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IDEB: avanços importantes, desafios persistentes e pequenas ideias sobre educação do Brasil hoje e amanhã – por Roberto Freire

Os resultados mais recentes do IDEB trazem uma notícia moderadamente positiva para a educação brasileira. Eles mostram que houve avanços em parte da educação básica, demonstrando que é possível melhorar os indicadores quando há compromisso dos profissionais da educação, boa gestão e participação da comunidade.

Entretanto, esses avanços não autorizam qualquer triunfalismo. A realidade continua preocupante. Em todos os níveis de ensino, o Brasil ainda está distante da qualidade educacional de que necessita para formar cidadãos preparados para uma sociedade cada vez mais complexa, tecnológica e democrática. Os ganhos registrados devem ser reconhecidos, mas também servir de estímulo para enfrentar o longo caminho que ainda temos pela frente.

Os resultados do IDEB permitem, contudo, uma reflexão importante sobre a organização da educação brasileira.

A educação infantil e grande parte do ensino fundamental são responsabilidades constitucionais dos municípios. Quando os indicadores melhoram, isso significa que milhares de escolas, espalhadas pelas mais diversas regiões do país, conseguiram produzir resultados melhores. O mérito pertence, antes de tudo, às comunidades educacionais locais.

Prefeitos comprometidos com a educação, secretários municipais, vereadores que compreendem a importância da escola pública, diretores, coordenadores pedagógicos, servidores da educação e, sobretudo, o professorado municipal constituem o verdadeiro patrimônio da educação básica brasileira. São eles que convivem diariamente com os alunos e suas famílias, conhecem as dificuldades de cada comunidade e constroem, muitas vezes com recursos escassos, as condições para que a aprendizagem aconteça.

Essa constatação reforça uma convicção que tenho há muitos anos: a melhoria da educação brasileira não passa pela federalização da educação básica.

Respeito os que defendem esse caminho, mas considero que ele partiria de um diagnóstico equivocado. A qualidade da educação não nasce da centralização administrativa. Ela nasce da proximidade entre a escola e a comunidade, da capacidade de cada rede de ensino compreender sua realidade e construir soluções adequadas às características locais.

O Brasil é um país de dimensões continentais, marcado por profundas diferenças econômicas, sociais, culturais e regionais. Essa diversidade recomenda fortalecer o federalismo cooperativo e a descentralização, e não concentrar ainda mais responsabilidades em Brasília.

Isso não significa reduzir o papel da União. Pelo contrário.

A União deve assumir uma responsabilidade cada vez maior no financiamento da educação básica, na redução das desigualdades entre os municípios, na avaliação permanente da qualidade do ensino e no apoio técnico às redes municipais. Seu papel estratégico deve ser fortalecido, mas sem substituir a autonomia e o protagonismo das comunidades locais.

Nesse sentido, considero que merece amplo debate a criação de mecanismos permanentes de financiamento federal vinculados à evolução dos indicadores educacionais. Uma parcela adicional de recursos obrigatórios poderia ser destinada aos municípios que demonstrem melhoria consistente no IDEB, respeitando o ponto de partida de cada rede e suas condições socioeconômicas. Não seria um prêmio aos que já estão na frente, mas um incentivo à melhoria contínua e uma forma inteligente de induzir políticas públicas de qualidade.

Ao lado desse desafio institucional, outro começa a transformar profundamente a própria ideia de escola.

Vivemos a transição para uma sociedade figital, em que os mundos físico e digital se integram de maneira crescente. Essa transformação atingirá inevitavelmente o conceito de sala de aula.

Considero correta a decisão de restringir o uso indiscriminado dos celulares nas salas de aula atuais. No modelo de ensino ainda predominante, baseaddo na presença física do professor e na necessária concentração dos estudantes, esses aparelhos frequentemente dificultam o processo de aprendizagem.

Mas seria um erro imaginar que essa realidade será permanente.

A história da educação demonstra que os instrumentos pedagógicos evoluem juntamente com a sociedade. O livro, o quadro negro, o rádio, a televisão, o computador e a internet modificaram profundamente a forma de ensinar e aprender. Tudo indica que, no futuro, os dispositivos móveis — ou as tecnologias que os substituirão — deixarão de ser vistos apenas como fontes de distração para se tornarem parte integrante dos ambientes de aprendizagem.

Isso não diminuirá a importância do professor. Ao contrário. Quanto maior for a disponibilidade de informação e mais intensa a presença da inteligência artificial, mais essencial será o papel do educador como formador do pensamento crítico, da criatividade, da ética, da convivência democrática e da capacidade de transformar informação em conhecimento.

Talvez o grande desafio da educação brasileira seja exatamente este: melhorar a escola de hoje sem perder de vista a escola de amanhã.

Os resultados do IDEB mostram que é possível avançar, mas também deixam claro que ainda estamos longe da educação que o Brasil precisa. O caminho não está na centralização, mas em um federalismo cooperativo capaz de combinar uma União mais forte no financiamento, na coordenação e na avaliação, com municípios fortalecidos, professores valorizados e comunidades cada vez mais participantes da vida escolar.

No século XXI, quanto mais figital se torna o mundo, num processo incesante de integração e globalização e também importante que a escola permaneça profundamente ligada à sua comunidade. A tecnologia poderá conectar bilhões de pessoas, mas educar continuará sendo, essencialmente, uma relação humana. É nessa combinação entre proximidade, autonomia local, cooperação federativa e inovação que reside a esperança para uma melhor educação brasileira

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