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Trump joga luz e sombras para a democracia brasileira em 2026 – por Simão Pedro

A ação militar de Trump na Venezuela muda completamente o cenário político e econômico para o Brasil em 2026

A agressão militar de Trump contra a Venezuela – a primeira da história em um país da América do Sul – que resultou em mais de 100 mortes e o sequestro de Maduro e sua mulher traz algumas situações de preocupação para a disputa eleitoral de 2026 e que poderá atingir principalmente o processo democrático, a soberania nacional e, por consequência, a candidatura Lula e o Partido dos Trabalhadores. A ação minuciosa dos militares estadunidenses coordenados pela CIA revelou a prática de cooptação, traição, suborno, infiltração e ação militar articulados em nível sofisticado e muitíssimo bem organizado.

Tanto que a reação inicial do governo Lula foi de perplexidade e um tanto tardia, enquanto diversos outros governos já haviam se posicionado contra ou a favor da invasão militar. Essa situação traz muitas dúvidas sobre a capacidade da inteligência dos órgãos de segurança do estado brasileiro de garantir o mínimo de reação ou prevenção sobre possíveis ações semelhantes. Também é histórico o nível de relação do exército brasileiro, parte do empresariado nacional e multinacional e da mídia corporativa com as forças armadas norte-americanas, órgãos de espionagem e de decisões sobre ações de desestabilizações de governos, como aconteceu em 1964, no golpe contra Dilma Rousseff e a prisão de Lula feitos a partir, por exemplo, de parceria do Departamento de Estado Americano com Moro e a Lava-Jato.

Esses e outros cenários apontam que a disputa eleitoral de 2026 poderá se consumar em manipulação via redes sociais controladas pelas Big Techs e pela mídia submissa, cooptação, suborno e compra de votos em níveis nunca imaginados. Os órgãos de controle como o TSE e o STF serão amplamente testados nas eleições estaduais e nacional. A capacidade de reação popular das forças progressistas em defesa de um processo democrático também será colocada sistematicamente à prova. Mesmo assim, os resultados poderão ser contestados na base da violência talvez maiores do que o 8 de janeiro com ajuda norte-americana.

O que poderá atenuar e tem atenuado é que Trump e seu séquito de empresários bilionários não jogam dinheiro fora. As negociações sobre o tarifaço e as reações políticas em relação ao julgamento e à prisão de Bolsonaro e os golpistas demonstraram que, ao contrário do que os extremistas brasileiros, como Tarcísio de Freitas, que só viram as consequências políticas internas, os trumpistas preferiram a estratégia de apertar o laço e negociar o preço e os lucros. Foi assim na Venezuela, porém, com uso do poderio militar, mas a entrega do poder não foi para os fascistas empresariais do país, até o momento. Tudo indica que aconteceram negociações entre os membros do chavismo para garantir a presença maior das petrolíferas norte-americanas, como fizeram com o pré-sal brasileiro a partir de 2016, na primeira gestão de Trump, e sancionado por Temer.

Gigantes do petróleo dos EUA como a ConocoPhillips e a Exxon Mobil, que se retiraram da Venezuela após a onda de nacionalizações dos chavistas, estão ansiosos para retomar esse negócio lucrativo. A Chevron, o único grupo petrolífero norte-americano que ainda opera na Venezuela, também só espera a oportunidade de ampliar de forma significativa suas atividades sob condições políticas e econômicas melhores; ao permanecer no país, espera ter a melhor posição estratégica de partida para isso. “Estamos jogando um jogo de longo prazo”, citou recentemente no New York Times o CEO da Chevron, Michael Wirth. A empresa quer estar presente no local para ajudar a reconstruir a economia venezuelana “quando as circunstâncias mudarem”.

Porém, nada garante que Trump venha a manter uma postura de relação comercial nos próximos meses. A agressão militar na Venezuela foi semelhante às ações de pirataria do século 16 alimentadas pelo império britânico, onde aconteciam os saques autorizados sem a necessidade de uma guerra formal e de grande escala. Sua ambição vai além da América do Sul como todos estão cansados de saber. É uma escalada planetária que pode ter início, mas não saberemos como poderá terminar. Ao que tudo indica, o termômetro que determina as ações de desestabilizações e queda de governos pelos Estados Unidos está baseado nos conflitos políticos internos do próprio país (caso Epstein, reação contra o ICE, queda de popularidade), muito além dos impactos causados pelos avanços da China ou de blocos econômicos como os Brics.

Em todos os conflitos, como o da Ucrânia, Trump tem demarcado posição de não agressão deliberada com Rússia e China. Um cenário que envolva reação nuclear é um jogo de perda para todos e isso não interessaria a ninguém. Porém, as ações agressivas do presidente norte-americano poderão descambar para um retorno de não volta, já que as consequências poderão escalar conflitos regionais e políticos no Oriente Médio, na Ásia e Europa como já estamos presenciando principalmente no Irã, e logo mais poderão atingir Taiwan e Groelândia.

Portanto, a ação militar de Trump na Venezuela muda completamente o cenário político e econômico para o Brasil em 2026. A extrema direita está tentando se reagrupar em um nome que una seus interesses. A aposta ainda é em Tarcísio de Freitas. O aparente racha provocado pela candidatura anunciada de Flávio Bolsonaro ao que parece se configura em mais um jogo para livrar o pai da cadeia, via Congresso Nacional, como foi com a lei da Dosimetria vetada pelo presidente Lula. A ação dos fascistas será por uma nova tentativa de libertação ou atenuação de pena, o que vai provocar um novo clima de guerra política e polarização no Congresso.

O governo Lula tem na economia seu grande trunfo eleitoral e de popularidade. Porém, a extrema direita, via articulação internacional e no Congresso Nacional, tem reagido para se manter no páreo em 2026, seja nas urnas ou, em última instância, no uso novamente da violência, torcendo para que Trump ajude neste sentido. Nada poderá ser considerado absurdo depois do bombardeio e sequestro na Venezuela.

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