Se os romances sobre a trajetória de retirantes que fugiam da seca se apresentam como referência para narrar dramas e tragédias que assolavam a região, o cancioneiro nordestino também deu imensa contribuição para chamar a atenção dos poderes públicos sobre a vida nordestina. Cantos e ritmos, principalmente, o xaxado, o forró, o xote e o baião, estilos de dança e de música tradicionais no Nordeste, acentuam um significado folclórico e cultural marcante.
O Nordeste sempre muito cantado em prosa e verso. Meu pai lembrava aos filhos as passagens de tempos sofridos, como a tragédia de 1915, quando legiões de famintos, nas ruas das cidades, mendigavam um tiquinho de comida, chegando ao cúmulo de “assar sapatos” (isso mesmo) para comer. Recordava grandes secas: 1942, 1952/53. Lembro bem a seca de 1958, quando eu tinha 13 anos.
“Seu” Gaudêncio, mesmo sendo um homem destemido, tinha medo da seca. Essa era uma palavra recorrente de seu dicionário. Ao lado da palavra chuva. A de 1953 levou o canto nordestino para todos os rincões, pela voz de Luiz Gonzaga. A região nesse ano, se mobilizou. Zé Dantas, o letrista de Gonzagão, escreveu em 1953 a belíssima “Vozes da Seca”, cantado pelo vozeirão de Luiz Gonzaga:
“Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão/ Pelo auxílio dos sulistas/ nesta seca do sertão/Mas doutor, uma esmola/ a um homem que é são/Ou lhe mata de vergonha/ ou vicia o cidadão/livre assim nóis da esmola/ que no fim da estiagem/ lhe pagamo inté com o juro/sem gastar nossa coragem”.
Esse era o hino que impulsionava o orgulho dos nordestinos. Papai era fã da toada-baião, mas sua primeira opção era o xote, que animava as suas danças primorosas (como veremos adiante). E se os versos falavam de seca – e muitas músicas da dupla Zé Dantas e Luiz Gonzaga abrigavam a temática – ele os recitava. Mais adiante, em 1964, Gonzagão gravava a bela canção do cearense Patativa de Assaré – A Triste Partida –, que narra a saga de uma família nordestina ao deixar o seu rincão, para tentar a vida em São Paulo. Algumas estrofes do poema:
“Setembro passou, com outubro e novembro Já tamo em dezembro. Meu Deus, que é de nós? Assim fala o pobre do seco Nordeste, Com medo da peste, Da fome feroz. A treze do mês ele fez a experiença, Perdeu sua crença Nas pedra de sá. Mas nôta experiença com gosto se agarra, pensando na barra Do alegre Natá. Rompeu-se o Natá, porém barra não veio, O só, bem vermeio, Nasceu munto além. Na copa da mata, buzina a cigarra, Ninguém vê a barra, Pois barra não tem. Sem chuva na terra descamba janêro, Depois, feverêro, E o mêrmo verão. Entonce o rocêro, pensando consigo, Diz: isso é castigo! Não chove mais não! Apela pra maço, que é o mês preferido Do Santo querido, Senhô São José. Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito, Lhe foge do peito O resto da fé….
Até hoje, a seca cultiva medo. O fenômeno se faz presente em centenas de letras e canções, sendo uma marca indelével da nordestinidade. Meu pai, proprietário de terras, procurava abrir fontes de água por todos os lados. Tinha um cacimbão em um sítio pertinho de nossa casa, que chamávamos de Baixa, onde jorrava um veio d’água, de forma perene, uma benção dos Céus para enfrentar os dissabores da seca.
Com a mesma preocupação, construiu uma grande cisterna em nosso casarão, que, até hoje acumula água para suprir os serviços domésticos. “Seu” Gaudêncio era um homem precavido.











