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Presencial ou remoto? A pergunta mais importante está fora desse debate – por Luíz Moura

Nos últimos dois anos, grandes companhias como Amazon, AT&T, Boeing e Instagram adotaram políticas de retorno obrigatório ao escritório. Os argumentos são conhecidos: proximidade fortalece cultura, colaboração e aprendizado. Os efeitos, no entanto, têm sido ambíguos. Na Amazon, uma pesquisa interna indicou que 73% dos colaboradores administrativos passaram a considerar mudar de emprego após o anúncio. Na Dell, parte dos funcionários preferiu abrir mão de promoções a abandonar o trabalho remoto.

O debate não é novo, mas a forma como vem sendo conduzido revela uma limitação: ele parte do pressuposto de que cultura organizacional depende, principalmente, da presença física. Mas, na prática, essa relação é menos direta. Cultura não surge automaticamente da convivência. Ela resulta de decisões, consistência e liderança.

Uma empresa pode reunir toda a sua equipe num mesmo edifício todos os dias da semana e ainda assim ter uma cultura fraca, invisível para quem trabalha nela. E pode ter colaboradores distribuídos em dezenas de cidades, em fusos horários distintos, em países diferentes, e ainda assim construir uma identidade organizacional sólida. Isso desloca o foco da discussão. Mais do que escolher entre presencial ou remoto, o desafio está em definir o que a empresa quer construir e como sustentar isso no dia a dia.

Parte da confusão vem da tendência de associar cultura ao que é visível: os valores escritos na parede, o tom das comunicações internas, a frequência com que líderes aparecem nos canais da empresa. Mas tudo isso é apenas a camada mais externa de algo muito mais complexo. Uma mesma organização pode oferecer experiências distintas aos seus colaboradores, dependendo de áreas, equipes e lideranças e é preciso estratégias eficazes que reconheçam essa diferença e operem em múltiplos níveis.

Peguemos como exemplo a VOLL, plataforma de gestão de viagens e despesas corporativas que opera com mais de 600 colaboradores em modelos presencial, remoto e híbrido. A empresa atua em 15 países e processa mais de 540 mil viagens por mês. Em 2026, recebeu um investimento de US$ 123 milhões do fundo Warburg Pincus. Esse crescimento não aconteceu apesar do modelo de trabalho distribuído. Mas aconteceu também por causa dele: a flexibilidade permitiu acessar perfis que não estariam disponíveis em um modelo restrito a determinadas cidades.

E o que sustenta esse modelo não é a flexibilidade em si, mas sua estrutura. A rotina de encontros globais mensais, reuniões semanais abertas e ritos específicos por equipe, além de iniciativas presenciais nas unidades físicas. Esses mecanismos organizam a comunicação, alinham prioridades e reforçam comportamentos.

É que flexibilidade sem estrutura é apenas ausência de presença. O que transforma modelo de trabalho em vantagem competitiva é a combinação de liberdade com ritos que mantêm as pessoas conectadas ao propósito e aos resultados da empresa.

O debate entre presencial e remoto continuará a ser uma pauta relevante nos próximos anos. No entanto, as perguntas fundamentais que precedem essa discussão ainda estão sem resposta em muitas empresas: Quem somos como organização? Quais comportamentos realmente definem nossa cultura? E como podemos reforçar esses valores de forma consistente em todos os níveis?

Quando essas questões são respondidas com clareza, o modelo de trabalho deixa de ser o centro da discussão. Ele passa a ser apenas uma ferramenta, uma variável dentro de uma estratégia organizacional maior, alinhada aos valores e objetivos da empresa.
 

*Luiz Moura é especialista em turismo corporativo, membro do Conselho de Turismo da FecomércioSP e do Conselho Executivo da Alagev, além de co-fundador e Diretor de Negócios da VOLL – maior plataforma de gestão de viagens e despesas corporativas da América Latina.


Sobre Luiz Moura

Luiz Moura é empreendedor com mais de 20 anos de atuação na interseção entre turismo e tecnologia. É co-fundador e Diretor de Negócios da VOLL, maior plataforma mobile-first de gestão de viagens e despesas corporativas da América Latina, além de uma referência no desenvolvimento do setor de viagens corporativas.

Especialista em Marketing pela Fundação Dom Cabral, ocupa cadeiras no Conselho de Turismo da FecomércioSP e no Conselho Executivo da Associação Latino-Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (Alagev). Viajante frequente e observador atento do comportamento humano em movimento, escreve e fala sobre inovação, transformação digital, liderança empreendedora e o futuro das viagens corporativas.

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