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Saúde mental não pode virar espetáculo: onde termina a conscientização e começa o sensacionalismo? – por Bruna Gayoso

Falar de saúde mental nas redes sociais nunca foi tão comum. Isso é uma conquista: temas que antes ficavam escondidos hoje chegam a milhões de pessoas. Mas essa visibilidade traz uma pergunta que, como psicanalista, não consigo deixar de fazer. O que acontece com o sofrimento humano quando ele passa a ser tratado como evento?

Um caso que ilustra bem essa questão é o do influenciador Felca. Em um vídeo, ele falou abertamente sobre o bullying que sofreu na escola, quando era mais jovem, e sobre fobia social, alcoolismo e dificuldades emocionais. São temas sérios, que fazem parte da vida de milhares de pessoas que sofrem, muitas vezes, em silêncio.

Acho fundamental que esses assuntos sejam discutidos em público. Só que o conteúdo não é a única coisa que comunica. A forma também comunica. E é sobre ela que quero falar.

Quando a dor vira contagem regressiva

Felca já tinha ganhado enorme repercussão nacional com um vídeo sobre a adultização infantil, que levantou um debate importante e necessário. Quando decidiu falar das próprias dificuldades emocionais, a divulgação teve um detalhe que merece reflexão: o anúncio antecipado de que o vídeo sairia à meia-noite.

Por que um conteúdo sobre sofrimento emocional precisa de contagem regressiva?

Marcar horário, criar expectativa e manter milhares de seguidores acordados à espera de uma publicação é uma estratégia conhecida. Funciona para concentrar audiência, comentários e engajamento. Divulgar um lançamento é legítimo, claro. Mas, quando o assunto é transtorno mental, essa escolha merece ser questionada.

Precisamos mesmo de suspense em torno da dor humana?

Não tenho como saber a intenção do Felca, e não vou fingir que sei. O que dá para dizer é que o formato favorece a expectativa e a repercussão, exatamente como fazem as estratégias de engajamento digital. E esse modelo não é exclusivo de um influenciador. Ele se repete toda vez que alguém de grande alcance transforma a revelação de uma dor em um acontecimento a ser aguardado. É isso que me preocupa.

A saúde mental precisa de visibilidade, sem dúvida. Mas visibilidade e conscientização não são sinônimos.

Essas dores não são entretenimento

O bullying na escola raramente fica na escola. Muitos adultos que atendo ainda carregam os apelidos, as humilhações e a sensação de não pertencer que viveram na infância ou na adolescência. Essas marcas aparecem anos depois, na autoestima, nos relacionamentos, no medo de ser julgado e, não por acaso, em quadros como a fobia social.

Na publicação do vídeo, muita gente associou a data ao 20 de outubro, divulgado nas redes como Dia Mundial de Combate ao Bullying. A informação não é oficial. No Brasil, a data instituída por lei é 7 de abril, o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola (Lei nº 13.277/2016). Internacionalmente, a UNESCO reconhece a primeira quinta-feira de novembro como o Dia Internacional contra a Violência e o Bullying na Escola, incluindo o cyberbullying. Pode parecer detalhe, mas não é: quando o assunto é sofrimento, informação correta também é uma forma de cuidado.

Para quem tem fobia social, situações que parecem simples, como pedir algo num balcão ou atender um telefonema, podem provocar medo intenso e limitar a vida de forma real.

Os problemas com álcool costumam vir junto de uma história pesada: dependência, conflitos em casa, culpa e uma enorme dificuldade de pedir ajuda.

A depressão, por sua vez, pode transformar o simples ato de levantar da cama numa batalha que ninguém vê. E a ansiedade intensa não obedece à força de vontade.

Nada disso é enredo. São vidas reais, que pedem escuta, acompanhamento adequado e respeito.

Compartilhar uma experiência pessoal para ajudar outras pessoas é uma coisa. Divulgá-la num formato que aproxima o sofrimento de um espetáculo é outra. Ninguém precisa adivinhar intenções para perceber isso. Basta olhar os efeitos dessa comunicação e lembrar da responsabilidade de quem fala para milhões.

O sofrimento humano merece mais do que curtidas

No consultório, escuto todos os dias histórias de dores profundas, muitas delas desconhecidas até pela própria família. Gente que tem vergonha de procurar um psiquiatra, que esconde o remédio na gaveta, que faz terapia escondido e inventa desculpas para justificar o horário da sessão. Há quem passe anos em tratamento sem que ninguém em casa saiba. Entre os homens, isso é ainda mais comum. Muitos cresceram ouvindo que precisam dar conta de tudo sozinhos, que chorar é fraqueza e que pedir ajuda é coisa de quem não aguenta. Então sofrem calados, porque temem o julgamento dos outros e, muitas vezes, o próprio.

Por isso, quando vejo temas assim embalados em suspense, me pergunto: estamos ajudando a diminuir o preconceito ou transformando a dor em mais um produto de consumo?

Minha resposta é clara: esse formato não ajuda quem sofre. Quem está do outro lado da tela, lidando com a própria dor, não precisa de contagem regressiva nem de mistério. Precisa de um relato que acolha, que informe e que aponte caminhos. Quando a dor vira espetáculo, quem ganha é o engajamento, não as pessoas.

Não se trata de silenciar quem sofre. Pelo contrário. Precisamos de relatos responsáveis, de informação acessível, de mostrar que tratamento funciona e de acolher quem está passando por dificuldades. O que não dá é medir conscientização pelo número de visualizações.

Falar mais, e com mais cuidado

Um relato sincero pode fazer alguém perceber que precisa de ajuda, começar um tratamento ou simplesmente entender que não está sozinho. Esse é o lado bonito da exposição.

Só que alcance e responsabilidade andam juntos. Quanto mais gente escuta, mais cuidado se exige de quem fala. Influenciadores podem e devem falar das suas dores. A questão é como essas histórias chegam ao público, e se chegam de um jeito que banaliza aquilo que deveria ser levado a sério.

Ainda vivemos numa sociedade que olha torto para quem faz tratamento psiquiátrico ou psicológico e, ao mesmo tempo, normaliza comportamentos que adoecem. Isso precisa mudar. E começa quando os transtornos mentais deixam de ser tratados como curiosidade e passam a ser vistos como o que são: questões de saúde.

Saúde mental não é disputa por atenção, curtida ou fama.

Falar das próprias dores é um direito, e admitir fragilidade exige coragem. Pedir ajuda é uma forma de cuidar de si. Nada disso, porém, justifica perder a sensibilidade diante do sofrimento alheio. Por trás de cada diagnóstico há uma pessoa, e por trás de cada dificuldade emocional há uma história que merece respeito.

Que a gente fale cada vez mais sobre saúde mental. E que nunca esqueça que conscientizar importa muito mais do que impressionar.

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