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“A escolha entre duas mediocridades” – por Almir Pazzianotto

O título foi retirado (sem consulta ao autor) do artigo de Willian Waack, publicado no Estadão, ed. de 27/10, pág. A17. Ignorou, contudo, o articulista que a escolha se deu entre a mediocridade esperta e calejada e a mediocridade ingênua e desavisada, adjetivos que distinguem o presidente eleito e o candidato derrotado. 

Com efeito, o que assistimos foi a vitória da esperteza e da velha malandragem, do político formado na escola sindical, sobre candidato que acreditou, até o último momento, na força do bolsonarismo, movimento cujo líder cumpre pena de prisão decretada pelo ministro Alexandre de Morares, com manifesta violação de normas processuais de caráter constitucional, 

O presidente Lula, a quem conheci na década de 1970, antes de ser eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo no distante ano de 1975, é uma espécie de alquimista. Após ser destituído da direção da entidade pelo Ministro do Trabalho, Murilo Macedo, em abril de 1980, depois de se recusar a encerrar greve, obedecendo determinação do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, não voltou ao emprego no qual gozava de estabilidade, decidido a empreender carreira política. 

Não há espaço para relatar quantas foram as derrotas, até se eleger presidente da República em 27 de outubro de 2002, como sucessor de Fernando Henrique Cardoso. Desde então acumulou três mandatos e elegeu, em 2010, a ex-ministra de Minas e Energias e da Casa Civil, Dilma Roussef, reeleita em 2014.

Com tal bagagem eleitoral a candidatura de Lula não poderia ser subestimada. Milagres, porém, acontecem. O declínio do envelhecido metalúrgico o levou à derrota no primeiro turno, embora por pequena margem de votos. Em minha avaliação, talvez equivocada, Flávio Bolsonaro superestimou as suas forças, o que lhe valeu a derrota, por larga diferença de votos, no segundo.

Na disputa entre duas mediocridades, como escreveu William Waack, prevaleceu a esperteza de quem soube se assessorar e se vender melhor, sobretudo ao eleitorado jovem. Vencer nas urnas não é, todavia, garantia de bom governo, nos ensina a história. Lula candidato gerou desafios e despesas para o exercício do mandato. A vitória ainda estava sendo comemorada quando os jornais registravam que “Bolsa derrete quase 14% e dólar tem maior alta desde janeiro de 1999” (Estadão, 27/10, B1). É a resposta do mercado às bravatas de Lula ao longo da campanha e no discurso da vitória. Quem prestou a atenção na disparatada fala de vitorioso, aplaudida pelo círculo de bajuladores que o rodeavam, não se surpreendeu com a pronta advertência de dois dos principais termômetros da economia. Surpresa causou o comportamento do outrora conservador vice-presidente Geraldo Alckmin, cotado para resolver problemas e pagar dívidas do Ministério da Fazenda.

Uma coisa é a campanha; outra a realidade que aguarda o vencedor ao longo do mandato. No discurso da vitória Lula não deixou de se lembrar da idade. Completou 81 anos no dia 27. O tempo caminha irremediavelmente para a frente. Apesar de forte e com boa saúde, o envelhecimento é algo evidente e inevitável. Por outro lado, se em governos anteriores a economia brasileira se encontrava em fase de crescimento, hoje a situação é radicalmente diferente. Temos nada menos do que 55 milhões de endividados e insolventes. A Bolsa Família, apressadamente reajustada, estimula a vadiagem e de positivo quase nada representa. A elevada taxa de juros é o remédio conhecido e eficaz para o controle da inflação. O desemprego a pior das ameaças aos trabalhadores, preocupados com a invasão de produtos chineses e o acelerado processo de desindustrialização.

Lula conseguirá converter o pessimismo, que deu forte contribuição para a vitória no segundo turno, no otimismo indispensável ao funcionamento do ministério e no indispensável aliado para governar?

É cedo para se saber. De toda forma, no dia 1º de janeiro de 2027, como sucessor de si mesmo, dará o pontapé inicial ao quarto mandato. Está ciente do que o espera, ou acredita na força mágica da popularidade em um país dividido onde, ainda que derrotado, o bolsonarismo não está morto e pode a qualquer momento se recuperar?

O adversário de Lula, nos próximos quatro anos, será a economia, simbolizada pela Av. Faria Lima, cujo crescimento não se consegue com discursos demagógicos na Av. Paulista, dirigido a adolescentes desocupados, vestidos de vermelho, carregando bandeiras do PT ou do PCB.


Advogado. Foi Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho. Este artigo já se encontrava escrito, quando se soube do pedido de asilo político de Flávio Bolsonaro, ao governo norte-americano.

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