Com a facilidade de pesquisa proporcionada pelos sites de busca e, principalmente, com o auxílio da IA, a garotada que já nasce com um chip na cabeça encontra num clique as informações que deseja. Por isso, educadores, pais e profissionais das mais diferentes áreas se veem numa tremenda saia justa quando precisam discutir com essa nova geração. Agora imagine um menino assim numa época em que nem se sonhava com a internet. Foi o caso deste jovenzinho petulante.
Danilo era um menino precoce, cheio de certezas. Aos doze anos, já havia acumulado um punhado bem contado de vitórias dialéticas que o empurravam naturalmente para a soberba.
Era só alguém, fosse de que idade fosse, ousar enfrentá-lo numa discussão que uma de suas sobrancelhas se erguia em espécie de vírgula, demonstrando que estava pronto e feliz pela oportunidade de digladiar.
Dominava todos os assuntos
Moleque esperto, antenado, programado tecnologicamente já de nascença, embora vivesse em uma época em que os computadores ainda não haviam chegado, fazia diariamente um upgrade no cérebro. O cara era imbatível. Os “normais” fugiam dele, como o diabo foge da cruz, para não passarem vergonha. História, geografia, turismo, física quântica, da mais remota antiguidade à mais presente contemporaneidade, só dava ele.
Tio Virgílio ficava na dele. Só observando. Experiente, sabia que o garoto era diferenciado, mas que suas conquistas verbais já estavam subindo à cabeça. Precisava de um corretivo. Urgente. Para o bem dele.
Estratégia matadora
Preparou um esquema. Consultou com paciência a enciclopédia, quando ninguém estava por perto. Estudou meticulosamente um assunto que sempre o fascinara: psicologia. Não havia cursado faculdade nessa área, mas seu interesse pelo tema era tamanho que se tornara quase um especialista. Estava pronto para dar a lição ao sobrinho.
Durante o jantar, como quem não queria nada, começou a levar a conversa para o campo das novas descobertas sobre a mente. Danilo não percebeu a artimanha porque sabia que o tio era ligado no tema. O que Virgílio não sabia era que o sobrinho passara a se interessar por psicologia por sua causa. E sozinho também se aprofundara no assunto.
Deu o bote
Conversa vai, conversa vem, Freud pra cá, Jung pra lá, e pimba. Virgílio assumiu uma posição radical sobre sincronicidade. Era contra. Não concordava com as teorias junguianas. Para ele, era tudo coincidência. Como estava bem embasado, matou a pau. Danilo esperneou, citou todos os defensores da polêmica teoria, mas qual o quê! Virgílio estava soberano. Ganhou.
Pela primeira vez, Danilo sofria uma derrota. Andava cabisbaixo, deprê. Não comia, não dormia direito, não queria mais saber da namorada.
Virgílio ficou preocupado. O remédio fora pior que a doença. Precisava remediar. Como? O moleque era esperto, desconfiaria de um plano alternativo.
Clima pesado no jantar
Num novo jantar, o assunto voltou à tona. Danilo encolhido, na dele. Não estava para prosa. Virgílio insistia. Nada. Todo mundo se olhava de rabo de olho. Nunca haviam jantado num ambiente tão carregado. Faltava a alegria prepotente de Danilo. Ele dava vida àquelas conversas.
Virgílio não resistiu: “Danilo, pesquisei melhor sobre a sincronicidade. Preciso confessar: você tinha razão, a teoria tem respaldo. Eu estava errado, me enganei. Desculpe.” Disse essas palavras e olhou um tempão para o próprio prato. Era duro admitir a derrota sem ter sido derrotado.
Tinha levado uma volta
Ao levantar a cabeça, gelou. A vírgula na sobrancelha de Danilo estava de volta. O tio era tarimbado demais e percebeu tudo na hora. Só para vencer aquela batalha, Danilo havia fingido estar triste. Mais uma vez, o pentelho do moleque saíra vencedor. Planejara todo aquele teatro para ouvir, na frente da família, que tinha razão.
Por baixo da mesa, Virgílio apertou o próprio joelho para disfarçar a raiva e prometeu a si mesmo que um dia encontraria uma forma de dar o troco naquele fedelho. Agora era questão de honra.
Danilo sorria, feliz. Sabia que o tio voltaria à carga, mas estava convicto de que o final seria sempre o mesmo. Se vencesse, tudo seria como a vida havia planejado. Se perdesse, tudo seria como ele iria planejar, para jamais conhecer a derrota.












