E bota sofrimento nisso!
É muito sofrimento para um torcedor, como eu, que entra em campo para atacar e volta correndo para a defesa tentando parar o contra-ataque inimigo.
Quando eles atacavam, a impressão que eu o torcedor sentíamos era do ataque de uma esquadra japonesas com pilotos kamikazes dispostos a enfrentar e vencer qualquer perigo que aparecesse.
Confesso que ao longo desta longa estrada da vida de torcedor nunca sofri tanto assim com a amada Seleção Brasileira.
Você vai perguntar: nem nos 7 a 1?
Não, naqueles 7 a 1 não houve tempo para sofrimento. Ao final do jogo, o sentimento não foi tanto de sofrimento, mas de absurda e absoluta perplexidade.
Nunca tive decepções com a Seleção? É claro que sim.
Porém, sofrer assim, minuto a minuto durante mais de uma hora…
Não, assim não.
Todos nós sabíamos que os japoneses são muito velozes e muito disciplinados taticamente.
Eles não dariam espaço.
Como, de fato, não deram.
Mas ninguém contava com o gol deles aos 29 minutos do primeiro tempo.
Uma simples falha na defesa resultou em Japão 1 a 0.
Os jogos difíceis são decididos assim, em pequenos detalhes.
Sempre há a esperança de que vai dar tempo para virar.
Mas terminou o primeiro tempo e nada.
Mal começou o segundo tempo, aos 10 minutos, empatamos.
Quis o destino que o autor do gol fosse Casemiro, o mesmo Casemiro que falhou no gol japonês.
Daí, foi mais de meia hora de sofrimento.
Toda vez que um japonesinho escapava em velocidade pelas pontas, eu já via a bola balançando nossas redes.
Até que nos acréscimos Gabriel Martinelli conseguiu mandar para as redes deles com o gol da virada.
Da virada e da vitória.
Mas o que houve com o tão decantado futebol brasileiro?
Primeiro é preciso analisar o adversário.
O Japão já não é mais o mesmo.
Não se trata mais daquela turma que corria desembestada atrás da bola como se fosse um bando de cabras espantadas.
E os brasileiros têm muita participação nisso.
Após a aposentadoria do Flamengo, ainda com muita energia e futebol de craque, Zico foi jogar lá, tentando ensinar o que parecia ser impossível: ensinar japonês a jogar bola.
Depois assumiu a Seleção Nacional japonesa.
Até hoje, ele é lembrado naquelas lonjuras como ‘kamisama’ (termo em japonês para ‘Deus’ ou ‘divindade’, usado ali como o Deus do Futebol).”
Por lá também passaram com sucesso Toninho Cerezo e Nelsinho Batista, entre muitos outros.
Eles aprenderam a jogar futebol.
No jogo de hoje vimos mais jogadas individuais, como dribles, por parte do time japonês.
Aliás, esse é um grande problema no nosso futebol que precisa ser analisado com mais calma: nós não chutamos de fora da área.
É comum ver no Brasileirão atacantes tentando entrar com bola e tudo para marcar o gol.
Vimos também isso no jogo desta segunda-feira: Rayan é um jogador celebrado por seus dribles ali na altura da ponta direita que terminavam em gols no Vasco da Gama.
Hoje o que mais se viu foi Rayan tocando bola para trás ou para o lado. Não me lembro de um só drible que ele tenha dado.
E Endrick? Normalmente um grande driblador, um foguete em arrancadas fulminantes, chegou a invadir a área em uma jogada, mas ao invés de chutar para o gol, passou para outro jogador que estava atrás.
Vini Jr. também foi muito econômico nos seus dribles.
Mas não havia espaço, você há de exclamar.
O espaço, meu amigo, se cria.
No futebol de salão há muito menos espaços e mito mais dribles.
Enfim, o sofrimento não foi só nosso, pois lá dentro de campo eles os nossos jogadores também sofreram.
O que eu espero é que esse sofrimento todo seja transformado em energia, em força, em resultados positivos nos próximos jogos.
Costa do Marfim ou Noruega?
Um dos dois será o próximo adversário do Brasil.
Teoricamente será mais fácil jogar contra a Costa do Marfim, país que já festejou a façanha de sua seleção nesta Copa.
Mas quem gosta de um bom futebol há de preferir a Noruega: um time mais forte, dono de um futebol mais técnico, bonito de se assistir.
Sim, poderá ser um jogaço.
Mas tenho medo.
Prefiro Costa do Marfim.
Veja os gols:

Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.











