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Lula, Flávio Bolsonaro e o Brasil que vai acordar na segunda-feira – por Fábio Cruz

Depois de uma disputa política, as ruas continuam as mesmas, mas algumas famílias podem já não conseguir se sentar à mesma mesa como antes. A vitória de um candidato não encerra automaticamente os conflitos que atravessaram conversas, amizades e laços familiares. Há marcas que não aparecem na apuração dos votos.

Quando escrevi Tsunami da Vida, trilogia de ficção e mistério, imaginei Telha Velha, uma cidade transformada pela chegada de uma onda gigantesca. Cissa, a protagonista, e dezenas de outros personagens descobrem que a tragédia não termina quando o mar recua. É depois da onda que começam algumas das escolhas mais difíceis.

Dessa ideia nasceu a metáfora que sustenta meus livros: as adversidades são o tsunami, e nós somos a cidade. Uma cidade feita de afetos, trabalho, saúde, crenças e projetos. Quando uma dessas estruturas cede, nem sempre quem está de fora percebe.

Não comparo uma eleição a uma catástrofe. Votar é um exercício fundamental da democracia. Mas a maneira como atravessamos uma disputa política também pode abalar aquilo que parecia sólido em nossas relações.

Quem vota em candidatos diferentes pode ter visões profundamente distintas sobre os rumos do país. Ainda assim, essas pessoas podem compartilhar preocupações com o emprego, experiências de luto, responsabilidades familiares e expectativas para o futuro. Reconhecer essa humanidade comum não exige apagar diferenças, concordar com o outro ou abrir mão das próprias convicções.

O desafio está justamente em sustentar as divergências sem transformar cada conversa em um confronto e cada discordância em motivo para romper um vínculo. Isso não significa tolerar desrespeito ou ignorar diferenças importantes. Significa reconhecer que a convivência exige algo além da concordância: escuta, limites e disposição para compreender a experiência alheia.

Em Telha Velha, a onda não escolhe quais histórias merecem continuar. Na vida real, as disputas políticas podem mudar governos, prioridades e perspectivas, mas não precisam determinar, sozinhas, quem somos capazes de acolher ou de manter por perto.

O resultado eleitoral marca o fim de uma etapa da disputa. A convivência, porém, continua. E talvez seja justamente nesse momento que surja uma das perguntas mais importantes: como seguir em frente sem permitir que nossas diferenças destruam tudo aquilo que construímos juntos?

Porque, depois que a onda passa, a questão não é apenas quem permaneceu de pé. É o que ainda seremos capazes de reconstruir.


*Fábio Cruz é escritor, formado em Relações Internacionais, com experiência nas áreas de comunicação e marketing. É autor de Tsunami da Vida, trilogia brasileira de ficção e mistério que explora as relações humanas e os impactos de acontecimentos políticos e sociais nas percepções, escolhas e trajetórias individuais.

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