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Valeu o sofrimento, Brasil! – por Mário Marinho

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E bota sofrimento nisso!

É muito sofrimento para um torcedor, como eu, que entra em campo para atacar e volta correndo para a defesa tentando parar o contra-ataque inimigo.

Quando eles atacavam, a impressão que eu o torcedor sentíamos era do ataque de uma esquadra japonesas com pilotos kamikazes dispostos a enfrentar e vencer qualquer perigo que aparecesse.

Confesso que ao longo desta longa estrada da vida de torcedor nunca sofri tanto assim com a amada Seleção Brasileira.

Você vai perguntar: nem nos 7 a 1?

Não, naqueles 7 a 1 não houve tempo para sofrimento. Ao final do jogo, o sentimento não foi tanto de sofrimento, mas de absurda e absoluta perplexidade.

Nunca tive decepções com a Seleção? É claro que sim.

Porém, sofrer assim, minuto a minuto durante mais de uma hora…

Não, assim não.

Todos nós sabíamos que os japoneses são muito velozes e muito disciplinados taticamente.

Eles não dariam espaço.

Como, de fato, não deram.

Mas ninguém contava com o gol deles aos 29 minutos do primeiro tempo.

Uma simples falha na defesa resultou em Japão 1 a 0.

Os jogos difíceis são decididos assim, em pequenos detalhes.

Sempre há a esperança de que vai dar tempo para virar.

Mas terminou o primeiro tempo e nada.

Mal começou o segundo tempo, aos 10 minutos, empatamos.

Quis o destino que o autor do gol fosse Casemiro, o mesmo Casemiro que falhou no gol japonês.

Daí, foi mais de meia hora de sofrimento.

Toda vez que um japonesinho escapava em velocidade pelas pontas, eu já via a bola balançando nossas redes.

Até que nos acréscimos Gabriel Martinelli conseguiu mandar para as redes deles com o gol da virada.

Da virada e da vitória.

Mas o que houve com o tão decantado futebol brasileiro?

Primeiro é preciso analisar o adversário.

O Japão já não é mais o mesmo.

Não se trata mais daquela turma que corria desembestada atrás da bola como se fosse um bando de cabras espantadas.

E os brasileiros têm muita participação nisso.

Após a aposentadoria do Flamengo, ainda com muita energia e futebol de craque,  Zico foi jogar lá, tentando ensinar o que parecia ser impossível: ensinar japonês a jogar bola.

Depois assumiu a Seleção Nacional japonesa.

Até hoje, ele é lembrado naquelas lonjuras como ‘kamisama’ (termo em japonês para ‘Deus’ ou ‘divindade’, usado ali como o Deus do Futebol).”

Por lá também passaram com sucesso Toninho Cerezo e Nelsinho Batista, entre muitos outros.

Eles aprenderam a jogar futebol.

No jogo de hoje vimos mais jogadas individuais, como dribles, por parte do time japonês.

Aliás, esse é um grande problema no nosso futebol que precisa ser analisado com mais calma: nós não chutamos de fora da área.

É comum ver no Brasileirão atacantes tentando entrar com bola e tudo para marcar o gol.

Vimos também isso no jogo desta segunda-feira: Rayan é um jogador celebrado por seus dribles ali na altura da ponta direita que terminavam em gols no Vasco da Gama.

Hoje o que mais se viu foi Rayan tocando bola para trás ou para o lado. Não me lembro de um só drible que ele tenha dado.

E Endrick? Normalmente um grande driblador, um foguete em arrancadas fulminantes, chegou a invadir a área em uma jogada, mas ao invés de chutar para o gol, passou para outro jogador que estava atrás.

Vini Jr. também foi muito econômico nos seus dribles.

Mas não havia espaço, você há de exclamar.

O espaço, meu amigo, se cria.

No futebol de salão há muito menos espaços e mito mais dribles.

Enfim, o sofrimento não foi só nosso, pois lá dentro de campo eles os nossos jogadores também sofreram.

O que eu espero é que esse sofrimento todo seja transformado em energia, em força, em resultados positivos nos próximos jogos.

Costa do Marfim ou Noruega?

Um dos dois será o próximo adversário do Brasil.

Teoricamente será mais fácil jogar contra a Costa do Marfim, país que já festejou a façanha de sua seleção nesta Copa.

Mas quem gosta de um bom futebol há de preferir a Noruega: um time mais forte, dono de um futebol mais técnico, bonito de se assistir.

Sim, poderá ser um jogaço.

Mas tenho medo.

Prefiro Costa do Marfim.

Veja os gols:

FOTO SOFIA MARINHO

Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

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