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O que o intestino tem a ver com a saúde das mamas? – por Cristiane Sanchez

Por que alguém que estuda o câncer de mama iria procurar respostas no intestino? Os habitantes da nossa barriga participam de tarefas que vão além da digestão. Uma delas envolve o reaproveitamento de certos hormônios pelo corpo, e é isso que vem chamando a atenção dos pesquisadores.

Estamos acostumados a lembrar do intestino quando sentimos desconforto, a digestão fica difícil ou ele fica preso. Mas, mesmo quando tudo parece tranquilo, há muita coisa acontecendo ali. Bilhões de bactérias convivem nesse espaço e realizam tarefas importantes. Algumas ajudam a aproveitar componentes dos alimentos, como as fibras. Outras participam da regulação das nossas defesas. Esse trabalho continua todos os dias, sem que a gente perceba, e seus efeitos podem alcançar outras partes do organismo.

É aí que a distância entre o intestino e as mamas começa a diminuir. Uma das ligações passa pelos estrogênios, hormônios que participam do desenvolvimento das mamas e de outras funções do corpo.

Ao longo da vida, a quantidade desses hormônios varia, como acontece durante o ciclo menstrual e na menopausa. O organismo também precisa processar e eliminar parte deles, tarefa que envolve o fígado e o intestino. Nesse percurso, algumas bactérias entram em cena: elas conseguem fazer com que uma parcela dos hormônios que seriam eliminados seja novamente aproveitada e volte ao sangue. Esse reaproveitamento é natural, mas desperta uma dúvida: será que diferenças entre os habitantes do intestino podem alterar a quantidade de hormônios que volta a circular?

A resposta interessa aos pesquisadores porque alguns tipos de câncer de mama são estimulados pelos estrogênios. Compreender o que interfere na circulação desses hormônios pode acrescentar informações ao que já sabemos sobre a doença.

Os hormônios, porém, são apenas uma parte dessa história. As bactérias intestinais também ajudam a regular as defesas do corpo. Os cientistas querem descobrir como essa relação pode influenciar a maneira pela qual o organismo reconhece e enfrenta células que estão se comportando de forma anormal. A investigação se estende aos tratamentos: certas bactérias poderiam influenciar a resposta aos medicamentos e alguns de seus efeitos indesejados.

Além de aproveitar o que comemos, esses pequenos habitantes produzem substâncias. Algumas surgem quando eles utilizam as fibras dos alimentos. O feijão, a aveia, as frutas e as verduras oferecem ingredientes para esse trabalho.

A partir dessas fibras, certas bactérias produzem substâncias que ajudam a nutrir as células intestinais. Parte do que elas produzem pode chegar ao sangue e ter efeitos em outros órgãos. Por isso, os pesquisadores observam tanto quais bactérias vivem no intestino quanto o que elas fazem. Conhecer suas atividades pode ser tão importante quanto identificar sua presença.

Alguns estudos encontraram diferenças entre as bactérias intestinais de mulheres com câncer de mama e de mulheres sem a doença. Ainda é preciso entender se essas diferenças já existiam antes ou apareceram com o adoecimento. Alimentação, medicamentos, idade e outras condições de saúde também podem mudar essa comunidade, o que torna a investigação mais complexa. Acompanhar grupos maiores de mulheres ao longo dos anos ajudará a esclarecer essa relação.

A alimentação faz parte dessa conversa. Se as bactérias aproveitam as fibras que comemos, variar os alimentos oferece diferentes tipos de fibras para suas atividades. Arroz com feijão, legumes e uma fruta de sobremesa são exemplos próximos da nossa rotina. Cuidar da alimentação pode começar pelo que é acessível e possível manter.

Isso quer dizer que escolher melhor os alimentos evita o câncer de mama? Ainda falta demonstrar se mudanças nas bactérias intestinais, provocadas pela alimentação ou por suplementos, conseguem prevenir a doença. Uma alimentação saudável tem benefícios conhecidos, mas atribuir a ela uma proteção específica por esse caminho exige confirmação.

O mesmo cuidado vale para os probióticos, produtos que contêm microrganismos vivos: seu uso para prevenir ou tratar o câncer de mama ainda está em investigação.

O intestino tem relação com a saúde das mamas porque suas bactérias participam do reaproveitamento de certos hormônios e ajudam a regular as defesas do corpo. Os pesquisadores ainda investigam quanto isso interfere no risco de câncer e na resposta aos tratamentos.

Neste Outubro Rosa, conhecer essa relação amplia nossa compreensão da saúde das mamas: parte das respostas sobre elas pode estar no que acontece em outras regiões do corpo.


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