Embora o grande acesso a informação sobre saúde emocional, cresce o número de pessoas que se sentem incapazes de sustentar as próprias dores. No cotidiano, conflitos internos são tratados como falhas a serem eliminadas rapidamente, não como processos a serem compreendidos. E, nesse movimento, instala-se um atalho perigoso, a tentativa de anestesiar aquilo que, por natureza, precisa ser vivido.
O luto, por exemplo, não é apenas sofrimento, é também reorganização interna, despedida simbólica, reconfiguração de sentido. Quando evitado, não desaparece, apenas se desloca. O mesmo ocorre com a rejeição após o fim de um relacionamento, com a dor da traição, com a frustração profissional diante da falta de reconhecimento ou de uma demissão inesperada. São experiências que, embora desconfortáveis, fazem parte da travessia humana. Ignorá-las ou silenciá-las não as resolve, apenas posterga o inevitável.
Nesse ponto, a psicanálise oferece um olhar preciso. Sigmund Freud, ao tratar do luto, destacou que ele é um trabalho psíquico necessário, um processo de desligamento afetivo que permite ao sujeito, pouco a pouco, reinvestir na vida. Não se trata de esquecer, mas de elaborar. Quando esse processo é interrompido ou evitado, a dor não desaparece, ela se transforma em algo mais difuso, muitas vezes mais difícil de acessar e resolver. Já Viktor Frankl trouxe uma contribuição essencial ao afirmar que o sofrimento deixa de ser sofrimento quando encontra sentido. Para ele, o vazio existencial não se preenche com distrações ou anestesias, mas com significado. É justamente na travessia da dor que o ser humano pode ressignificar sua própria existência.
É preocupante a tendência crescente à automedicação e, em casos mais extremos, ao uso de substâncias ilícitas como tentativa de preencher vazios existenciais. Um alívio imediato que cobra, mais adiante, um preço elevado na saúde emocional, nas relações e na própria autonomia do indivíduo. Importa esclarecer, não se trata de qualquer oposição aos tratamentos médicos; pelo contrário, o cuidado profissional é essencial e, muitas vezes, indispensável. O ponto crítico está no uso indiscriminado, sem orientação, como estratégia de fuga das dores naturais da vida.
Sob a ótica da mediação de conflitos, esse movimento é muito evidente. Pessoas que não conseguem nomear o que sentem, tampouco sustentar o desconforto, tendem a reagir, a evitar ou a transferir suas dores para o outro. E assim, o que poderia ser um processo de crescimento transforma-se em repetição de conflitos, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional.
A questão não é eliminar a dor, é dar a ela um lugar. Porque é justamente ao atravessá-la que se abre espaço para algo novo. E talvez essa seja a virada mais estratégica da vida, compreender que sentir não é fraqueza, é condição para seguir inteiro.
Suely Buriasco
Mediadora Corporativa e Escritora












