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Sempre teremos Paris? – por Marlene Polito

A frase ecoa com a suavidade melancólica de quem já sabe que está se despedindo. No final de Casablanca, Rick não oferece uma promessa de futuro. Oferece um abrigo no passado.

Não por acaso, Paris, ali, deixa de ser apenas um lugar. Torna-se uma ideia, uma das mais persistentes do imaginário moderno: a de que, em meio às mudanças inevitáveis, algo ainda pode permanecer.

A frase – “We’ll  always have Paris” – não é exatamente uma afirmação de permanência. É, antes, um consolo sofisticado. Paris ali não é a cidade; é o instante preservado, quase uma cápsula emocional imune ao desgaste do tempo.

E é justamente por isso que ela resiste.

Rick e Ilsa não podem repetir o que viveram. O presente impõe suas exigências, suas responsabilidades, seus limites. Mas há algo que não lhes pode ser retirado: aquilo que existiu em estado pleno, antes da ruptura.

Paris, nesse contexto, deixa de ser geografia. Torna-se território simbólico.

É o lugar onde a experiência se fixa sem ser contaminada pelo que veio depois. Um espaço onde o amor permanece intacto, não porque continua, mas porque não foi submetido ao desgaste da continuidade.

E aqui surge uma questão delicada. O que significa, afinal, “ter” Paris? Ter um passado preservado? Ou aceitar que o que resta é apenas a versão idealizada do que foi vivido?

Há ainda um gesto silencioso que sustenta essa memória: a renúncia. Rick não luta por Ilsa. Não insiste, não reivindica, não confronta o destino. Ele recua. E, ao recuar, preserva.

Intuitivamente, ele sabe que certas experiências só permanecem se não forem tocadas novamente. Há lembranças que sobrevivem justamente porque não foram submetidas à prova do tempo.

E é nesse ponto que o íntimo encontra a história. Porque Paris, muito antes de Rick e Ilsa, já era essa construção delicada entre o vivido e o imaginado.

No século XIX, sob a condução firme de Georges-Eugène Haussmann, a cidade foi redesenhada com uma ousadia quase brutal. Ruas estreitas cederam lugar a grandes bulevares, bairros inteiros desapareceram para dar lugar a uma nova ordem urbana. Houve ruptura, perda. Mas também nasceu uma paisagem que moldaria o olhar moderno.

Ao mesmo tempo, nos salões e nos cafés, outra Paris se consolidava. Menos visível, mas talvez mais duradoura. Ali, ideias circulavam com intensidade rara. A arte se reinventava. A filosofia deixava os tratados e ganhava voz nas mesas, nas conversas, nos encontros que atravessavam a madrugada.

Café de Flore, cenário habitual das conversas de Sartre e Beauvoir
Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons

Era uma Paris sofisticada, intelectual, mas também intensamente humana, feita de inquietação, de ruptura, de busca.

Uma Paris que ultrapassou suas próprias fronteiras. O que ali se pensou, se pintou, se escreveu encontrou eco em outras culturas, outros países, outras sensibilidades. Tornou-se linguagem compartilhada. Tornou-se referência.

E, como acontece com tudo o que nos marca profundamente, também se tornou memória idealizada.

Era uma Paris sofisticada, intelectual, mas também intensamente humana, feita de inquietação, de ruptura, de busca. Uma Paris que ultrapassou suas próprias fronteiras. O que ali se pensou, se pintou, se escreveu encontrou eco em outras culturas, outros países, outras sensibilidades. Tornou-se linguagem compartilhada. Tornou-se referência. E, como acontece com tudo o que nos marca profundamente, também se tornou memória idealizada.
Imagem: Reprodução/Google Art

Era uma Paris sofisticada, intelectual, mas também intensamente humana, feita de inquietação, de ruptura, de busca.

Uma Paris que ultrapassou suas próprias fronteiras. O que ali se pensou, se pintou, se escreveu encontrou eco em outras culturas, outros países, outras sensibilidades. Tornou-se linguagem compartilhada. Tornou-se referência.

E, como acontece com tudo o que nos marca profundamente, também se tornou memória idealizada.

Era uma Paris sofisticada, intelectual, mas também intensamente humana, feita de inquietação, de ruptura, de busca. Uma Paris que ultrapassou suas próprias fronteiras. O que ali se pensou, se pintou, se escreveu encontrou eco em outras culturas, outros países, outras sensibilidades. Tornou-se linguagem compartilhada. Tornou-se referência. E, como acontece com tudo o que nos marca profundamente, também se tornou memória idealizada.
Imagem: Reprodução/Wikicommons

Mas essa permanência não é isenta de tensão. A Paris contemporânea convive com os efeitos de um mundo acelerado, globalizado, por vezes excessivo. O turismo massivo, a transformação dos espaços, a padronização das experiências desafiam justamente aquilo que a tornou única.

Ainda assim, algo resiste, não intacto, mas reconhecível.

E talvez seja inevitável perguntar: ainda há espaço para esse tipo de permanência?
Num tempo em que tudo se renova, se substitui, se esquece com rapidez, o que significa preservar? O que, de fato, conseguimos manter – uma cidade, uma experiência, uma forma de sentir?

E talvez seja esse o ponto em que tudo se encontra.

A Paris de Rick e Ilsa.
A Paris dos artistas e pensadores.
A Paris que imaginamos, mesmo sem nunca termos vivido ali.

Todas coexistem. Nenhuma, porém, pode ser plenamente recuperada.

E então a pergunta retorna, agora mais densa, mais inquieta: Sempre teremos Paris? Ou teremos apenas aquilo que fomos capazes de preservar – na memória e no imaginário?

Talvez seja esse o verdadeiro sentido da frase.  Não a garantia de permanência, mas a delicada arte de não deixar desaparecer.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. polito@uol.com.br

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