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A engrenagem silenciosa da dívida pública – por Antonio Tuccilio

A dívida pública costuma aparecer no debate apenas em momentos de crise. Ela surge como um número grande, abstrato, acompanhado de frases prontas sobre “cortar gastos” ou “apertar o orçamento”. O problema é que, quando o assunto é tratado só como um susto periódico, a sociedade perde a chance de entender um dos mecanismos mais decisivos para o funcionamento do Estado.

Dívida pública é, em essência, o dinheiro que o governo toma emprestado para financiar suas atividades por meio da emissão de títulos. Quem compra esses títulos empresta recursos ao país e recebe de volta com juros. Esse modelo é comum no mundo inteiro. O que diferencia os países não é a existência da dívida, mas o custo, a velocidade de crescimento e a forma como ela pressiona o orçamento.

No Brasil, o estoque da dívida pública federal encerrou 2025 em torno de R$ 8,6 trilhões, o maior valor da série histórica. As projeções oficiais indicam que, mantido o ritmo atual de financiamento, ela pode se aproximar de R$ 10 trilhões ao final de 2026. Em relação ao PIB, a dívida bruta já gira em torno de 79% e tende a continuar subindo se não houver mudança relevante na trajetória fiscal.

O impacto disso não é apenas contábil. Quanto maior a dívida e quanto mais elevados os juros, maior a parcela do orçamento destinada ao seu serviço. Hoje, o país já direciona algo próximo de R$ 1 trilhão por ano em juros, valor que compete diretamente com investimentos, políticas públicas e manutenção de serviços essenciais. Ao mesmo tempo, juros altos encarecem o crédito, reduzem investimentos produtivos e freiam o crescimento econômico.

O debate público, porém, costuma simplificar essa engrenagem. Ajustes fiscais recaem rapidamente sobre salários, concursos e estrutura do serviço público, como se o problema fosse exclusivamente o tamanho do Estado. Servidores não definem a taxa de juros nem a estratégia de endividamento. São eles que mantêm hospitais abertos, escolas funcionando, fiscalização ativa e políticas públicas em execução. Fragilizar essa base reduz a capacidade real do país de entregar direitos.

Isso não significa ignorar a responsabilidade fiscal. Gastar sistematicamente acima da arrecadação amplia a necessidade de financiamento e pressiona a dívida. Mas também é legítimo discutir a estrutura desse sistema, seus custos e sua transparência. O economista Miguel Bruno, ao tratar da chamada “engrenagem oculta” da dívida pública brasileira, argumenta que o debate costuma ignorar os mecanismos internos que transformam o endividamento em um eixo permanente de remuneração financeira, com impacto direto sobre as prioridades do orçamento. Auditoria da dívida não é sinônimo de calote. É instrumento de controle democrático para entender fluxos, composição e escolhas que moldam a política fiscal.

Se a trajetória atual continuar, o Brasil entra em um ciclo em que a dívida cresce mais rápido que a capacidade de investimento do Estado. Projeções de sustentabilidade fiscal indicam que, mantidas as condições atuais de financiamento e juros elevados, a dívida pode ultrapassar 110% do PIB no início da próxima década, com cenários que apontam números próximos de 117% do PIB em 2033. O resultado é um orçamento cada vez mais comprimido e uma disputa permanente por recursos escassos. Sem debate qualificado, a solução tende a recair sempre sobre os mesmos setores.

A CNSP defende que equilíbrio fiscal não pode ser construído às custas do enfraquecimento do serviço público. País eficiente exige Estado funcional, capacidade técnica e servidores valorizados. Transparência sobre a dívida é parte dessa equação. Entender para onde vai o dinheiro público é condição básica para uma democracia que pretende decidir seu próprio futuro.

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