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Bruxismo e a era digital – por Dra. Fábia Souza

Nunca estivemos tão conectados — e, paradoxalmente, nunca foi tão comum estarmos cansados, ansiosos e dormindo mal. Celulares, computadores, redes sociais, mensagens, vídeos e estímulos constantes passaram a ocupar praticamente todos os momentos do dia. Muitas pessoas trabalham diante de uma tela, descansam diante de outra e terminam o dia levando o celular para a cama. O resultado é um estilo de vida marcado por hiperestimulação, redução do tempo de sono, pior qualidade do descanso, aumento do estresse e maior vulnerabilidade emocional. E esse cenário também pode repercutir na saúde bucal.

O bruxismo, hoje, não deve ser compreendido apenas como o hábito de “ranger os dentes”.

Trata-se de uma atividade dos músculos mastigatórios que pode ocorrer durante o sono ou enquanto estamos acordados e que envolve uma interação complexa entre sono, sistema nervoso, comportamento, emoções, músculos e estilo de vida (Lobbezoo et al., 2013; Lobbezoo et al., 2018).

Na era digital, entender essa relação tornou-se cada vez mais importante.

Dormimos menos e pior

O sono é um dos pilares fundamentais da saúde. Entretanto, o uso crescente de smartphones e outros dispositivos vem modificando profundamente nossos hábitos noturnos. Muitas pessoas permanecem conectadas até poucos minutos antes de dormir, respondendo mensagens, assistindo a vídeos, lendo notícias ou navegando pelas redes sociais.

O corpo está na cama, mas o cérebro continua em atividade.

Uma metanálise envolvendo mais de 36 mil participantes encontrou associação entre maior utilização de smartphones e pior qualidade subjetiva do sono, maior privação de sono e maior dificuldade para adormecer (Chu et al., 2023).

Outros estudos também demonstram associação entre maior tempo de exposição a telas e menor duração do sono.

Esse sono insuficiente ou fragmentado pode comprometer humor, capacidade de concentração, regulação emocional, percepção da dor e qualidade de vida.

Por isso, o sono precisa ser considerado quando avaliamos pacientes com bruxismo.

O celular não “causa” bruxismo — mas pode fazer parte do problema

É importante não simplificar a ciência. Não podemos afirmar que utilizar celular diretamente causa bruxismo.

Entretanto, sabemos que o uso excessivo de telas pode contribuir para fatores frequentemente associados ao problema: menos sono, pior qualidade de sono, maior estresse, hiperestimulação e ansiedade. Em adultos jovens, despertares noturnos provocados pelo smartphone, estresse relacionado às informações recebidas e uso excessivo do aparelho já foram associados a maior ocorrência de sonolência diurna, DTM e bruxismo (Minghelli et al., 2021).

Assim, a relação provavelmente acontece por vários caminhos simultaneamente.

O excesso de estímulos mantém o indivíduo em estado de alerta, dificulta o relaxamento e pode aumentar a tensão muscular e a percepção de estresse.

Na prática clínica, isso significa que perguntar sobre uso de telas, horário de dormir e qualidade do sono tornou-se tão importante quanto observar dentes e músculos.

Bruxismo não acontece apenas durante o sono

Existem duas manifestações principais. O bruxismo do sono ocorre enquanto a pessoa dorme e envolve atividade rítmica ou não rítmica dos músculos mastigatórios.

Já o bruxismo em vigília ocorre enquanto a pessoa está acordada e pode se manifestar como contato dentário repetitivo ou sustentado, apertamento ou tensão constante da mandíbula (Lobbezoo et al., 2018).

Na vida moderna, o bruxismo em vigília ganhou especial importância.

É comum encontrar pacientes que permanecem horas diante do computador, concentrados, preocupados ou sob pressão profissional e que mantêm os dentes encostados ou apertados sem perceber.

Uma metanálise recente encontrou prevalência aproximada de 25,9% de possível bruxismo em vigília na população geral, demonstrando a magnitude do problema (Al-Khotani et al., 2025).

