Há uma forma de perder o Brasil enquanto se acredita estar vencendo na vida: transformar conforto em superioridade moral, patrimônio em critério de cidadania e indiferença em programa político.
O Klabin do título é a Chácara Klabin, em São Paulo, tomada aqui como metáfora dessa mentalidade sociopata. Não é um diagnóstico de todos os moradores, nem uma referência à empresa de papel e celulose. É o endereço simbólico de um país que quer usufruir da civilização sem assumir suas obrigações ou, pior ainda, reivindicando nobreza porque “pago os meus impostos e faço a minha parte”. Não faz.
A sordidez dessa mentalidade está na conveniência. A ciência merece respeito apenas quando melhora o tratamento no hospital particular. A vacina inspira confiança quando protege apenas a própria família; e tudo bem que seja cobrada em clínica particular – o importante aqui é salvar os iguais. A preservação ambiental vira urgência quando uma encosta ameaça interromper a estrada para o litoral norte. Fora desse perímetro, conhecimento pode virar “ideologia”, vacinação pode virar disputa partidária e fiscalização ambiental pode virar obstáculo ao progresso; ampliar o desmatamento é produzir riqueza e exportar mais. A verdade passa a depender do interesse de quem a escuta.
Chamar isso de “nova classe média” exige cuidado: renda, sozinha, não produz caráter. Nem cidadania. Nem dignidade. O alvo é uma cultura de ascensão que confunde prosperidade com licença para oprimir. Nela, a pessoa não se satisfaz em viver melhor; precisa que alguém viva pior, reconheça seu lugar e não perturbe a paisagem. O sucesso exige testemunhas subalternas, gente adestrada mesmo.
A mesma conveniência organiza a indignação diante da violência policial. Quando a vítima tem a cor, a profissão e o endereço considerados respeitáveis, exige-se imediata investigação, proporcionalidade, devido processo. Quando é um jovem negro da periferia, a dúvida pode desaparecer antes da perícia. O que deveria ser princípio universal se torna privilégio de identificação. Não adianta argumentar com essa gente que, quem tem uma arma na mão e carrega o peso de representar o Estado como instituição, não pode errar. Para eles, bandido bom é bandido morto, mesmo que não se tenha certeza sobre a vítima da barbárie fardada. A pergunta silenciosa deixa de ser “houve abuso?” e passa a ser “essa pessoa poderia ser uma das nossas?”.
Com a população em situação de rua, a operação fica ainda mais obscena. “Não paga IPTU” é o argumento para negar pertencimento. A frase converte a cidade em clube de proprietários e a dignidade em comprovante de pagamento. Ter um imóvel passa a valer como credencial humana; não ter um teto, como culpa. E, se não tem um teto sequer, não pode ocupar a rua pela qual a classe média transita…
Há também uma caridade que oferece alimento enquanto cobra submissão. Fazer sopa é um gesto necessário e pode ser profundamente generoso. Mas, quando a comida serve de instrumento para constranger, catequizar ou exigir gratidão obediente, a solidariedade vira exercício de poder, vira opressão da classe média que age como os portugueses quando, há cinco séculos, tomaram as terras e deram a Bíblia aos indígenas. A fome de quem recebe não autoriza ninguém a tomar posse de sua consciência. Uma sociedade decente alimenta sem humilhar e enfrenta as condições que tornam a doação indispensável. Mas, aqui, não se trata de sopa porque essa gente se alimenta da fome alheia, vibra com a desigualdade para bater no próprio peito.
Essa moral seletiva encontra tradução política no eleitor que apresenta Flávio Bolsonaro como saída anticorrupção e aceita relativizar as regras democráticas em nome dessa promessa. O teste de coerência é simples: esse eleitor aplica aos seus candidatos o mesmo escrutínio que exige dos adversários?
O caso das chamadas rachadinhas envolvendo Flávio precisa entrar nessa conversa com precisão. Em novembro de 2021, o STF considerou ilegais relatórios de inteligência financeira que embasaram a denúncia. A decisão sobre a obtenção das provas não equivale a uma condenação, tampouco autoriza transformar uma controvérsia processual em certificado amplo de virtude. Não se deve declarar culpa sem julgamento; também não se deve suspender a curiosidade quando o investigado pertence ao próprio campo político.
O combate à corrupção perde credibilidade quando depende do sobrenome do suspeito. E perde qualquer sentido republicano quando serve de pretexto para desejar um poder sem controle. A ruptura democrática enfraquece justamente os instrumentos necessários para fiscalizar governos: imprensa livre, oposição, instituições independentes e transparência. Um salvador autorizado a atropelar limites também pode atropelar quem o aplaudiu.
No clima, a contradição deixa de ser apenas moral e ganha consequências materiais. O IPCC afirma que a influência humana já afeta extremos climáticos em todas as regiões do planeta e que cada incremento do aquecimento intensifica múltiplos riscos. Isso não permite atribuir automaticamente qualquer ciclone ou deslizamento a um presidente. A análise de um evento específico exige estudos próprios, mas pressupõe, antes de tudo, respeito à ciência. Permite, porém, afirmar que emissões, desmatamento e políticas de adaptação fazem parte da segurança coletiva.
O histórico brasileiro fornece um parâmetro concreto. Segundo a série do Prodes apresentada pelo Ministério do Meio Ambiente, o desmatamento da Amazônia passou de 7.536 quilômetros quadrados em 2018 para 11.594 em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro: crescimento de aproximadamente 54%. O dado descreve uma trajetória verificável, que deve pesar na avaliação política de seu legado. Não adiante reclamar dos temporais, das chuvas e dos ventos fortes, das quedas de árvores. Nem quando elas caem sobre os carros dessa quadrilha moral autocentrada.
Não basta lamentar enchentes, ciclones e mortes enquanto se concede apoio incondicional a projetos que desprezam a proteção ambiental. A galera do bem aqui quer é aproveitar a pandemia para passar a boiada sem que ninguém perceba. O voto participa da escolha de quem decide sobre fiscalização, emissões, uso do solo, habitação, drenagem, prevenção e resposta a desastres. Ele não controla o tempo, mas ajuda a definir quanto risco será produzido e quem terá proteção.
O litoral norte expõe a diferença entre proteger uma viagem e proteger uma vida. Em fevereiro de 2023, a tragédia deixou 65 mortos na região, 64 em São Sebastião e um em Ubatuba. A preocupação ambiental precisa alcançar as famílias que vivem nas encostas, os trabalhadores que sustentam o turismo e as comunidades que permanecem ali depois do feriado. Quando só começa com o cancelamento da reserva, ela ainda é defesa do conforto.
Esse Klabin simbólico é uma fortaleza de conveniências: exige Estado para proteger patrimônio, mas hostiliza políticas que protegem pessoas; invoca liberdade para si e disciplina para os outros; proclama virtude enquanto escolhe quais suspeitas merecem silêncio.
Quando essa mentalidade ganha, o Brasil perde porque os direitos encolhem até caber no condomínio. A democracia vira serviço sujeito à aprovação do cliente. O meio ambiente importa até a próxima viagem. A pobreza recebe uma tigela de sopa e uma ordem para não incomodar.
Uma sociedade pode conviver com a prosperidade de seus bairros. O que ela não suporta indefinidamente é a prosperidade financeira erigida em autorização para desprezar o resto do país. A piscina dos condomínios de luxo do cidadão de bem do Klabin sempre esteve cheia de ratos.
Wagner Belmonte é jornalista












