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O silêncio das mulheres também ocupa espaço e cobra um preço – por Bruna Gayoso

Quando o medo de se posicionar, a necessidade de pertencimento e a ausência de coerência fazem com que mulheres abram mão dos próprios espaços e paguem o preço por isso.

Recentemente, vimos uma deputada transexual sendo escolhida para ocupar um lugar na Comissão das Mulheres.

E antes de qualquer distorção, é importante deixar claro: isso não é sobre caráter, não é sobre ataque pessoal, não é sobre invalidar a existência de ninguém.

É sobre coerência.

É sobre limite.

E, principalmente, é sobre responsabilidade histórica.

A Comissão das Mulheres não é um espaço qualquer.

Ela não foi criada por acaso.

Ela não existe por simbolismo.

Ela existe porque mulheres foram, durante séculos, silenciadas, excluídas e retiradas dos espaços de decisão.

Ela existe como resposta a uma dívida histórica.

Ela existe para representar uma vivência específica.

E é aqui que o debate precisa sair da superficialidade.

Ser mulher não é apenas uma identidade declarada.

É uma construção atravessada por experiências, limitações, cobranças, violências e expectativas que começam desde a infância.

É o corpo sendo regulado.

É a fala sendo interrompida.

É a liberdade sendo condicionada.

Isso não é opinião.

Isso é realidade social.

Quando esse contexto é ignorado, o que se perde não é apenas um critério.

É o sentido do espaço.

E quando o sentido se perde, a consequência é inevitável: a representatividade se enfraquece.

Mas o ponto mais incômodo não é esse.

O ponto mais incômodo é o comportamento das próprias mulheres diante disso.

Porque, mais uma vez, o que se vê é silêncio.

E esse silêncio não é só medo.

É conveniência.

É necessidade de pertencimento.

É falta de posicionamento.

É o comportamento de seguir a maioria sem questionar, sem refletir, sem sustentar uma opinião própria.

E é aqui que a conversa precisa ser direta.

Vamos parar de romantizar isso como modernidade.

Vamos parar de chamar de evolução aquilo que, muitas vezes, é apenas falta de coragem.

Não é que não exista preconceito.

Mas, em muitos casos, o que existe é ausência de posicionamento disfarçada de discurso aceitável.

Existe uma diferença enorme entre pensamento crítico e simples adesão ao que é socialmente confortável.

Seguir a manada não é consciência.

É ausência de autonomia.

E quando você abre mão da sua autonomia, você abre mão da sua responsabilidade.

E isso, em pautas que envolvem direitos, tem um impacto coletivo.

Se você não questiona, você legitima.

Se você não sustenta, você permite.

E isso precisa ser encarado com honestidade.

Existe um discurso muito forte hoje sobre empoderamento feminino.

Mas, na prática, o que mais se vê é o oposto disso.

Mulheres não votam em mulheres.

Mulheres não defendem mulheres.

E, pior, mulheres atacam mulheres.

E atacam com intensidade.

De forma cruel.

De forma desproporcional.

De forma constante.

Basta observar as redes sociais.

Uma mulher se posiciona e imediatamente outras mulheres aparecem para deslegitimar, ridicularizar, silenciar.

E depois se fala em sororidade.

Isso não é força coletiva.

Isso é fragilidade mascarada de discurso.

E isso tem consequências profundas.

Não apenas políticas.

Mas emocionais e psicológicas.

Quando uma mulher percebe que não pode falar sem ser atacada, ela se cala.

Quando entende que não será sustentada por outras mulheres, ela recua.

Quando não se reconhece nos espaços que deveriam representá-la, ela se desconecta.

Isso gera frustração.

Gera insegurança.

Gera adoecimento.

E, mais do que isso, enfraquece a imagem da mulher em cargos públicos.

Porque passa a mensagem de desorganização, de desunião e de falta de clareza sobre aquilo que se defende.

E uma categoria que não se sustenta internamente dificilmente será respeitada externamente.

E é nesse ponto que o posicionamento precisa ser claro.

Eu não admito que uma pessoa trans me represente em um cargo que, pela sua origem e finalidade, foi criado para mulheres.

E deixando claro: isso não é preconceito.

Isso é o meu posicionamento.

É o meu direito de fala como mulher.

E é também o meu direito de dizer, com todas as letras: eu não aceito que uma pessoa trans me represente nesse espaço.

Isso não é sobre desrespeitar.

É sobre não abrir mão.

Eu não me calo diante disso.

Porque mulher deve, sim, defender mulheres.

Exceto quando estiver errada.

Mas se calar por medo nunca foi posicionamento. Sempre foi omissão.

E é por isso que é preciso dizer, sem rodeio:

Mulheres, reajam.

Acordem.

Parem de aceitar tudo em silêncio.

Falem o que vocês pensam.

Isso não é preconceito.

Isso é posicionamento.

Isso é responsabilidade com aquilo que foi conquistado por tantas mulheres que vieram antes de nós.

Ignorar isso não é evolução.

É conveniência.

E toda conveniência cobra um preço.

E esse preço já está sendo pago.

Cada vez mais vemos mulheres adoecendo emocionalmente, se sentindo sozinhas, desamparadas, desacreditadas do próprio coletivo.

É nesse vazio que a violência cresce.

Que o desrespeito se normaliza.

Que a mulher deixa de ser prioridade até dentro de pautas que deveriam ser exclusivamente dela.

Quando mulheres não defendem mulheres, o impacto não é simbólico.

Ele é real.

Ele aparece na forma como a sociedade enxerga a mulher.

Na forma como a mulher é tratada.

Na forma como suas pautas são relativizadas.

E ainda assim, quando alguém questiona, o que surge é o silenciamento.

Rótulos.

Julgamentos.

Tentativas de invalidação.

Mas é preciso reafirmar:

posicionamento não é preconceito.

Questionar não é atacar.

Refletir não é excluir.

Sem debate, não existe avanço.

Existe imposição.

E talvez o ponto mais difícil de admitir seja esse:

não é apenas a sociedade que falha com as mulheres.

São, muitas vezes, as próprias mulheres que não se sustentam.

Existe uma hipocrisia que precisa ser nomeada.

Fala-se de empoderamento, mas se pratica omissão.

Fala-se de união, mas se promove ataque.

Fala-se de força, mas se escolhe o silêncio quando mais importa.

No fim, a pergunta permanece:

as mulheres querem, de fato, sustentar seus espaços…

ou estão abrindo mão deles por medo, conveniência ou falta de posicionamento?

Porque ocupar um espaço exige coragem.

Mas sustentar esse espaço exige algo muito maior.

Coerência.

E toda vez que uma mulher se cala diante daquilo que acredita, ela não evita conflito.

Ela abre mão de si.

E quando isso acontece, alguém ocupa o teu espaço, o nosso espaço…

E mais uma vez fomos silenciadas…

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