A pandemia deixou esse fenômeno ainda mais evidente

A pandemia de COVID-19 intensificou inúmeros fatores já presentes na sociedade contemporânea.

Houve aumento de isolamento, medo, insegurança, mudanças profissionais, perda de rotina, sedentarismo e alterações de sono. Ao mesmo tempo, estudos observaram piora de sintomas de DTM e aumento de comportamentos relacionados ao bruxismo durante esse período (Emodi-Perlman et al., 2020; Colonna et al., 2021).

Em uma investigação, quase metade dos participantes relatou intensificação de comportamentos relacionados ao bruxismo, acompanhada de maior ocorrência de dor facial, cefaleia e sintomas temporomandibulares (Colonna et al., 2021).

A pandemia provavelmente não “criou” o bruxismo.

Mas revelou de maneira muito clara como estresse, ansiedade, emoções, sono e comportamento estão conectados ao sistema mastigatório.

Ansiedade e depressão: uma associação que não pode ser ignorada

A era digital também trouxe outro paradoxo.

Estamos cada vez mais conectados virtualmente, mas nem sempre mais tranquilos emocionalmente.

Estudos demonstram associação entre bruxismo e sintomas de ansiedade, estresse e depressão (Polmann et al., 2019; Polmann et al., 2021; Roithmann et al., 2026).

Uma revisão sistemática e metanálise recente encontrou que indivíduos com bruxismo apresentavam aproximadamente 2,84 vezes mais chances de apresentar depressão quando comparados a indivíduos sem bruxismo (Roithmann et al., 2026).

Esse dado precisa ser interpretado corretamente.

Não significa que o bruxismo cause depressão, nem que toda pessoa deprimida apresente bruxismo.

Significa que existe uma associação relevante entre essas condições e que, em determinados pacientes, tratar apenas os dentes seria uma abordagem incompleta.

Quando existem sofrimento emocional, ansiedade significativa, sintomas depressivos ou transtornos do sono, a odontologia deve trabalhar de maneira integrada com outras áreas.

Psicologia e psiquiatria podem fazer parte do tratamento

Em muitos pacientes, a abordagem do bruxismo precisa ser multidisciplinar.

O psicólogo pode auxiliar na identificação de gatilhos, reconhecimento do apertamento durante o dia, estratégias de enfrentamento do estresse e terapias comportamentais. Em situações de depressão, ansiedade importante ou outros transtornos psiquiátricos, pode ser necessária avaliação médica especializada.

Em alguns pacientes, medicamentos antidepressivos ou ansiolíticos poderão fazer parte do tratamento da condição psiquiátrica de base.

Entretanto, essa decisão é exclusivamente médica e precisa ser individualizada. Também é importante lembrar que determinados psicofármacos podem, em alguns indivíduos, alterar atividades motoras orofaciais ou influenciar o bruxismo. Por isso, medicamentos nunca devem ser iniciados, suspensos ou modificados sem orientação do psiquiatra ou médico responsável.

O objetivo da abordagem multidisciplinar não é simplesmente “medicar o bruxismo”. É tratar o paciente como um todo.

Atividade física: uma das grandes aliadas da saúde mental e do sono

Em meio à hiperconectividade, o movimento físico ganhou ainda mais importância. A atividade física regular pode contribuir para redução de sintomas de ansiedade e depressão e melhorar aspectos relacionados ao sono e à qualidade de vida.

Uma grande revisão guarda-chuva com metanálise de metanálises envolvendo mais de 79 mil participantes mostrou redução significativa de sintomas de depressão e ansiedade com exercício físico regular (Munro et al., 2026).

Os mecanismos envolvidos são complexos e incluem modulação de sistemas relacionados à serotonina, dopamina, noradrenalina, BDNF, neuroplasticidade e resposta ao estresse. Caminhar, correr, pedalar, nadar, praticar musculação ou outra atividade compatível com a condição clínica do paciente pode ser extremamente benéfico.

Isso não significa que atividade física “cure” o bruxismo.

