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A ÓPERA BUFA DA ENEL E DA PREFEITURA DE SÃO PAULO: À LUZ DE VELAS por Wagner Belmonte

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São Paulo sofreu na pele, sem analgésicos, os efeitos uma rajada de vento atípica que trouxe um pouco mais de caos a uma cidade em que a vida caótica, mais do que um pleonasmo, é uma rotina. Na metrópole em que a operação Tapa Buraco é feita depois de algumas ruas da zona sul serem recapeadas, os acordes da ópera bufa surgem fáceis, um sopro de ironia e esperança nos nossos ouvidos.

Para além do prefeito Ricardo Nunes, completamente perdido, desorientado, incoerente e profundamente mal assessorado (ele só pensa na reeleição e parece ter se esquecido de governar “hoje”) – ora “passando pano” para a Enel, ora falando sem ênfase, sem a liturgia de um homem público que toma as dores dos seus governados – o que se viu foi um festival de incompetência, uma autêntica ópera bufa, satírica e cômica, se não fosse trágica.

A Enel, por exemplo, se deu ao luxo de dizer, em coletiva de imprensa com o governador Tarcísio de Freitas e com o próprio Ricardo Nunes, que vivem num mundo paralelo balizado pelo enfrentamento da ciência, pela anistia a quem ousou não tomar vacina, pelo lobby do agronegócio desmatador e que associa o aumento da áreas de plantio a progresso, sem falar nos agrotóxicos banidos na Europa que irrigam nossa mesa todos os dias, pela negação do aquecimento global, entre outros inúmeros fatores, que a distribuidora “vinha fazendo um trabalho incrível” para restabelecer o fornecimento de energia. A autoestima da Enel, de Ricardinho e de Tarcísio são bons objetos de estudo para psiquiatras e profissionais multidisciplinares de saúde mental. Eles se acham incríveis e vale tudo: ser hostil com jornalista, não aceitar pergunta que precisa ser feita, ou, no caso do governador, usar um prendedor de gravata com imagem de um fuzil, numa prova bem simplista da sua simpatia pela violência policial que disparou em seu mandato.

Aqui, na Chácara Klabin, bairro notadamente fascista e com lampejos crassos de abuso de autoridade da classe média, algumas ruas como Professora Carolina Ribeiro e João Luis Vives ficaram até 98 horas sem luz. 98 horas – quatro dias inteiros e mais duas horas. Perdas que vão muito além daquilo que a classe média ostenta nas suas geladeiras; a culpa, claro, é do Lula, ou vocês não sabiam? Agora, além do Lula, Flávio Dino.

Mais de dois milhões e 100 mil pessoas ficaram sem luz, no breu total. Claro que teve gente, ainda mais num bairro fascista, racista, segregador, xenófobo, em que as pessoas têm absoluta certeza dos direitos especiais que se conferem por pagar impostos como grande favor que fazem à humanidade, que eximiram, eximem e seguirão eximindo o prefeito de responsabilidade, evocando ainda, nos acréscimos do segundo tempo, o papel das agências do governo federal que também não disseram a que vieram.

A turminha passadora de pano de sempre, a classe média descrita de forma tão genômica por Marilena Chauí, aquele grupo que nega sistematicamente o aquecimento global e que não vê nenhuma responsabilidade no agronegócio em tudo o que estamos vivendo, escancarando os seus valores, seu dia a dia, a lógica de que bandido bom é bandido morto e direitos humanos são para humanos direitos. Náuseas.

Não quero ajudar essa gente. Mas apenas para informa-los, já que eles fazem questão de viver numa bolha de desinformação, cientistas do observatório europeu Copernicus anunciaram ontem, dia 8, que 2023 deve terminar o ano como “o mais quente em 125 mil anos”. Isso mesmo: 125 mil anos. O “recorde” foi quebrado com 0,4 graus Celsius, uma margem enorme, segundo a estudiosa Samantha Burgess. Sob a luz das velas que serão acesas muitas vezes, a humanidade terá tempo de refletir sobre o seu flerte com o fascismo ambiental ?

Wagner Belmonte é jornalista e professor universitário.

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