No dia 26 de fevereiro, o perfil oficial do Aeroporto Internacional de Tampa fez uma postagem irônica dizendo que iria banir o uso de pijamas durante o dia. A postagem incluía também os calçados Crocs na proibição. Foi um alvoroço. A notícia viralizou, atingindo milhões de visualizações. As opiniões se dividiram entre aqueles que defendiam o conforto e os que criticavam a falta de elegância nas viagens aéreas.
No dia seguinte, a administração do aeroporto e importantes veículos de comunicação, como O Globo, esclareceram que tudo não passou de uma brincadeira e que os passageiros continuavam livres para vestirem o que desejassem. Humor à parte, essa é uma discussão interessante.
Palavra de especialista
Há pouco tempo, entrevistei a renomada consultora de moda, Glória Kalil. Uma das perguntas que fiz a ela, aproveitando sua larga experiência como palestrante, foi se a roupa tem influência no processo de comunicação. Ela disse que sim.
As suas respostas foram de acordo com a tese de Umberto Eco. Na sua obra “Psicologia do vestir”, ele afirma que o vestuário fala. É, portanto, uma dedução lógica: se o vestuário fala, a maneira como nos vestimos pode, sim, até influenciar o resultado das apresentações.
Como não é jacaré?
Somos avaliados não apenas pelo que somos, mas também — e, às vezes, principalmente — pelo que parecemos ser. Os mais velhos hão de se lembrar do folclórico governador carioca Leonel Brizola. Para descrever um adversário que desejava atacar, disse: “Tem couro de jacaré, tem rabo de jacaré, tem dente de jacaré, então como não é jacaré?”
Diante da variedade de opções, qual deveria ser a nossa escolha para a roupa? Será que bastaria estarmos atualizados, envergando trajes que estão na moda? Ou, como pensam alguns, ficarmos alheios ao que geralmente é imposto pela sociedade de consumo?
A palavra do filósofo
O filósofo social inglês Anthony Giddens, na sua obra “Modernidade e identidade”, afirma: “A aparência corporal diz respeito a todas as características da superfície do corpo, incluindo modos de vestir e de se enfeitar, que são visíveis pelo indivíduo e pelos outros, e que são normalmente usados como pistas para interpretar as ações”.

O que diz o povo? O velho provérbio alerta: “O homem sábio deve ser o primeiro a seguir a moda e o último a deixá-la.” O tempo passa e as lamúrias permanecem. Há um século as pessoas reclamavam da inconstância da moda. Hoje a queixa é a mesma. E no futuro será assim também, sem nenhuma dúvida.
Os adolescentes, ah, esses adolescentes!
Um homem sensato segue a moda sem afetação. Procura fazer com que notem, em sua maneira de vestir, o bom gosto, e que percebam que ele está sempre atualizado. Quando se critica um adolescente por causa da sua forma de se vestir, a resposta é sempre a mesma – é a moda.
Em nossa opinião, esta resposta é ridícula. Não porque se deva desconsiderar a moda, mas sim porque a pessoa deve se trajar e se comportar sem ser notada. Um homem de bom nível deve se apresentar sempre de maneira que ninguém o censure pela forma como se veste ou se comporta.
Um livro de quase 200 anos
Siga a moda, mas saiba deixá-la quando for conveniente. Nunca crie modismos, mesmo sabendo que existem adolescentes que gostam de aparecer por causa de uma novidade. Lembre-se sempre de que os objetos dos nossos desejos devem ser mais consistentes, para proporcionar uma reputação adequada e dar dignidade ao homem, e que inventar moda é próprio de quem não tem outros meios para se sobressair.
Você também deve ter julgado algumas das afirmações acima muito radicais. Essas observações que acabou de ler sobre a moda, entretanto, não são minhas e não são novas. Eu as encontrei num livro curioso e muito divertido que comprei em uma livraria na Espanha. O título da obra é “El hombre fino”, e esta terceira edição é de 1837.

O passado atual
O livro é antigo e alguns de seus conselhos são ultrapassados e até motivo de risos. Traz ensinamentos que nada têm a ver com a nossa realidade, como, por exemplo, explicações detalhadas a respeito da maneira correta de o homem usar o gorro para dormir.
Por outro lado, o livro nos surpreende com reflexões muito atuais sobre a moda. Certas informações não se alteram ao longo do tempo. Alguns dos seus conceitos chamam a atenção pela atualidade, como o que aconselha uma pessoa a não se vangloriar de seus bens materiais.
E aí, como agir?
Em meio a tantas novidades e à frenética mudança da moda, é surpreendente como ainda podemos aprender com uma obra publicada há quase 190 anos. Ficamos meio perdidos com a velocidade com que certos conceitos chegam a envelhecer, às vezes em semanas. Quando, todavia, se trata da essência do homem, alguns ensinamentos podem ser perenes e sempre atuais.
Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Presidente Emérito da Academia Paulista de Educação. Escreveu 36 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito, pelo facebook.com/reinaldopolito ou pergunte no contatos@polito.com.br