Significa que ela atua sobre vários fatores que frequentemente estão associados ao problema: estresse, ansiedade, depressão, sedentarismo e sono inadequado.

Por isso, atividade física pode ser considerada uma importante ferramenta dentro de uma estratégia de melhora global da saúde.

O que acontece quando a sobrecarga se torna excessiva

Nem todo bruxismo produz dano. O problema aparece quando intensidade, frequência e duração das forças ultrapassam a capacidade de adaptação individual.

Nesses casos, podem surgir: desgaste dentário, microtrincas, fraturas de restaurações, sobrecarga protética, desconforto muscular, cansaço na mandíbula, hipersensibilidade e, em situações mais avançadas, fraturas dentárias importantes (Melo et al., 2019).

Dentes são extremamente resistentes. Mas forças repetitivas, aplicadas milhares de vezes ao longo do tempo, podem favorecer fenômenos de fadiga principalmente em estruturas já fragilizadas.

Dentes com grandes restaurações, perda de estrutura, erosão, tratamentos endodônticos ou trincas prévias podem apresentar maior vulnerabilidade.

Por isso, o melhor momento para tratar sobrecarga não é depois que o dente quebra. É antes.

Microtrincas, fraturas e perda dentária Pequenas trincas podem permanecer estáveis por muito tempo.

Mas, em determinadas condições, forças repetitivas podem favorecer sua progressão. Quando a fratura se estende profundamente, o dente pode se tornar impossível de restaurar. Em casos extremos, isso pode resultar em perda dentária.

Por esse motivo, o bruxismo deve ser compreendido também como um fator de risco mecânico em determinados pacientes. A função preventiva da odontologia é justamente reconhecer sinais iniciais de sobrecarga antes que o dano se torne irreversível.

Lesões próximas à gengiva e sensibilidade

Outra alteração frequentemente observada são as chamadas lesões cervicais não cariosas.

Durante muitos anos, essas lesões foram atribuídas quase exclusivamente às forças de mordida e chamadas genericamente de “abfrações”.

Hoje sabemos que sua origem é multifatorial. Podem participar abrasão, erosão química, características individuais dos dentes e, possivelmente em determinados pacientes, tensões decorrentes das forças oclusais (Senna et al., 2012; Duangthip et al., 2017).

Quando há exposição de dentina, pode surgir hipersensibilidade.

A dentina apresenta túbulos microscópicos capazes de transmitir estímulos.

Por isso, frio, calor, doces, ácidos ou até mesmo a escovação podem provocar aquela dor aguda e rápida característica da sensibilidade dentinária.

O tratamento precisa investigar todos os fatores envolvidos.

Desgaste dentário e dimensão vertical

Com o passar dos anos, algum grau de desgaste dentário pode ocorrer fisiologicamente. Entretanto, quando existe associação com bruxismo, erosão química e outros fatores, a perda estrutural pode se tornar muito mais importante.

Em casos avançados, os dentes podem perder altura, anatomia e eficiência funcional. Quando a perda é extensa, pode haver necessidade de reabilitação para reconstrução da anatomia e restabelecimento funcional da dimensão vertical.

É importante ressaltar que nem todo indivíduo com bruxismo apresenta perda de dimensão vertical, e nem todo desgaste exige aumento dessa dimensão.

A indicação deve ser cuidadosamente planejada.

O impacto também pode aparecer no terço inferior da face

A dentição participa da estrutura funcional do terço inferior da face.

Quando existe perda dentária significativa ou desgaste severo, pode haver alteração de proporções, suporte e estética.

A reabilitação corretamente indicada pode recuperar função mastigatória, estrutura dentária e harmonia facial.

Mas o envelhecimento facial é multifatorial e envolve pele, músculos, tecido adiposo e estrutura óssea.

Por isso, reconstruir a dimensão vertical deve ter como principal objetivo recuperar função, conforto e saúde, com benefícios estéticos adicionais quando presentes.

A placa de bruxismo é um protetor — não uma cura

Esse é um dos conceitos mais importantes para o paciente compreender.

A placa oclusal pode ser extremamente útil em casos selecionados.

