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Tem gente que aprendeu, muito cedo, a sofrer em silêncio – por Bruna Gayoso

Não porque quisesse. Mas porque em algum momento a dor foi recebida com pressa, com um “isso vai passar” dito de relance, com um assunto trocado no meio da frase. E o corpo aprende rápido: guardar dá menos trabalho do que contar. Só que guardar tem um custo, e esse custo costuma aparecer mais tarde, disfarçado de cansaço, de irritação sem motivo aparente, de uma vontade enorme de sumir por um tempo ou, em alguns casos, de uma vontade que já não é mais de sumir por um tempo.

É sobre isso que o Setembro Amarelo tenta falar. Nem sempre com as palavras certas porque também existe um jeito errado de falar sobre suicídio, cheio de frases de efeito e post bonito, que na verdade afasta quem mais precisava se aproximar. Mas a intenção, quando ela é séria, é essa: abrir uma fresta onde antes só havia parede.

Eu não vou te dizer que a vida é bela. Você já ouviu isso, provavelmente em momentos em que essa frase soou como zombaria. Quando a dor é funda, ouvir que a vida é maravilhosa pode doer quase tanto quanto a própria dor porque parece que a pessoa na sua frente não viu, não entendeu, não esteve ali. E não é sobre convencer ninguém do contrário. É sobre outra coisa.

Existe uma diferença entre não aguentar mais sofrer e não querer mais existir

Elas se confundem quando a dor passa de um certo ponto. Nesse ponto, a mente para de distinguir entre “isso está insuportável agora” e “isso vai ser sempre assim”. A primeira frase descreve um momento. A segunda decreta um destino e é aí que mora a armadilha, porque nenhum de nós tem acesso ao futuro o suficiente para decretar coisa nenhuma sobre ele. Nem para o bem, nem para o mal.

Quem trabalha com escuta clínica sabe: raramente alguém quer, de fato, deixar de existir. O que se quer, quase sempre, é que aquilo pare. A dor específica. Aquela dor. A solidão de um apartamento vazio às três da manhã, a vergonha que não sai do corpo, a conta que não fecha, o diagnóstico que muda tudo, a separação que ninguém viu chegando, o luto que não encontra lugar. Confundir “quero que isso pare” com “quero deixar de existir” é um erro que a dor comete por nós, não uma verdade sobre quem somos.

E se o que se quer interromper é o sofrimento não a vida, então existe outro caminho possível. Mais devagar, sem promessa de solução imediata, mas possível.

Ninguém pede socorro do jeito que os manuais ensinam

Raramente alguém chega dizendo “estou pensando em morrer”. O que aparece, na maioria das vezes, é mais discreto e mais fácil de não ser notado: alguém que some das conversas por um tempo, que começa a distribuir objetos como quem organiza uma despedida, que passa a falar do futuro como quem fala de algo que não te inclui, que diz “seria mais fácil pra todo mundo se eu não estivesse aqui” e espera, sem dizer, que alguém pergunte “como assim?”.

Se você é essa pessoa que ouviu algo parecido de alguém, não precisa saber a frase perfeita para responder. Precisa apenas não deixar o assunto morrer ali. Perguntar de novo. Ficar por perto. Diferente do que muita gente teme, perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não planta a ideia na cabeça de ninguém ela, se está ali, já estava. Perguntar, na maioria das vezes, é a primeira vez que alguém sente que pode dizer em voz alta o que carregava em silêncio.

E se é você quem está carregando isso: contar não é fraqueza. É uma das coisas mais difíceis que um ser humano pode fazer, e talvez seja exatamente por isso que tantos preferem não fazer. Mas há uma diferença entre enfrentar isso sozinho e enfrentar isso acompanhado mesmo que a dor, no fim, continue sendo sua.

A vida inteira não precisa ser resolvida hoje

Isso não é conselho de para-choque de caminhão. É, com frequência, o único tamanho de decisão que uma pessoa em sofrimento profundo consegue tomar: não pensar nos próximos vinte anos, nem nos próximos dois. Pensar em passar por esta noite. Amanhã, se for preciso, passar só pela manhã.

Isso não resolve nada e não tem a pretensão de resolver. Mas cria um intervalo. E é dentro desse intervalo que outras coisas podem acontecer: uma consulta marcada, uma conversa que muda alguma coisa por dentro, um remédio que finalmente começa a funcionar, um vínculo que não parecia possível dias antes. Nenhuma dessas coisas chega instantaneamente. Todas elas exigem que a pessoa ainda esteja ali para recebê-las.

Sobre não romantizar nada disso

Não existe glamour nenhum em sofrer. Não existe profundidade automática em quem pensa em morrer, nem fraqueza automática em quem nunca pensou. E também não existe uma lição de moral esperando no fim de cada dor, um “aprendizado” que justifique o tamanho do que se viveu. Às vezes a dor só dói, sem redenção nenhuma no horizonte, e fingir o contrário é uma forma de trair quem está sofrendo agora.

Vale abrir um parêntese aqui, porque é um equívoco comum: nem toda pessoa com depressão tem pensamentos suicidas, e nem toda pessoa com pensamentos suicidas está deprimida. Às vezes o pensamento suicida aparece ligado a uma crise pontual uma perda, uma humilhação pública, uma notícia que muda tudo de uma hora para outra em alguém que, até ali, nunca tinha convivido com nada parecido com depressão. E o contrário também é verdade: existe muita gente convivendo com depressão há anos, tratando, sustentando a vida como dá, sem nunca ter pensado em morrer. Colocar as duas coisas na mesma caixa faz com que quem sofre de um jeito se sinta obrigado a se explicar, e faz com que quem sofre do outro jeito não seja levado a sério porque “não parece deprimido”. Nenhuma dor precisa de diagnóstico para ser real.

O que existe, isso sim, é a possibilidade não a garantia, a possibilidade de que aquilo que parece definitivo hoje não seja definitivo depois de tratado, falado, cuidado. Uma depressão pode ser tratada. Um luto pode encontrar, com tempo e ajuda, um lugar menos hostil dentro de nós. Uma vergonha que hoje parece do tamanho do mundo pode, com o tempo e com quem sabe escutar sem julgar, ganhar um tamanho mais suportável. Isso não é otimismo barato. É o que a experiência clínica mostra, repetidamente, quando a pessoa consegue permanecer tempo suficiente para descobrir.

Existe algo que vale lembrar nesses momentos: nós não conhecemos o resto da nossa própria história. Conhecemos o que já perdemos. Não conhecemos quem ainda vamos encontrar, o que ainda vamos sentir, quem ainda vamos nos tornar. Decidir que já sabemos como tudo termina é, sempre, uma aposta feita com informação incompleta.

Se você está nesse lugar agora

Não precisa ter a frase certa, nem o momento certo, nem estar “mal o suficiente” para justificar pedir ajuda. Ligue para alguém. Se não tiver para quem ligar, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 e não é preciso estar em crise extrema para ligar; é para isso que existe.

Setembro é o mês em que esse assunto ganha cor e visibilidade. Mas a dor de quem sofre não segue calendário, e por isso essa conversa precisa continuar em outubro, em março, em qualquer dia comum de terça-feira em que alguém, silenciosamente, esteja se perguntando se vale a pena continuar. Vale. Não porque a vida seja fácil. Mas porque o que você ainda não viveu, você ainda não pode saber que não vale.

Ninguém morre de uma vez só. A gente vai deixando de existir aos poucos, em cada dor que não foi dita, em cada pedido de ajuda que não foi feito. Talvez cuidar da vida comece exatamente aí: dizendo o que dói antes que o silêncio decida por nós.

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