consciência e o torna responsável pelos destinos da sociedade.
Para Joseph Schumpeter, a democracia se concretiza por meio da disputa entre candidatos e grupos políticos pelo voto popular. Já Hannah Arendt valorizava a participação no espaço público como expressão da liberdade e da cidadania.
Esses autores, cada um à sua maneira, demonstram que uma eleição não deve se resumir ao ato de depositar um voto na urna. Ela exige liberdade de escolha, informação, responsabilidade e participação consciente. Sem eleições legítimas, não existe democracia; mas, sem eleitores atentos e preparados, a eleição pode se transformar apenas em um ritual incapaz de produzir as mudanças de que o país necessita.
A política deveria ser o exercício nobre da construção do bem comum. Uma eleição deveria representar o momento em que o cidadão analisa propostas, conhece a trajetória dos candidatos e decide, com consciência, quem está mais preparado para governar e legislar. Contudo, enquanto o eleitor votar movido apenas pela paixão, pela raiva, pelo medo ou por promessas impossíveis, continuaremos repetindo os mesmos erros.
Depois de tantas eleições, chego a uma conclusão simples: o Brasil não mudará apenas com novos candidatos. Mudará quando tivermos eleitores mais atentos, conscientes e exigentes. Afinal, a qualidade dos governantes depende, em grande parte, da responsabilidade daqueles que os escolhem.