Ela cria uma interface entre as arcadas e pode proteger dentes, restaurações e próteses contra determinadas consequências mecânicas da atividade parafuncional.

Mas ela não necessariamente elimina o mecanismo que produz o bruxismo.

Uma revisão sistemática mostrou que as placas não devem ser interpretadas como uma solução universal para reduzir ou eliminar a atividade de bruxismo (Hardy & Bonsor, 2021). Por isso, a mensagem deve ser clara:

A placa protege os dentes. O tratamento investiga os fatores que alimentam a sobrecarga.

Na era digital, esses fatores podem incluir: sono inadequado, excesso de telas, estresse, ansiedade, depressão, hábitos de apertamento, sedentarismo e outras condições clínicas.

Tratamento moderno significa tratar o paciente inteiro

O tratamento pode incluir, dependendo de cada caso: higiene do sono, redução do uso de telas no período noturno, atividade física,

conscientização do apertamento, fisioterapia, psicoterapia, avaliação psiquiátrica, investigação de distúrbios do sono, placas estabilizadoras, tratamento da DTM e recuperação de dentes desgastados ou fraturados.

Não existe um tratamento único para todos. A combinação terapêutica deve ser individualizada.

Por isso, profissionais especializados em DTM e dor orofacial desempenham papel importante na avaliação do problema e na coordenação do cuidado com outras áreas.

Bruxismo: um problema cada vez mais relevante na odontologia contemporânea

Durante décadas, a prevenção odontológica concentrou grande atenção em cárie e doenças gengivais — e corretamente continua fazendo isso.

Mas a odontologia moderna também precisa olhar para os danos relacionados às sobrecargas.

O bruxismo em vigília pode atingir aproximadamente um quarto da população geral (Al-Khotani et al., 2025).

Não é correto afirmar que o bruxismo já provoca exatamente a mesma quantidade de danos que a cárie ou a doença periodontal.

Mas sua elevada prevalência demonstra que ele se tornou um problema de saúde bucal de grande relevância.

E a sociedade digital pode estar criando um ambiente particularmente favorável para sua manifestação: menos sono, mais estímulo, maior ansiedade, mais tensão e menos tempo de recuperação.

Conclusão

A era digital trouxe inúmeros benefícios.

Mas também modificou profundamente nosso sono, comportamento, níveis de estresse e qualidade de vida.

Dormimos menos.

Ficamos mais tempo diante de telas. Levamos o trabalho e as redes sociais para dentro do quarto.

Permanecemos constantemente disponíveis, estimulados e mentalmente ativos.

E nosso corpo sente isso.

Em muitos pacientes, a mandíbula também sente.

O bruxismo deve ser encarado como um fenômeno multifatorial que pode envolver sono, emoções, comportamento, saúde mental e hábitos cotidianos.

Por isso, o tratamento moderno vai muito além de confeccionar uma placa.

Pode envolver mudança de hábitos digitais, melhora da higiene do sono, atividade física, psicoterapia, avaliação psiquiátrica quando indicada, fisioterapia, acompanhamento especializado em DTM e proteção mecânica dos dentes.

Nosso objetivo final é preservar muito mais do que dentes.

É preservar mastigação, conforto, estrutura dentária, dimensão vertical, qualidade do sono e qualidade de vida.

Na Clínica Saúde e Sorriso, acreditamos em uma odontologia que acompanha não apenas os avanços tecnológicos, mas também as mudanças do comportamento humano.

Porque, na era digital, proteger o sorriso também significa aprender a cuidar do sono, do corpo e da mente.


Dra. Fábia Souza
Cirurgiã-dentista formada pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (USP), Dra. Fábia Maria de Souza tem mais de 30 anos de atuação na odontologia. É mestre em Radiologia Odontológica e fundadora da Clínica Saúde e Sorriso, em São Paulo. Sua formação inclui especializações e aperfeiçoamentos em ortodontia, lentes de porcelana, implantodontia, disfunção temporomandibular e bruxismo, reabilitação oral e odontologia digital.


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