Home / Política / Expectativas e perspectivas – por Marcel Solimeo

Expectativas e perspectivas – por Marcel Solimeo

Escrevi, após o primeiro turno das eleições, um artigo destacando a importância das expectativas na economia e os aspectos positivos da vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, cujos principais indicadores se comportaram de forma positiva: Bolsa, juros, câmbio, investimentos e outros. As expectativas, que podem ser otimistas ou pessimistas, influenciam as decisões presentes dos agentes econômicos, isto é, antecipam o resultado esperado para o futuro.

Embora o resultado ainda não fosse definitivo, a expectativa da mudança da política econômica provocou um clima positivo que se refletiu nos principais indicadores do mercado. Alertava, no entanto, que, como aquele resultado não era definitivo, se houvesse uma reviravolta e o atual governante passasse à frente, os efeitos das expectativas seriam inversamente mais que proporcionalmente negativos, podendo, inclusive, dificultar qualquer tentativa de ajuste fiscal. Isto porque os agentes econômicos procurarão se proteger, adotando medidas que poderão aumentar a inflação, tornar mais difícil a colocação de papéis pelo Tesouro, gerar fuga de capitais e busca por aplicações indexadas.

Mesmo que o governo garanta que irá mudar suas políticas e se comprometer com o ajuste fiscal, sua promessa não terá credibilidade por causa de suas posições tradicionais em matéria fiscal. As expectativas de continuidade da política atual, de aumento de gastos, elevação da carga tributária e crescimento da dívida pública, poderão levar a uma recessão com mais inflação, redução de investimentos, mais insegurança jurídica e incerteza econômica.

Esses temores se confirmaram após a inesperada virada dos resultados da eleição, e a reação dos mercados no primeiro dia foi altamente negativa, com a Bolsa caindo mais de 10%, com o acionamento duas vezes do circuit breaker, o que só se verifica em períodos de grande instabilidade. O dólar subiu, atingindo R$ 5,60; o Tesouro cancelou o leilão de títulos públicos e fez a recompra de papéis; os juros futuros subiram; as ações no exterior caíram 27% e desenhou-se um cenário de incerteza e insegurança cujos desdobramentos são imprevisíveis.

Embora alguns desses indicadores tenham refluído um pouco, ainda se mantêm bem acima de seu nível anterior, inclusive aos do período pré-eleitoral. Os primeiros passos do novo (velho) governo poderão dissipar os temores e incertezas ou aprofundar as reações negativas. A inércia agrava esse quadro, pelo que se espera que o presidente eleito, que ainda está no poder, tome medidas ou promova sinalizações que possam dar algum horizonte ao mercado antes mesmo da posse. Não bastam afirmações genéricas sobre as ações futuras, mas a antecipação de atos concretos, como a indicação de um Ministro da Fazenda com credibilidade ou outros de igual impacto.

Não podemos esquecer que o novo (velho) governo tem uma imensa fatura para pagar de suas bondades do período que antecedeu às eleições (na verdade, que os contribuintes irão pagar de alguma forma). Pode ser com a inflação, com mais tributação ou com o aumento da Dívida Pública, cujos patamares já estão muito elevados. Qualquer das alternativas tem impacto sobre o nível de atividade, que já vem sinalizando desaceleração devido ao alto nível de endividamento das empresas e das famílias.

O aumento da taxa de inflação é certo se for mantido o cronograma da Reforma Tributária, além dos efeitos da PEC 6×1 sobre muitos setores, de aumento do custo da folha ou redução de atividade. Aumentar tributos talvez não seja fácil se o novo Congresso, como se espera, atuar na defesa dos contribuintes. A saída mais arriscada é a
de aumento da DP, pois o Tesouro já está tendo que pagar mais e com prazos menores para colocar seus títulos, e esse caminho tem um limite que, se ultrapassado, desencadeia grande instabilidade econômica.

Marcado:

Sign Up For Daily Newsletter

Stay updated with our weekly newsletter. Subscribe now to never miss an update!

[mc4wp_form]

Deixe um Comentário