A história institucional das relações exteriores brasileiras teve início em 1808, com a criação da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, órgão responsável pela condução das relações internacionais da Coroa Portuguesa no Brasil. Durante o Período Imperial, sua principal missão consistiu em obter o reconhecimento internacional da independência brasileira e consolidar as fronteiras do novo Estado na América do Sul. A atuação diplomática foi fundamental para que potências como os Estados Unidos, em 1824, e a Grã-Bretanha, em 1826, reconhecessem o Império do Brasil.
No Segundo Reinado, o ministério conduziu negociações e articulações que culminaram na formação da Tríplice Aliança, constituída pelo Brasil, Argentina e Uruguai na Guerra do Paraguai. Encerrado o conflito, a diplomacia brasileira voltouse para a pacificação e a definição das fronteiras amazônicas e platinas, por meio de tratados e acordos internacionais.
O nome “Itamaraty” passou a ser utilizado como sinônimo do Ministério das Relações Exteriores em 1899, quando a pasta foi transferida para o Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro. Embora o órgão jamais tenha alterado oficialmente sua denominação, o apelido tornou-se consagrado em razão da imponência do edifício, antiga residência do Conde de Itamaraty, que serviu de sede à diplomacia brasileira até a transferência para Brasília, em 1970.


O auge dessa instituição ocorreu sob a liderança de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco (1845–1912), patrono da diplomacia brasileira. Com notável erudição histórica e geográfica, consolidou pacificamente as fronteiras nacionais, defendendo os interesses do Brasil com rigor técnico e extraordinária habilidade jurídica. Filho do Visconde do Rio Branco, um dos mais importantes estadistas do Império, formou-se em Direito em 1866. Monarquista convicto, recebeu o título de Barão em 1888 e continuou a utilizá-lo mesmo após a Proclamação da República. Sua competência era tão amplamente reconhecida que os governos republicanos mantiveram-lhe prestígio e autonomia incomuns.
Contudo, essa trajetória de sucesso e autonomia tem sido questionada nos tempos recentes. Defensores de uma visão crítica da política externa atual sustentam que, nas últimas décadas, o Itamaraty passou a sofrer crescente influência de orientações ideológicas e de interesses políticos conjunturais, afastando-se da tradição de pragmatismo e de defesa prioritária dos interesses nacionais que marcou parte de sua história. Segundo essa interpretação, a autonomia da diplomacia brasileira teria sido reduzida em favor de diretrizes formuladas fora dos quadros profissionais do Ministério das Relações Exteriores, atribuindo ao assessor especial da Presidência, Celso Amorim, influência desproporcional na formulação da política externa, enquanto o chanceler assumiria um papel secundário em decisões estratégicas.
Os críticos apontam ainda uma sucessão de episódios que, em sua avaliação, contribuíram para o desgaste da imagem internacional do Brasil, entre eles a demora em dar o agrément ao novo embaixador dos Estados Unidos da América, a negativa de vistos a representantes do governo dos Estados Unidos que pretendiam acompanhar reuniões relacionadas ao processo eleitoral brasileiro de 2026, os recorrentes atritos diplomáticos com o governo do presidente argentino Javier Milei e a decisão de não aceitar a indicação de um novo cônsul de Israel em circunstâncias que ampliaram as tensões bilaterais. Para esses analistas, tais episódios reforçam a percepção de que o ideologismo passou a prevalecer sobre a tradição diplomática brasileira de equilíbrio, profissionalismo e busca do interesse nacional, comprometendo a credibilidade internacional e a reputação histórica do Itamaraty como instituição de Estado.
Nesse contexto, a sociedade brasileira assiste atônita à instituição outrora admirada internacionalmente, atravessar um período de declínio de prestígio e influência, contaminada por uma pauta ideológica atípica às suas tradições. Diante desse panorama, é possível imaginar o Barão do Rio Branco vertendo lágrimas pelo destino da obra que ajudou a construir. Em um lamento que ecoa antigas profecias, o Barão talvez diria:
“Não choro por mim, mas por vós, brasileiros, e por vossos filhos. Porque virão dias em que muitos dirão: felizes aqueles que não tiveram descendentes para herdar uma pátria enfraquecida por seus próprios erros.”











