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O malvado favorito – por Foch Simão

Em um país onde o mandatário sai em defesa de marginais, alegando que suas gatunagens teriam o mero cunho de lazer, como “tomar uma cervejinha”; em uma nação onde os criminosos parecem possuir mais prerrogativas do que a maioria dos cidadãos comuns, habita um povo que, em sua maior parte, é refém da coerção criminal.

São homens e mulheres que despendem os frutos de seu árduo trabalho na proteção do próprio patrimônio, vivendo sob o constante temor de se tornarem alvo da bandidagem. Nessa nação de oprimidos pela criminalidade, pululam os adeptos da bandidolatria, contaminando todas as camadas da sociedade, da mídia tradicional aos gabinetes da nobreza burocrática do serviço público. Nesse ambiente funesto, o país se degrada, a sociedade decai e as instituições se corrompem. Os sonhos ufanistas acalentados por tantas gerações do passado transformam-se em pesadelo para seus infelizes descendentes.

A inversão de valores torna-se regra. O cidadão honesto, que trabalha, produz e respeita as leis, vê-se cada vez mais onerado e desamparado, enquanto a violência, a impunidade e a complacência para com o crime corroem os alicerces da vida em comum. A sensação de insegurança deixa de ser um episódio ocasional para converter-se em elemento permanente da existência cotidiana.

Quando a sociedade passa a justificar o injustificável e a relativizar a responsabilidade daqueles que atentam contra a liberdade, a propriedade e a vida de seus semelhantes, abre-se caminho para a erosão moral das instituições e para o enfraquecimento do próprio Estado. E, onde a lei perde autoridade, prosperam o medo, a desordem e a desesperança.

Assim, a nação que poderia florescer pelo trabalho, pela disciplina e pela confiança mútua vê-se aprisionada em um ciclo de decadência, no qual a tolerância ao crime e a negligência com as vítimas contribuem para a construção de um futuro cada vez mais distante das aspirações de prosperidade, justiça e paz que um dia inspiraram seus cidadãos.

A essa paisagem de degradação soma-se uma camarilha política alçada ao poder por meio de tramoias palacianas, conchavos de gabinete e articulações frequentemente financiadas por interesses corporativos, quando não por interesses ainda mais escusos. Sustentados pela sufragação por um corpo eleitoral muitas vezes displicente, desinformado ou obtuso, cujos personagens eleitos apresentam-se como representantes do povo, mas convertem-se em verdadeiros parasitas da suposta democracia nacional. Esses hipócritas  ascendem aos cargos públicos não para servir à coletividade, mas para dela se servirem, apropriando-se dos privilégios, das benesses e das estruturas do Estado em benefício próprio ou dos seus grupos de influência. O mandato, que deveria constituir um dever de representação e responsabilidade, transforma-se em instrumento de promoção pessoal, perpetuação no poder e distribuição de favores, aprofundando o abismo que separa governantes e governados.

Em meio a toda essa barafunda que assola a nação, manifesta-se, em alguns segmentos da sociedade, uma curiosa indignação diante da adoção de medidas mais severas contra o crime. Como se cada cidadão guardasse, nos recônditos da alma, alguma vantagem inconfessável ou uma secreta afeição pela criminalidade. Seja adquirindo mercadorias de contrabando, sonegando tributos, receptando produtos de origem duvidosa, obtendo vantagens ilícitas ou simplesmente transigindo com pequenas infrações cotidianas, muitos parecem cultivar uma relação de complacência com aquilo que publicamente condenam.

Tal comportamento sugere uma contradição moral profunda: repudia-se o marginal que ameaça a ordem e a segurança coletiva, mas tolera-se, quando conveniente, a infração que proporciona benefício pessoal. Dessa forma, a criminalidade deixa de ser vista apenas como um problema externo à sociedade e passa a refletir também as fragilidades éticas nela presentes. Como se cada indivíduo, em maior ou menor medida, alimentasse o seu próprio “malvado favorito”, condenando o ilícito em tese, mas aceitando-o quando este lhe oferece alguma forma de proveito ou satisfação.

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