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Saída cinematográfica de Flávio Bolsonaro é assunto mundial – por Reinaldo Polito

Se a operação montada para que Flávio Bolsonaro deixasse o país e chegasse com sua família sem problemas aos Estados Unidos fizesse parte de um enredo de filme de ação e suspense, dir-se-ia que o roteirista abusou da criatividade a ponto de comprometer a verossimilhança da ficção.

O filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, vai parecer história mambembe quando comparado com a narrativa verídica da escapulida de Flávio. Do planejamento à execução final, passando pela estratégia, tudo foi esquematizado com uma precisão cirúrgica que poucas vezes se viu em películas de espionagem internacional. Não por acaso, o episódio virou notícia na imprensa de vários países.

Até um foguete para despistar

Alguns aliados de Flávio usaram a tática da prestidigitação para ludibriar as autoridades. Divulgaram informações desencontradas para despistar. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, ironizou as notícias da possível fuga do irmão: disse que Elon Musk estava mandando um foguete para buscá-lo.

O advogado Fábio Wajngarten chamou a notícia de fake, e o senador Rogério Marinho, coordenador-geral da campanha, garantiu que Flávio não havia saído do país.

A imprensa foi abastecida com notas inverídicas. Enquanto os aliados negavam a fuga, o senador já estava a caminho. O governo Milei também resistiu a admitir a passagem de Flávio pelo país, mas acabou por confirmá-la na madrugada de quarta-feira.

Fuga pela noite

A retirada da família durou da noite de segunda-feira, 26, à madrugada de quarta-feira, 28. Flávio, a esposa, Fernanda, e as duas filhas não passaram pelo controle migratório brasileiro para chegar à Argentina. Se tivessem se apresentado aos postos regulares, provavelmente teriam sido interceptados. Havia muita gente no encalço deles.

Segundo as apurações, o trajeto de Brasília até a fronteira com a Argentina foi feito de carro. Movimentos calculados para não despertar suspeitas. Uma verdadeira operação de guerrilha. Qualquer equívoco poderia pôr tudo a perder. Por isso, embora a tarefa tenha sido organizada mais ou menos em cima da hora, cada uma de suas fases precisaria ser cumprida com perfeição. E foi. O improviso funcionou como se tivesse sido ensaiado durante meses.

Evidente demais para alguém se esconder

O caminho escolhido por Flávio foi a Ponte Internacional Tancredo Neves, para chegar a Puerto Iguazú. Impedido de usar o passaporte brasileiro, que deveria ter entregado à Polícia Federal, ele atravessou a fronteira, segundo a imprensa argentina, apresentando apenas a carteira de identidade, documento suficiente graças aos acordos do Mercosul. Com a primeira parte do plano vencida, faltava embarcar no Gulfstream G400 fretado, operado pela empresa Baires Fly, que esperava havia mais de 24 horas na pista do aeroporto.

Nessa etapa, para cumprir as exigências do voo internacional, Flávio usou o passaporte italiano. O avião fez uma escala técnica em Guayaquil, no Equador, e em seguida dirigiu-se ao destino final em Miami, Flórida, EUA. O voo da América do Sul teve início à 0h21 da quarta-feira e pousou nos Estados Unidos por volta das 9h30, horário local, 10h30 no horário de Brasília. Na chegada, a família se escondeu da imprensa sob um guarda-sol, cena digna de filme.

Gente poderosa no plano de fuga

Essa engenharia, pelo que se soube posteriormente, não foi concebida por mentes tupiniquins. Segundo os jornais The New York Times e The Wall Street Journal, um dos articuladores das ações foi o conselheiro do presidente Donald Trump, Jason Miller. Em contato com Eduardo Bolsonaro, ajudou a providenciar o jato. O WSJ aponta ainda a participação do argentino Santiago Caputo, assessor político de Milei.

Essa ajuda do governo americano foi fundamental para a entrada e a permanência da família no país. Washington concedeu aos quatro uma permissão humanitária provisória (parole), válida por até um ano. Especula-se que Trump ainda ofereça asilo ou refúgio político aos brasileiros. Independentemente de confirmação, não seria natural despenderem tanto esforço para depois mandá-los de volta.

Nem todo mundo gostou

A reação veio do Congresso americano. Vinte e cinco deputados democratas, opositores de Trump e refratários aos conservadores brasileiros, enviaram carta oficial ao Departamento de Estado questionando se houve ajuda do governo Trump na fuga. Querem saber também se a pasta, chefiada por Marco Rubio, sabia das investigações contra Flávio no Brasil.

Trump, por seu lado, já está faturando politicamente em cima dos acontecimentos. Com a intenção de vencer as eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos, tem comparado o pleito brasileiro às supostas fraudes dos democratas. É a cereja do bolo que faltava para a produção cinematográfica.

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