Mas estamos sendo caçadas por aí, sem dó. Chega. Somos muitas, somos mais, e muito mais do que histórias logo esquecidas no dia seguinte, que viram meros e cada vez mais assustadores números, condolências, providências nunca tomadas, famílias destroçadas e futuros comprometidos.
Nós, mulheres, adoraríamos, lógico, comemorar o agora tão decantado Dia Internacional da Mulher, que marca e homenageia lutas históricas de nossas antepassadas. Elas também sofreram, morreram, se sacrificaram por um ideal, por respeito, por orgulho, por direitos. Mas isso é impossível enquanto fazem do 8 de Março quase que apenas uma doce, florida, perfumada, absurda e melosa data comercial, enquanto em nosso país vivemos um momento entre os mais sérios com uma onda sem precedente de feminicídios.
Nas ruas, nas casas, à luz do dia, no trabalho, todos os dias mulheres são caçadas, perseguidas, mutiladas, feridas ou executadas por malditos. Porque ousaram. Disseram Não. Basta. Chega. Não quero. Porque resolveram se libertar; enfim, viver, e isso as faz alvo. Porque há homens que pensam que são nossos donos, e de nossas vidas, corpos – de nossas carnes que, por não poderem mais desejar, querem ver sangrando, extirpadas; nossos rostos mutilados, pedaços espalhados na memória de quem os encontra. Como se para eles fosse um recado a todas, e eles os heróis, mesmo que se matem ou sejam presos. Imaginam que gritam em nossos ouvidos: recuem, se submetam a nós, nos sirvam, somos protegidos pela lentidão da Justiça.
Tais malditos caçadores estão em todos os lugares, classes sociais, profissões, como um Exército do Mal. Não respeitam idade, submetem como se normal fosse, até as crianças. O assédio diário atinge a todas, sem distinção, não há nenhuma mulher capaz de negar isso, vivendo o medo e a insegurança. O problema é que a cada dia os malditos perdem mais a vergonha, armados, muitos sob o beneplácito das autoridades, coroados literalmente como caçadores, CACs, vejam só que ironia. Em compensação, imaginando-se indomáveis, desprezam, quando recebem, sempre tardiamente, o aviso da medida protetiva. Não são adornados por tornozeleiras, porque estas são poucas e muitas vezes ineficazes, rompidas, ou com a prometida chegada de socorro chegando atrasada.
Não, isso não é de agora. Claro que não. Agora o problema se torna, sim, mais visível, ganhou nome: feminicídio. Primeiro nos rotularam de “sexo frágil”. Há pelo menos mais de 50 anos nessa luta por direitos, me vejo repetindo essa dolorosa cantilena. O caso internacional volta à tona, do milionário americano predador sexual, Jeffrey Epstein. Balança o mundo, desmascara nobres, ministros, atormenta presidentes, ex-presidentes. O fantasma do predador (suicida, ou assassinado, na prisão em 2019) nos mostra mais um lado dessa miserável caça que já destruiu tantas vidas, marcou tantas jovens e suas famílias. O dinheiro que a tudo acoberta.
Aqui, pela imprensa, vemos as fotos das vítimas (em jornalismo, chamamos de “bonecos”, ao publicá-las, com seus perfis) que muitas delas deixaram como herança em suas redes sociais, seus bons e felizes momentos, às vezes até ao lado de seus futuros algozes. Em geral, moças, bonitas, no auge, vaidosas. Muitas vezes penso se não é essa nossa nova vida digital que as deixa ainda mais em perigo. Os celulares devassados. O ciúme dos que não aguentam que se mostrem.
Sim, queremos muito comemorar o Dia da Mulher. E sair e vestir o que quisermos, roupas justas ou não, mostrar corpos, tatuagens, plásticas, cílios postiços, sobrancelhas pintadas, bocas carnudas, maquiadas, perfumadas. Seja o que for.
Nosso rastro feminino, livre, por direito. Que a Justiça nos garanta a vida. Estamos sendo caçadas e não somos nós as feras. Mas podemos virar, mostrando nossas garras.
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– MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br











