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A lanterna de Diógenes – por Foch Simão

Diógenes de Sinope, filósofo cínico (escola filosófica grega) do século IV a.C., caminhava por Atenas em pleno dia com uma lanterna acesa, afirmando buscar um homem íntegro. Não se tratava de excentricidade, mas de denúncia, a luz era menos necessária para enxergar os rostos do que para expor a ausência de virtude em uma sociedade tomada pela aparência, pela retórica vazia e pela corrupção moral. A lanterna de Diógenes não iluminava corpos revelava consciências.

Após sua morte, a tradição filosófica transformou o objeto em símbolo. A lanterna passou a peregrinar pelo tempo, confiada apenas àqueles capazes de suportar o peso da verdade. Onde houvesse poder, ali ela seria temida; onde houvesse virtude, tolerada; onde houvesse corrupção, inevitavelmente destruída.

Diz a lenda que, em determinado momento, o artefato chegou às mãos dos reis de Portugal, servindo como critério invisível na escolha de conselheiros e ministros. Não escolhia os mais eloquentes, nem os mais ricos, mas os menos corruptíveis. Com a Independência do Brasil, o legado teria sido transferido a D. Pedro I e, depois, a D. Pedro II, este último, talvez o último governante brasileiro a compreender que o poder sem ética é apenas uma forma organizada de pilhagem.

Sob o Segundo Reinado, o Brasil conheceu estabilidade institucional, expansão científica, respeito internacional e um projeto de nação. A lanterna não produzia milagres, apenas afastava os indignos da proximidade do poder. E isso, para os padrões brasileiros posteriores, já era uma revolução.

Em 15 de novembro de 1889, contudo, a história tomou o rumo previsível das sociedades que se recusam a amadurecer. Militares traidores do juramento constitucional, latifundiários ressentidos pela abolição da escravidão e políticos, profissionais da intriga, depuseram o Imperador. Não havia povo nas ruas, não havia projeto nacional, não havia ideal republicano, havia apenas ambição, ressentimento e oportunismo.

Nos salões invadidos do Império, os golpistas encontraram a lanterna. Reconheceram-na não pela luz, mas pelo medo que lhes causava. Sabiam que, se mantida acesa, nenhum deles suportaria permanecer sob seu feixe. Decidiram, então, destruí-la. Não por ignorância, mas por lucidez moral invertida.

A República brasileira nasce, assim, do assassinato simbólico da probidade. Desde então, governa-se no escuro por escolha deliberada. A corrupção deixa de ser desvio e passa a ser método. O abuso transforma-se em sistema. A usurpação converte-se em tradição. E o cinismo, não no sentido filosófico de Diógenes, mas no sentido vulgar dos que zombam da ética, daqueles que fazem do saque aos cofres públicos virtude política.

A lanterna de Diógenes não se perdeu, foi quebrada, e os seus estilhaços ainda ferem aqueles que insistem em buscá-la.

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