Home / Tecnologia / Gestão pública na era da Inteligência Artificial: valorizar pessoas para transformar o Estado – por Floriano Pesaro

Gestão pública na era da Inteligência Artificial: valorizar pessoas para transformar o Estado – por Floriano Pesaro

Ao longo da minha trajetória no Executivo e no Legislativo, e hoje como diretor de Gestão Corporativa da ApexBrasil, aprendi que a qualidade das políticas públicas depende, em grande medida, da capacidade de gestão das instituições responsáveis por executá-las.

Planos consistentes, boas leis e recursos orçamentários são indispensáveis, mas não produzem resultados sozinhos. Entre uma decisão política e sua entrega à sociedade existe uma engrenagem formada por pessoas, processos, estruturas de governança, tecnologia, orçamento, integridade e capacidade de coordenação.

É nessa engrenagem, muitas vezes invisível para o cidadão, que a gestão pública demonstra sua força ou revela suas fragilidades.

O cidadão não avalia o Estado pela complexidade de seus organogramas ou pela quantidade de normas que produz. Ele o avalia pelo tempo de espera, pela facilidade de acesso aos serviços, pela qualidade do atendimento e pela capacidade de ter seu problema resolvido.

Por isso, o principal desafio das instituições públicas é transformar estruturas internas em valor público efetivamente percebido pela sociedade.

Na Diretoria de Gestão Corporativa da ApexBrasil, coordenamos áreas que incluem gestão de pessoas, tecnologia da informação, orçamento, finanças, contabilidade, infraestrutura, compras, contratos, convênios, integridade e assessoramento jurídico. Essa experiência confirma que nenhuma transformação institucional acontece de maneira isolada. É necessário integrar pessoas, processos e tecnologia em torno de objetivos comuns.

A transformação digital é parte essencial desse esforço, mas precisa ser compreendida corretamente. Modernizar uma instituição não significa apenas adquirir sistemas, digitalizar formulários ou automatizar tarefas. Significa repensar processos, eliminar etapas desnecessárias, integrar informações e oferecer uma experiência melhor para quem utiliza os serviços.

Na ApexBrasil, temos avançado na utilização da inteligência artificial para simplificar rotinas, apoiar análises e reduzir o tempo de execução de processos internos. Atividades que anteriormente consumiam vários dias podem, em determinados casos, ser realizadas em poucos minutos, com ganhos de produtividade, segurança e qualidade.

O resultado mais importante, entretanto, não é apenas a velocidade. É a possibilidade de liberar nossos profissionais de tarefas repetitivas para que possam se dedicar a atividades mais estratégicas: analisar, criar, negociar, decidir e atender melhor às empresas brasileiras.

Essa experiência nos levou a uma convicção que deve orientar a modernização das instituições: a tecnologia deve retirar a burocracia das mãos do servidor para devolver o cidadão ao centro do Estado.

A inteligência artificial não deve substituir a capacidade técnica nem o julgamento humano. Deve ampliá-los. Decisões sensíveis exigem responsabilidade, conhecimento do contexto, supervisão humana e compromisso ético.

Por isso, a transformação digital precisa caminhar ao lado da governança de dados, da segurança da informação, da transparência, da proteção da privacidade e da prevenção de vieses. Um Estado tecnologicamente avançado, mas incapaz de explicar ou supervisionar suas decisões, não será necessariamente um Estado melhor.

Também não haverá transformação sustentável sem investimento nas pessoas. A maior desigualdade institucional dos próximos anos poderá ocorrer entre os profissionais preparados para trabalhar com inteligência artificial e aqueles que permanecerem afastados das novas ferramentas.

Valorizar os profissionais do setor público, portanto, não significa apenas discutir remuneração e estabilidade. Significa oferecer formação contínua, lideranças qualificadas, ambientes saudáveis, oportunidades de desenvolvimento e clareza sobre o propósito de cada atividade.

Significa também reconhecer quem coopera, inova, aperfeiçoa processos e produz resultados. A inovação não nasce somente nos gabinetes ou nas áreas de tecnologia. Muitas vezes, ela surge com quem executa diariamente os processos e conhece obstáculos que não aparecem nos relatórios gerenciais.

Por essa razão, mudanças institucionais precisam ser construídas com diálogo. Ouvir os profissionais desde o diagnóstico aumenta a qualidade das soluções, reduz resistências e fortalece a legitimidade das decisões.

Mas diálogo precisa ter método, frequência e consequência. Ouvir sem responder não é diálogo. É necessário estabelecer canais permanentes, compartilhar informações, apresentar limites e oferecer devolutivas objetivas sobre as propostas recebidas.

Outro aprendizado importante é que compromissos institucionais precisam ser transformados em metas, responsáveis, prazos e mecanismos de acompanhamento. A distância entre a palavra e a entrega é uma das principais causas de perda de confiança nas organizações públicas.

Uma gestão orientada a resultados não deve ignorar a complexidade das políticas públicas nem reduzir tudo a indicadores quantitativos. Deve combinar evidências, avaliação qualitativa e capacidade de aprender com a execução.

O futuro da gestão pública não será definido pela escolha entre um Estado maior ou menor, nem pelo confronto artificial entre valorização profissional e eficiência. Será definido pela capacidade de construir um Estado melhor: mais simples, integrado, transparente, inteligente e humano.

A verdadeira transformação acontece quando tecnologia, governança e pessoas caminham na mesma direção. E será bem-sucedida quando cada mudança realizada dentro das instituições for percebida, do lado de fora, como um serviço melhor, uma oportunidade ampliada e uma vida menos burocrática para o cidadão.

Marcado:

Sign Up For Daily Newsletter

Stay updated with our weekly newsletter. Subscribe now to never miss an update!

[mc4wp_form]

Deixe um Comentário