As eleições estão batendo à porta. A cada dia crescem as expectativas para ver que candidato se destaca na corrida rumo ao Palácio do Planalto, ao governo do estado e ao Congresso. Para atender a esses anseios, multiplicam-se as pesquisas, com resultados nem sempre tão semelhantes. Por isso, muitos desconfiam dos números divulgados.
Afinal, devemos ou não acreditar nas pesquisas de opinião? Muitos daqueles que se sentem prejudicados pelos institutos costumam questionar, sem nenhum amparo científico: “você já foi consultado em alguma pesquisa?”. E complementam: “eu nunca fui”. Como, então, acreditar nesses dados que ninguém sabe como foram coletados?
De maneira geral, nas pesquisas sérias, procura-se controlar o viés de seleção, utilizar amostras representativas para evitar falhas e variar a ordem das perguntas para não induzir respostas viciadas. Com longos anos de prática, acertando e refazendo rumos, os resultados passaram a atingir maior precisão, e os dados tornaram-se cada vez mais confiáveis.
Muitos seguem a manada
Ainda assim, é preciso analisar os resultados com cautela, especialmente quando há envolvimento político. A tendência de parte do eleitorado é seguir a manada. Não é incomum as pessoas dizerem que não querem “perder o voto”. Ou seja, deixam de escolher um candidato em quem acreditam para apoiar aquele que aparenta ter mais chances de vencer.
Uma pesquisa bem conduzida deve apresentar metodologia clara, amostra representativa, margem de erro conhecida e instrumentos capazes de medir, de fato, aquilo que se propõe a avaliar, sem distorções relevantes. Quando esses critérios são respeitados, os estudos tendem a oferecer retratos consistentes de uma realidade específica.
A teoria na prática é outra
A teoria, entretanto, nem sempre se confirma integralmente na prática. Uma de minhas formações acadêmicas é em Ciências Econômicas. Um dos professores que mais me marcaram lecionava Estatística e, sempre que podia, repetia de maneira solene: “Cuidado com as pesquisas e as estatísticas. Muitas delas são falsas e mentirosas”.
Os números, de fato, podem esconder armadilhas. Certos dados são apresentados ora para atender às conveniências de uns, ora aos interesses de outros. Como a maioria das pessoas não possui formação técnica para analisar essas informações, tende a aceitá-las como autênticas sem questionamento mais profundo.
Premissas estabelecidas por sofismas
Esse entendimento torna-se mais ou menos criterioso conforme a forma como os dados são apresentados. Quando divulgados por escrito, há mais condições de avaliar a consistência dos números. Já na comunicação oral, especialmente em palestras e conferências, nem sempre é possível verificar fontes, métodos e recortes utilizados.
As premissas se introduzem de maneira sutil, muitas vezes por meio de sofismas que confundem o raciocínio e conduzem o público a aceitar conclusões aparentemente lógicas. Enquanto os ouvintes ainda tentam refletir sobre o que foi exposto, o orador já avançou para outros pontos da exposição.
A manipulação fere a ética
A questão central repousa na ética, ou na falta dela, ao transmitir informações. Entre os extremos de total rigor e da manipulação deliberada existe um campo cinzento que se altera conforme a época, a cultura, as circunstâncias e os interesses envolvidos.
Informações propositalmente falsas, contudo, ferem princípios éticos independentemente do contexto. Quantos de nós já ouvimos anúncios de sabonetes ou cremes dentais afirmando, com pequenas variações, que determinadas substâncias são aprovadas por nove em cada dez pessoas pesquisadas? A mensagem sugere excelência quase incontestável.
Comparações distintas
Mas quem foram essas pessoas? Como foram escolhidas? Esses mesmos ingredientes também não estão presentes em produtos concorrentes que não foram mencionados? Omitir dados relevantes para influenciar a decisão do consumidor pode, de fato, ser considerado uma conduta ética?
Para minimizar informações negativas, por exemplo, um órgão governamental pode comparar números atuais com os do ano anterior, que já eram muito ruins, para afirmar que a situação não piorou tanto. Deixa de dizer, entretanto, que, se a comparação fosse feita com os dados do início de sua gestão, o resultado poderia ser considerado catastrófico.
Percentuais versus números absolutos
Da mesma forma, quando convém, os resultados são apresentados em números absolutos; quando é mais vantajoso, em percentuais. A percepção muda significativamente. Dizer que a criminalidade em determinada região aumentou apenas 0,01% pode parecer irrelevante. Quando se percebe que esse percentual corresponde a mil pessoas assassinadas, a interpretação já não é a mesma.
A conduta responsável e ética deve pautar todas as nossas ações. Divulgar números, estudos, estatísticas e pesquisas sabendo que os dados ocultam informações relevantes não contribui para uma sociedade mais consciente. Manter uma postura crítica, atenta a possíveis distorções, e alertar sobre omissões e manipulações é, acima de tudo, um exercício de cidadania.












